NASCAR: um dos últimos baluartes esportivos de Donald Trump

Chefe de equipe da tradicional categoria ameaçou de demissão pilotos que protestarem durante o hino norte-americano

Por Marcus Celestino 26/09/17 às 11h30

Apesar dos protestos de atletas nas principais ligas dos Estados Unidos, na NASCAR, tradicional categoria de automobilismo daquele país, nada foi registrado. Pior: Richard Childress, chefe de uma equipe, ameaçou seus pilotos de demissão caso realizem alguma manifestação pacífica durante a execução do hino norte-americano.

A popular e tradicional categoria nunca foi inclusiva. Darrell Wallace é o primeiro negro a participar do campeonato de topo em 11 anos. Na história, apenas outros três pilotos afro-americanos fizeram o mesmo. “No Sul [dos Estados Unidos], o esporte branco integrou de maneira muito mais lenta que quaisquer outras grandes modalidades americanas depois de décadas de racismo e discriminação”, escreveu Jonathan Jones, do Charlotte Observer.

NASCAR

Apesar de tentativas de inclusão das minorias, a NASCAR ainda é dominada por figuras como Richard Childress. Childress é dono RCR, equipe da categoria. “[Uma atitude dessas] o levará a um ônibus para casa”, disse ao USA Today, caso um de seus pilotos protestasse durante o hino dos Estados Unidos. “Disse a eles que todos que trabalham para mim devem respeitar o país em que vivemos. Tantas pessoas morreram por esta nação. Esta é a América”, completou.

Richard Petty, sete vezes campeão da NASCAR, fez coro. E foi além: “Qualquer um que não se levantar para o hino nacional deveria estar fora do país. Ponto final”. No último domingo, durante corrida da categoria em Loudon, New Hampshire, nenhum protesto foi registrado. Nem de pilotos, nem tampouco das arquibancadas. Em sua conta no Twitter, Donald Trump se mostrou satisfeito. “Estou muito orgulhoso da NASCAR e de seus fãs. Eles não aceitarão tamanho desrespeito com nosso país e com nossa bandeira – eles deixaram isso claro”, comentou o presidente dos Estados Unidos.

No entanto, há uma resma de esperança. Um dos pilotos mais populares da categoria, Dale Earnhardt Jr. também usou a rede social, mas para citar  John Kennedy. “Todos os americanos têm direito ao protesto pacífico. Aqueles que tornam a revolução pacífica impossível tornarão a revolução violenta inevitável”, escreveu em sua conta.

Contexto

Tudo começou em agosto de 2016. Colin Kaepernick (foto), ex-quarterback do San Francisco 49ers, time da principal liga de futebol americano (NFL), se ajoelhou durante a execução do hino dos Estados Unidos. Um protesto contra injustiça social e violência policial contra afrodescendentes. Protesto pacífico, garantido pela Primeira Emenda da Constituição daquele país. Muitos viraram as costas para Kaepernick, mas vários ficaram ao seu lado. A política polarizava os norte-americanos por conta de uma figura: Donald Trump.

NASCAR Colin Kaepernick
(Créditos: Robert Hanashiro/ USA Today Sports)

2017. Trump assume a presidência dos Estados Unidos. O país fica ainda mais dividido. Vários atletas da NFL aderiram ao protesto. Estrelas de outras ligas, como a de basquete, passam a se posicionar favoráveis à ação capitaneada por Kaepernick. Stephen Curry, um dos astros da NBA, comenta que não gostaria que seu time, o Golden State Warriors, atual campeão da competição, fosse à Casa Branca. Em sua conta no Twitter, Donald Trump “desconvidou” Curry e, por conseguinte, o time de Golden State, em um ato sem precedentes. Historicamente, vencedores das principais ligas norte-americanas visitam a residência do presidente. LeBron James, estrela do Cleveland Cavaliers, chamou Donald de “vagabundo” (em tradução literal). Também comentou que o “povo é quem comanda o país”.

Depois de toda a polêmica, NBA e NFL se voltaram contra o chefe do Executivo. O cúmulo? Em discurso, Trump afirmou que os bilionários donos dos times de futebol americano ficariam ao seu lado e repreenderiam os atletas. 14 proprietários se manifestaram contra o presidente. Alguns, inclusive, o haviam apoiado durante a campanha. Na MLB, liga de beisebol, um atleta se ajoelhou durante o hino nacional no último fim de semana. Mesmo com o “conformismo” intrínseco aos jogadores desta modalidade, muitos demonstraram solidariedade e se posicionaram contra as ações de Donald Trump.

Além da extremamente conservadora NASCAR, liga norte-americana de hóquei no gelo, também é um dos poucos pilares esportivos dos Estados Unidos que apoiam de maneira maciça o presidente. Apesar de o comissário da NHL afirmar que respeita quaisquer formas de protestos pacíficos, a maioria dos atletas e treinadores de equipes preferem se abster das questões políticas. O atual campeão Pittsburgh Penguins, inclusive, pretende visitar a Casa Branca.

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