Tretas & mutretas

Fabricantes e importadoras utilizam as brechas da lei (ou da ética) para se contornar a própria e "se dar bem"

Por Boris Feldman 11/05/19 às 10h05
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A Folha de São Paulo divulgou que o Denatran demitiu, no fim do ano passado, sua equipe responsável pela emissão do Certificado de Adequação à Legislação de Trânsito (CAT). Qualquer veículo a ser comercializado no Brasil tem que se submeter à homologação do CAT.

Por que seus funcionários foram demitidos? Porque participaram de uma festa da Scania para lançamento de um novo modelo, hospedados no Sofitel Jequitimar de Guarujá (SP) às custas da empresa. O que vai contra o código de ética de funcionários de órgãos federais. Desde então, os lançamentos de veículos estão meses em atraso pela pilha de pedidos não atendidos pelo Denatran.

O que é jipe?

Mas não é de hoje que se questiona a lisura dos funcionários do Denatran. Uma das “tretas” assinadas por eles foi a homologação do Mercedes ML 320 CDI como jipe, possibilitando sua venda no Brasil com motor diesel.

A fábrica obteve o documento apesar de o utilitário esportivo não estar enquadrado na legislação como jipe, que exige a caixa de redução na transmissão. A Mercedes “dobrou” o Denatran com o frágil e indefensável argumento de que os recursos eletrônicos do SUV cumpriam as mesmas funções da reduzida mecânica.

Houve até quem defendesse o governo, alegando que a exigência não decorria de uma lei, mas de uma portaria do DNC (Departamento Nacional de Combustíveis), já substituído há anos pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis). E que já caducou por obsolescência. Mas, é óbvio que a lei, se obsoleta, não deve ser descumprida, mas alterada para se adequar à modernidade.

Além do mais, tivesse caducado, já seria possível automóveis a diesel no Brasil. Óbvio que, no rastro da Mercedes, várias outras marcas que fabricam utilitários esportivos de luxo homologaram seus modelos para o diesel.

O que contraria frontalmente a ideia do governo que, para reduzir a importação de diesel na época, restringiu seu uso a veículos pesados (ônibus e caminhões) e agrícolas (tratores, máquinas e jipes). Além disso, cortou impostos do combustível para reduzir os custos operacionais destes veículos. Mas jamais permitir que automóveis de luxo se valessem deste subsídio.

O que é híbrido?

É o que tem, por definição, dois motores: a combustão e elétrico, ambos responsáveis por tracioná-lo. A Mercedes-Benz lançou recentemente um automóvel com uma tecnologia supermoderna, a motorização EQ Boost.

Mercedes conseguiu classificar o C200 como híbrido
Mercedes C200 EQ Boost (Foto Mercedes-Benz | Divulgação)

Tem os dois motores, mas o elétrico (que é também motor de arranque e alternador) apenas aumenta a potência do motor a combustão e não é capaz de tracionar sozinho o carro, ao contrário dos híbridos de fato, ou “paralelos” como Prius, Fusion, Lexus, Golf GTE e outros.

A denominação “Boost” indica exatamente que o elétrico apenas amplia a potência do motor a combustão. Existem veículos com os dois motores não considerados híbridos: BMW i3, Nissan e-Power, Chevrolet Volt e outros, em que o motor a combustão não traciona, apenas gera energia elétrica para as baterias.

Nem a própria Mercedes define o EQ Boost como híbrido de fato.  A imprensa o chama de “híbrido-leve”, “meio-híbrido”, “híbrido que  não é híbrido” e quetais. Mas a fábrica não perde a chance para anunciar que o modelo escapa do sistema de rodízio em São Paulo. Por ser “híbrido”…

Veja o vídeo e entenda como um híbrido funciona:

Carga

Não faltam tretas oficiais e oficiosas. A Kia, no passado, aumentou a capacidade de carga da Carnival no Brasil para chegar aos 1.000 kg, ser homologada como veículo de carga e fazer jus ao diesel.

Troller

A Ford aproveita uma brecha da lei para não equipar o Troller com airbags: estão realmente isentos os veículos off-road, embora todos os demais tenham o equipamento que pode ser desligado na trilha.

Conversão

No Brasil, tudo é possível: já teve concessionária VW de São Paulo anunciando conversão de carro a gasolina para flex. Só trocando o chip…

Assentos

E uma da Fiat na Grande BH adaptava dois assentos no pequeno espaço traseiro da Strada com cabine estendida.

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1 Comentário
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    Antonio Donizeti Martins 11 de maio de 2019

    E hoje as montadoras estão colocando o motor 1.0 nos seus SUV’s (1.0 paga menos imposto IPI), mas os preços estão lá no espaço, ou seja, vamos aumentar a margem de lucro. Eu quero ver quanto tempo esses motores vão aguentar puxar esse carro com esse torque. Eu quero ver para crer (São Tomé).

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