As firulas tecnológicas não agradam ao freguês

O cliente não está nem aí para as tecnologias em um carro, como o ESC ou a multi-link, e só se importa com o preço e o design

Por BORIS FELDMAN21/06/18 às 15h00

Um dia, eu estava na apresentação de um novo automóvel, com vários outros jornalistas especializados e executivos da fábrica. Discutíamos sobre as características técnicas do novo modelo, se a suspensão era assim ou assado, qual o motor mais adequado ou se a melhor roda seria a maior ou a menor, e outras firulas tecnológicas do gênero. Claro que, entre especialistas, surgiram divergências e argumentos defendendo ou criticando determinadas soluções adotadas no modelo.

firulas tecnológicas dos carros não agradam aos clientes
(Dodge/Divulgação)

Numa dessas rodinhas estava um engenheiro da fábrica que tinha participado do desenvolvimento do projeto e interessado no que diziam os jornalistas. Alguns com dezenas de anos dedicados ao assunto, participando de centenas de lançamentos e dirigindo outro tanto de automóveis pelo mundo. Num momento, o tal engenheiro, até então ouvindo mais que falando, decidiu intervir numa questão que – ao contrário do que pensavam os jornalistas – tinha muito mais de bom senso que de técnica. “Penso como vocês – disse ele – em relação a este motor, realmente antigo e que já poderia ter sido substituído por outro mais moderno e eficiente”. E acrescentou que a empresa já o produzia em outros dois países. E porque não importá-lo ou fabricá-lo também no Brasil, foi a pergunta de um jornalista.

“Por vários motivos” – disse o engenheiro. “Importá-lo seria uma excelente ideia desde que algum de vocês assine embaixo que o valor do dólar vai se manter estável por pelo menos cinco anos. Por outro lado, fabricá-lo no Brasil exigiria investimentos de cerca de 250 milhões de dólares”. Se o assunto é levado à matriz, seus altos executivos perguntam, em primeiro lugar, se o antigo motor atende as exigências legais de emissões. E mercadológicas em relação ao desempenho e consumo. Caso contrário, o custo para modernizá-lo ao invés de investir num outro. E a questão derradeira e fatal: “Nas pesquisas, qual o grau de insatisfação dos clientes com o motor atual?”.

“Automóvel não é produzido para quem gosta e entende como nós, mas para atender a legislação ou a demanda do mercado”, arrematou. E deu um exemplo definitivo: “Em casa, temos dois modelos semelhantes, um verde a diesel, um preto a gasolina e minha mulher usa ambos. Outro dia perguntei qual o de sua preferência e ela disse ser o verdinho. “Ah, o diesel!” eu disse. E ela retrucou: “Não sei, qual a diferença?”.

Enquanto os “cobras” no assunto discutem se o motor deve ter duas ou quatro válvulas, se a suspensão traseira deve ser multi-link ou eixo de torção e abominam o japonês topo-de-linha que –absurdo! – não tem controle de estabilidade (ESC), o presidente da fábrica quer saber se há insatisfação do cliente com aquele item, se o exige ao decidir pela compra do carro e o custo do investimento para atendê-lo. E que se dane a meia-dúzia de apaixonados pelas firulas tecnológicas.

Um jornalista na roda disse que tinha recebido uma ligação meia hora antes de um cunhado que pedia sua opinião pois estava numa concessionária comprando um carro. Ele quis saber qual era o modelo e ouviu o cunhado perguntando para o vendedor: “Como se chama mesmo aquele branquinho alí?”

O que faz o consumidor padrão se decidir por um automóvel é, pela ordem: preço, design, índice de alergia à oficina e valor de revenda. Consumo de combustível pode atrapalhar, se for muito alto. Firulas tecnológicas? Ele não tem nem ideia do que vem a ser o ESC. Não sabe quantos cilindros tem o motor, nem se está na frente ou atrás.

Boris Feldman

Jornalista e engenheiro com 50 anos de rodagem na imprensa automotiva. Comandou equipes de jornais, televisão e apresenta o programa AutoPapo em emissoras de rádio em todo o país.

Boris Feldman

2 Comentários

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  • Joaquim 21 de junho de 2018

    Carro hoje em dia, por causa da legislação globalista que mente sobre meio ambiente só para controlar o capitalismo no mundo, tornou o carro um bem tão descartável quanto uma geladeira. Não dá gosto comprar carro hoje, feios e de plástico.

  • Maycon 21 de junho de 2018

    Nunca tinha lido uma reportagem tão objetiva, lúcida e verdadeira. É realmente isso! Só faltou dizer que quanto mais atrasado educacionalmente o País, menos o consumidor se importa com tais “firulas”, mesmo quando elas são muito mais que isso (como o ESC citado).
    Parabéns!

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