Indústria da multa: sou a favor

Mesmo que me aborreçam, defendo os limites de velocidade e os radares para obrigar os motoristas a respeitá-los

Por BORIS FELDMAN15/03/18 às 13h30

Desci outro dia, tarde da noite, no aeroporto de Guarulhos e tomei um táxi para um hotel no centro de São Paulo. O motorista dirigia bem e andava rápido, mas sem exageros. Até que levantou o pé e o carro quase parou. Estranhei, perguntei e ele me explicou: “Estamos na marginal”. Naquele horário, a via estava quase vazia, e ele em ritmo de lesma. Me lembrei, então, da mudança dos limites de velocidade que a prefeitura havia imposto naquela época, causando polêmica e acumulando críticas à tal da indústria da multa.

radar de velocidade indústria da multa

Andar daquele jeito era um contrassenso e me ocorreu que, pelo menos durante as horas mais avançadas da noite, o limite de velocidade poderia voltar a ser de 90 km/h. Este é um sistema que já existe na Europa: a velocidade é determinada eletronicamente em painéis luminosos e varia de acordo com as condições da estrada.

Velocidade máxima será sempre um ponto de discórdia. Quem, como eu, gosta de acelerar, vai sempre criticar e lembrar às autoridades brasileiras que na Alemanha não existe limite nas rodovias e nem por isso se vê um genocídio no asfalto. Nem todos os motoristas podem ter habilidade ao volante, mas nas autobahnen só rodam automóveis modernos e dotados de dispositivos de segurança. Não há BMV (Brasilia Muito Velha) ou outras temeridades mecânicas colocando em risco a segurança de todos, como no Brasil.

Mesmo que me aborreçam, defendo os limites de velocidade e os radares para obrigar os motoristas a respeitá-los. Melhor ainda seria a fiscalização que apura a média de tempo para percorrer o trecho entre dois pontos, colocando fim à hipocrisia de frear antes do radar e pisar fundo depois dele.

Além disso, o limite de velocidade é sempre discutível, pois há incoerências em seus valores, fazendo uma minoria dos apaixonados pelo automóvel – e pela velocidade – bradar contra a indústria da multa. Entretanto, existem outras infrações que dependem de policiais na rua para autuar o motorista como o desrespeito à faixa de pedestres, falar ao celular, ou não sinalizar mudança de faixa e conversões. O avanço de sinal também já é detectado eletronicamente.

O professor Horácio Figueira, especialista em transportes da USP, fez há tempos uma pesquisa sobre infrações colocando fiscais para anotá-las em esquinas da cidade de São Paulo e concluiu o seguinte:

  1. Apenas 30% dos motoristas cometem irregularidades no trânsito
  2. Para cada notificação emitida, mais de quatro mil não são registradas

Bastaria, portanto, uma efetiva fiscalização do trânsito para se emitir pelo menos dez vezes mais multas. Mesmo considerando-se uma desejada redução das infrações com o maior rigor nas autuações. Não há nada melhor que a indústria da multa para sossegar os ânimos de quem comete infração a torto e a direito, com a quase certeza da impunidade, considerando o reduzido número de autuações em relação ao estarrecedor volume de infrações cometidas.

A falta de fiscalização é a responsável pela maioria das distorções observadas no trânsito e em sua legislação. Inclusive a inexplicável Lei Seca, que impede o motorista de acompanhar sua refeição com uma única taça de vinho. Nosso código de trânsito estabeleceu, há mais de vinte anos, um teor alcoólico razoável, coerente com os de países mais desenvolvidos e sem prejuízo aos reflexos do motorista. Bastaria ter treinado os policiais do bafômetro a separarem o joio do trigo, autuando apenas os bêbados ao volante. O equipamento, entretanto, só apareceu depois da Lei Seca, para barrar tanto quem bebeu um litro de cachaça como uma taça de vinho.

Não há outra solução. Só com a polícia nas ruas, fiscalizando e multando rigorosamente motoristas e automóveis – um absurdo o país não ter inspeção veicular -, é que se organiza o trânsito e se reduz o número recorde de mortos e feridos nas rodovias brasileiras.

Boris Feldman

Jornalista e engenheiro com 50 anos de rodagem na imprensa automotiva. Comandou equipes de jornais, televisão e apresenta o programa AutoPapo em emissoras de rádio em todo o país.

Boris Feldman

1 Comentário

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  • Julio Césarr 25 de março de 2018

    Os radares e as multas são assenciais em um país como o Brasil onde o povo tem imensa dificuldade em respeitar qualquer aviso, norma, regra, recomendação, etc. Aqui não é o Japão.

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