Falem bem ou falem mal

Por Boris Feldman16/07/17 às 13h54

Brasileiro se preocupa com segurança?

Esta pergunta gerava controvérsia até o mês passado, quando se comprovou que o motorista é indiferente ao assunto. A comprovação veio com os testes de impacto lateral realizados pelo Latin NCAP no Chevrolet Onix que atribuíram “zero estrela” no requisito de proteção aos ocupantes do banco dianteiro. Se o hatch da GM leva uma batida lateral, são grandes as chances do motorista ou passageiro se ferir grave ou fatalmente. Por se tratar do modelo mais vendido no Brasil, o assunto rendeu espaço nobre na imprensa nacional. A fábrica foi questionada e deu desculpas esfarrapadas, o Proteste vociferou e pediu que o governo impedisse sua venda, embora seja fato indiscutível que o carro cumpre as exigências legais do país. Mas o governo continua se fazendo de desentendido. A diretoria da GM, que conhece bem o consumidor brasileiro, não deixou de dormir por causa do resultado. Deve ter até pensado: “Falem bem ou falem mal, mas falem de mim”.

Estava certa: logo depois da divulgação do Latin NCAP, há dois meses, o Ônix registrou crescimento de vendas…

A Bosch, maior fabricante mundial de componentes elétricos e eletrônicos para a indústria automobilística, deixou escapar, há alguns anos, que passou a duvidar das pesquisas para verificar a importância atribuída pelo brasileiro ao equipamento de segurança. A maioria dos entrevistados afirmava que segurança era um dos itens mais importantes na decisão de compra. Fez depois pesquisa idêntica nas concessionárias. Conclusão oposta: os consumidores não exigiam equipamentos de segurança e até insistiam, às vezes, num modelo sem nenhum deles, para reduzir preço. Mas, antes de fechar o negócio, encomendavam acessórios como rodas de liga leve, equipamento de som, estofamento em couro e outros que custavam muito mais que os de segurança.

Aliás, para quem não sabe, a obrigatoriedade dos airbags nos nossos automóveis só foi aprovada por nossos parlamentares graças aos esforços lobistas da maior fábrica deste equipamento no mundo, a japonesa Takata. Que tem filial no Brasil, mas está em processo de falência no Japão pelo gigantesco prejuízo que teve nos mais de 100 milhões de carros envolvidos no recall do airbag.

Por falar em recall, o mercado brasileiro é destaque negativo em relação aos carros chamados de volta à concessionária: mesmo sabendo ser gratuito e que envolve um item de segurança, nem metade dos donos dos carros envolvidos atende ao chamado da fábrica. Para proteger o mercado, o governo imaginou um intercâmbio de informações entre concessionária, fábrica e Denatran para impedir a venda de um automóvel não levado ao recall. Protestos gerais de concessionárias e lojas derrubaram a medida.

Imaginou-se então algo mais brando: o não comparecimento ao recall ficaria apenas registrado no documento do carro, sem punições. Assim, quem o comprasse pelo menos estaria informado do risco que corria. Nem isso: governo alegou dificuldades operacionais para efetivar o registro por falta de comunicação adequada entre as partes. E deu-se o assunto por encerrado, até que recentemente um projeto de lei foi apresentado na Câmara dos Deputados para que seja impedida a venda de carros chamados mas não levados ao recall.

Por falar em insegurança veicular, a omissão do governo vai além, pois não consegue sequer implantar um registro sistemático de carros que sofrem grandes impactos e ficam semidestruídos. Que as seguradoras chamam de “Perda Total”. Muitas vezes as ferragens são leiloados e compradas por oficinas desonestas, que os reformam mal e porcamente e os colocam para vender em lojas igualmente descompromissadas. O incauto acha estar fazendo um ótimo negócio, pois consegue comprá-los muito abaixo da tabela. E não entende por que, depois, não consegue segurá-lo em nenhuma companhia do setor. Pois nem imagina que as seguradoras se protegem com um sofisticado sistema que cruza informações e divulgam entre si os carros que deram “PT”. Pode?

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