O Mercedes que derrubou até mesmo um valente Pajerinho no lamaçal

Engatei a ré e tentei sair: não aconteceu nada, pois as rodas ficaram patinando e o carro não saiu do lugar. Só me restava descer, e ponto final

Por Douglas Mendonça03/06/19 às 21h20

Esse causo aconteceu lá pelos idos de 2009, na divisa entre os estados de Minas Gerais e São Paulo, em um local conhecido como Ladeira Serrana. Os protagonistas foram Douglas Mendonça, este contador de causos, sua família – inclusive o cachorro – e três pobres rapazes que, para o azar deles, não estavam, como nós, confortavelmente instalados em um Mercedes Bens ML 320 CDI. Eles ocupavam um valente Mitsubishi Pajero, aquela versão curtinha conhecida como “Pajerinho”.

Infelizmente, para eles, do Pajerinho, aquele final de manhã de domingo chuvoso não terminou bem: no lamaçal, onde Mercedes e Mitsubishi disputavam a primazia de quem era o melhor no barro e na lama, os alemães deram um baile nos japoneses.

Vamos ao causo! No final de semana, em um final de tarde de sexta-feira, viajamos para a pequena e aconchegante cidade de Gonçalves, já no estado de Minas Gerais. Uma boa parte de percurso foi feita pela Rodovia Fernão Dias, que liga São Paulo a Minas. Em determinado trecho, saímos rumo a Gonçalves, agora por pequenas estradas de terra que não faziam a mínima diferença para o Mercedes no qual viajávamos

Trata-se de um SUV grande e confortável, com tração nas quatro rodas permanente, motor v6 turbodiesel e câmbio automático de 7 marchas; desses Mercedes que só faltam falar. O final de semana escolhido prometia: começou a chover na sexta feira a tarde, permaneceu durante todo o sábado, com algumas folgas, e, de sábado para domingo, teve chuva de gente grande.

Volta para cara por caminho alternativo

Mas, acreditem, o domingo amanheceu com cara de que o tempo iria melhorar. Mas, infelizmente, era hora de ir embora. Como não sabíamos o estado das estradas, às 10 horas da manhã, arrumamos as tralhas e pegamos a estrada de volta. Mas a recomendação do pessoal local era para que não voltássemos pela estrada que nos levaria à rodovia Fernão Dias: informaram que ela estava intransitável.

A indicação era a de que retornássemos por uma estrada de terra que leva a São Bento do Sapucaí, pequena localidade já no estado de São Paulo. A partir dessa cidade, era só asfalto até a cidade de São Paulo. Apesar de mais distante, o caminho era bem mais confiável. Pegamos a tal estrada de terra e rumamos para a localidade paulista.

Mercedes-Benz ML350 é um SUV luxuoso

Até então, o valente Mercedão vencia fácil as escabrosidades do caminho. E olha que tínhamos pneus cidade/campo, não eram nem pneus lameiros. Uma coisa chamou minha atenção: pela estrada em que trafegávamos, podia-se ver que apenas um carro havia transitado após a chuvarada. E nós fazíamos o mesmo caminho: onde existiam as passagens de pneus do carro anterior, eu seguia com o Mercedes.

Num determinado trecho, iniciou-se uma enorme e aparente infindável descida. Tomei os devidos cuidados: centralizei o carro bem no meio da pista, que escorregava para todos os lados, e comecei a descida. Nesse momento, um susto para todos: um rapaz subia correndo a estrada acenando com os braços para que parássemos.

Eis que surge um Pajerinho

Parei o carro no inicio da descida e esperei o rapaz ofegante chegar até nós. Ele foi logo informando: “voltem, pois estávamos viajando um pouco a frente de vocês e, mesmo com uma Pajero 4×4 com pneus lameiros, perdemos o controle do carro, que bateu com a frente no barranco e capotou, ficando com as rodas para cima. Se vocês tentarem, certamente acontecerá o mesmo; devem voltar”!

Diante daquele cenário, e com a família toda preocupadíssima, engatei a ré e tentei sair: não aconteceu nada, pois as rodas ficaram patinando e o carro não saiu do lugar. O rapaz viu e pôs a mão na cabeça:” E agora, como o senhor vai sair daqui, com toda a família no carro”? Só me restava descer, e ponto final.

