Crônica de uma morte anunciada

Poderosos executivos devem decidir hoje como evitar a ruína de suas empresas a médio prazo

Por Boris Feldman14/01/18 às 08h09

Se você fosse um alto executivo da japonesa NGK, tradicionalíssima fábrica de velas para motores, maior do mundo, que decisão tomaria diante de uma verdadeira encruzilhada: mais dia, menos dia, em um futuro breve, os motores a combustão estarão condenados e sua gigantesca empresa não terá mais para quem fornecer seu principal produto.

Aliás, os elétricos vão decretar a morte de dezenas de componentes além de velas: válvulas, pistões, anéis, bielas, virabrequins, bombas e dezenas de outros. O motor elétrico tem apenas três peças móveis: o eixo acoplado a um rotor e dois rolamentos. Pior (para os fabricantes, melhor para voê) ainda: como seu torque é constante, a caixa de marchas também já era.

Fornecedores de outros componentes ainda podem dormir em paz, pois o carro elétrico não vai dispensar vidros, rodas, suspensão, freio, direção, iluminação, airbags…

No futuro, carro elétrico irá provocar mudanças

Essa grande virada do setor automobilístico vai demorar, mas seu crescimento será acelerado: a venda de híbridos e elétricos que não chega a 2% do total de vendas atualmente, representará 25% de participação do mercado global até 2030, segundo especialistas.

E como a NGK pretende se safar desta morte anunciada? Diante da certeza de que o automóvel do futuro será elétrico, os engenheiros da marca japonesa estão desenvolvendo uma bateria que não usa os íons de lítio dos atuais veículos que rodam eletricamente. Aliás, a mesma adotada em celulares, tablets e outros aparelhos eletrônicos.

Chamadas baterias de estado sólido, a NGK se associou à Toyota para pesquisar eletrólitos baseados em sulfetos, que possuem condutividade superior aos íons de lítio, mas que podem liberar, expostos à umidade, os tóxicos sulfetos de hidrogênio.

Outra possibilidade é uma tecnologia baseada em óxidos e cerâmica estável a temperaturas extremas. Dispensável lembrar que a NGK domina como ninguém a tecnologia da cerâmica, pois é o principal composto das velas de ignição.

Seja qual for a tecnologia aplicada às baterias do futuro, elas são pesadas e exigem que os automóveis sejam cada vez mais leves. Aí está a outra grande virada do setor: no peso dos veículos.

Tanto as chapas da carroceria como a sua estrutura deverão ser repensadas para reduzir substancialmente o peso e permitir que os automóveis tenham razoável autonomia sem exigir uma grande quantidade de baterias. Aliás, quanto mais leve, mais eficiente um automóvel: reeduz consumo, ganha desempenho e tem freios e suspensão mais eficientes.

O aço do automóvel foi reduzido nos últimos anos, substituído por materiais mais leves e de resistência igual ou superior: alumínio, plástico e fibra de carbono. As próprias siderúrgicas trataram de se garantir desenvolvendo aços especiais de menor espessura, mais leves e competindo em peso com o alumínio.

É por isso que outro grande setor da indústria se vê igualmente na encruzilhada com a virada para o carro elétrico: o siderúrgico. Kosei Shindo, presidente da Nippon Steel (maior japonesa produtora de aço e sócia da Usiminas), comentou recentemente que se os automóveis com motor a combustão exigem redução do peso, os elétricos vão duplicar ou triplicar esta exigência. E, no seu caso, a sinuca de bico é decidir se continua somente investindo no aço ou se deveria também se associar a empresas que fornecem materiais que competem com o seu produto.

Além das aflições deste poderosos executivos que, se não tomarem hoje a decisão correta, poderão ver ruir suas companhias a médio prazo, o automóvel do futuro vai balançar dezenas de outras empresas do setor. Pois, além da propulsão elétrica, é óbvio que não demora a chegar o veículo autônomo. E aí: restaurante vai continuar oferecendo serviço de valet? Estacionamento? Família vai precisar de três ou quatro carros na garagem? Empresas de transporte terão motoristas para caminhões e ônibus? Esquinas deverão contar com sinais de trânsito? Carro deverá ser protegido por companhia seguradora?

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2 Comentários

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  • Altair 2 de maio de 2018

    Os executivos tem na tarefa de pensar e acertar o o incerto futuro o desafio da sobrevivencia. Situação dificil

  • GILSON SILVA 15 de janeiro de 2018

    Este futuro é muito aguardado. Que venha logo o carro elétrico!

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