O cavalo e a besta

Os primeiros automóveis eram carruagens sem o cavalo à frente. Os autônomos vão perder a besta atrás do volante

Por BORIS FELDMAN04/09/16 às 14h54

Além dos automóveis, também os caminhões autônomos foram autorizados a circular experimentalmente nos EUA. Espanto geral: um caminhão autônomo rodando em elevadas velocidades assusta muito mais que o automóvel, por suas dimensões e peso.

Espanto sem nenhum fundamento pois as estatísticas norte-americanas indicam o contrário. A entidade responsável pela segurança rodoviária (NHTSA) revela que nada menos de 94% dos acidentes de trânsito são provocados pelo homem. Os três motivos principais: alcoolizado, em excesso de velocidade ou distraído. O caminhão autônomo não bebe nem toma “rebite”, respeita o limite de velocidade, não se cansa nem fica sonolento e não se distrai enviando mensagens pelo celular.

No frigir dos ovos, o veículo sem motorista inspira muito mais confiança e reduz as chances de acidentes. Outro órgão independente nos EUA calcula que, se 90% dos veículos rodando nas estradas fossem autônomos, o número de acidentes cairia de 5,5 milhões para 1,3 milhão por ano.

Além dos acidentes, caminhões (e ônibus…) autônomos reduziriam também significativamente o custo do transporte, pois poderiam rodar milhares de quilômetros sem necessidade de descanso. Ou de um segundo motorista. Nem o risco de greves por melhores salários. Enfim, na estrada, todas as vantagens da robotização na fábrica que tanto assustam os sindicatos.

Outro setor duramente atingido pelo caminhão autônomo seria o de restaurantes e motéis nas estradas, que perderia uma razoável parcela de clientes. Além disso, a frota de automóveis e caminhões poderia ser drasticamente reduzida pois teriam sua ociosidade praticamente eliminada: calcula-se também que um carro não chega a ser utilizado em 10% das 24 horas. No resto do tempo ele permanece imobilizado na garagem da casa ou do trabalho.

Automóveis autônomos vão revolucionar a infra-estrutura dos transportes. Nas metrópoles, reduziriam a necessidade de estacionamentos. E aumentariam a capacidade das estradas, pois rodariam mais próximos uns dos outros graças ao sistema “Lidar”: radares e sensores que mantêm o carro dentro de sua faixa e a distância entre um veículo e o da frente. Aliás, tecnologia já disponível em automóveis mais sofisticados, os chamados semi-autônomos.

No final do século 19, a grande virada no setor de transportes foi a carruagem ter perdido o cavalo que a tracionava. Os primeiros automóveis nos EUA, no início do século 20, eram identificados nas placas como ‘Horseless Carriage” ou “Carruagem sem cavalo”. E seu design lembrava mesmo uma carruagem com o quadrúpede substituído pelo motor.

Neste início do século 21, a grande virada será o automóvel perder a verdadeira besta que, em geral, vai atrás do volante. As placas dos carros autônomos poderiam identificá-los como “Beastless Automobile”. Assim como os primeiros automóveis produzidos há mais de um século lembravam as carruagens, a primeira geração de autônomos ainda tem carroceria semelhante à dos carros convencionais. Mas – a curto prazo – terão outro design pois serão elétricos (sem grade nem capô na dianteira) e seu interior vai dispensar painel, volante, pedais, alavancas…. Uma idéia de como serão é o autônomo projetado pelo Google que já roda experimentalmente na California (EUA).

Computadores já dirigem também os aviões, que contam com o piloto automático de fato: eles hoje já poderiam deixar a porta de embarque do aeroporto de origem, taxiar na pista, decolar, voar, aterrissar na pista de destino e encostar no portão de desembarque sem nenhuma interferência do piloto. Não é à tôa que circula uma piada sobre o avião do futuro: ele só terá na cabine de comando o piloto e um bull-dog. O piloto para alimentar o cachorro e este para avançar no piloto caso ele queira tocar em qualquer instrumento da cabine.


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