Como eu corria o risco de também capotar o Mercedes, fiz toda a família sair do carro. Todo mundo, com os pés na lama, desceu com o rapaz até onde estava a Pajerinho capotada, no fim do ladeirão. Tentei ligar para o meu amigo Eduardo Pincigher, na época assessor de imprensa da Mercedes. Naquela região, telefone celular não pegava, mas por sorte, naquele ponto, havia sinal.

Liguei para o meu amigo e, apesar de ser domingo, ele atendeu. Eu expliquei a situação e ele logo foi me instruindo: “esse carro possui um controle automático de descida em pisos escorregadios, vamos limitar a velocidade no mínimo, que é 5 km/h, e o sistema eletrônico vai te levar até o final da descida em segurança, sem que você precise fazer nada!” A partir daí, ele foi me dizendo, pelo sistema Touch screen da tela de comando, onde eu devia comandar para ligar o sistema inteligente de descida em rampa. Lindo!

Hora da verdade

Instruções dadas e sozinho no carro, eu sequer via onde estava a minha família, pois, daquele ponto, não enxergava o final da descida. Soltei o carro em linha reta e ele começou a atravessar. Estava muito escorregadio. Parei o carro, endireitei-o novamente e reiniciei a descida. Fantástico! O Mercedão de quase 2 toneladas começou a descer naquela rampa de sabão, retinho, como em passe de mágica.

Limitado aos 5 km/h que eu decidi na programação, o sistema de freios agia individualmente em cada roda em uma velocidade impressionante, mantendo o carro em uma reta precisa. Eu mal tocava o volante. Quando cheguei na Pajerinho capotada, a família tinha um enorme sorriso no rosto, e os 3 rapazes estavam com os olhos absolutamente arregalados, até mesmo um deles que era japonês.

Mitsubishi Pajero TR4 ganhou o apelido de Pajerinho

Quando parei o Mercedes, com ares de herói, o motorista da Pajerinho se apressou em dizer:” o senhor dirige muito, já vi bons pilotos na lama e no barro, mas fazer isso que o senhor fez é quase que um milagre, e seu carro ainda é equipado com pneus comuns. Como é que o senhor conseguiu isso?”

Eletrônica faz Mercedes superar Pajerinho

Na hora, acomodando a família dentro do carro novamente, disse a ele que era apenas experiência de direção. Mal sabia aquele incauto motorista que eu não tinha feito absolutamente nada e que o sistema eletrônico inteligente do carro é que tinha feito a descida em uma rampa tão escorregadia com tamanha precisão.

Nesse momento, chegou um sitiante local com um trator que ajudou o Pajero, que mais parecia uma barata morta com as pernas para cima, a voltar a ficar sobre as quatro rodas. Além do prejuízo na Pajerinho, os rapazes tinham na cidade de Gonçalves uma pequena fabrica de geleias de frutas naturais, que já estavam embaladas prontas para serem entregues e que se espalharam por toda a estrada. Por mais que tenhamos ajudado a recolher aquela imensidão de geleias pela estrada, muitas delas se perderam, e nós até levamos algumas para casa para experimentar.

A partir de São Bento do Sapucaí, no estado de São Paulo, pegamos só asfalto até a capital paulista. Mas, claro que o interior do requintado e luxuoso Mercedes ficou imundo de barro e precisou de uma caprichada lavada para voltar aos seus ares de sofisticação.

Interessante é que há cerca de 2 anos reencontrei essa companheira de viagem em um posto de serviço na Rodovia Castelo Branco: meu filho Lucca, com sua memória prodigiosa, viu o carro estacionado e reconheceu a placa. Era ela mesma, agora com identificação do estado de Santa Catarina, transportando famílias com conforto e segurança. Está aí um carro que me deixou saudades.

Visite o site do Douglas: www.carrosegaragem.com.br

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Foto Mercedes-Benz / Divulgação

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1 Comentário
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    J M Barbara 4 de junho de 2019

    Meu Caro
    Se é dono de um Mercedes habitue-se à inveja dos amigos . Tenha paciência ,é a vida de quem é feliz com os seus carros.
    Já possuí um Pajero 3.2 automático , é bom ,nada a dizer contra.
    Tenho um SLK 200 com 17 anos , perfeito, tenho um S 320 com 12 anos , perfeito e maravilhoso . Vou comprar mais um S 320 da versão 2006 ( IUC suportável ).
    Deixe falar a populaça . Mercedes é qualidade discreta e elegante.
    Já agora , para nao pensar que não conheço automóveis digo-lhe que tambem tenho um Rolls e um Bentley.

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