Entre memórias ao volante, Fusca 1300 e críticas à IA, um relato pessoal sobre o que realmente define o prazer ao dirigir
Nasci no finalzinho da década de 1960, quase na virada dos anos 1970. Aprendi a dirigir numa Kombi 1200 ’59, do meu avô, lá nas ruas de Sorocaba. Tinha 12 anos. E passei minha adolescência lavando o Voyage (depois dois Monza) do meu pai e o Fusca 1300 ’75 da minha mãe infalivelmente aos sábados de manhã… para ganhar o direito, aos 14 ou 15 anos, de dar uma volta no quarteirão.
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Acumulei muita quilometragem nesse Fusquinha nos anos seguintes. E exatamente por ter rodado tanto nele que essa paixão por automóveis floresceu.
Como a formação do meu pai era em mecânica, ele mesmo cuidava da manutenção dos carros de casa. Lembro de vê-lo transformando o motor 4 cilindros a gasolina de um Comodoro (1978) em versão a álcool, usando fio de cobre para aquecer o coletor de admissão, além de viver com uma coleção de giclês no bolso. O Fusquinha tinha rodas de Brasília (aro 14) e pneus diagonais de Opala, mais largos. Acho que eram 7.35/14. De resto, totalmente original.
Em anos de uso, esse Fusquinha nunca quebrou. Nada. Nada mesmo. Aliás, só uma vez, quando a correia do dínamo partiu. E eu estava lá na casa do chapéu. Claro que ele tinha correia reserva e meu pai tinha me ensinado a trocar. Foi fácil. Mas só isso, em mais de oito anos em que esteve em casa. Guiei muito esse Fusca. Acho até que minha paixão por carros nasce de tanto ter guiado um carro… tão ruim! O Fusca é como o gosto de um cidadão que só conhece espaguete ao sugo! No dia em que você provar um molho bolonhesa, ah, que diferença! “Como é melhor!!!” Você precisa andar de Fusca todo dia para dar valor aos outros molhos, digo, carros.
Como toda incoerência é bem-vinda nas paixões, hoje, claro, tenho um Fusca 1300 (1976). Mas tenho também uma Variant 1600 (1974). O Fusca só existe para justificar as qualidades da Variant: cada vez que eu guio um, logo fico extremamente feliz por ter o outro!
Por ser esse cara antigão, confesso que sou resistente para usar IA. Já tentei algumas vezes e até me assustei com a precisão do resultado frente ao que encomendei. Um dia, eu vou acabar aderindo. Para escrever meus textos, porém, nunca.
A não ser hoje.
Pedi pra uma dessas ferramentas bolar um texto que falasse de prazer ao dirigir carros e motos. Ele veio mais ou menos assim:
A estrada chama, um convite silencioso que a alma reconhece. Não é sobre o destino, mas sobre a dança, a sinfonia mecânica que começa ao girar a chave ou pressionar o botão de ignição.
No carro, o prazer se instala em uma cabine que é um santuário. O habitáculo acolhe, o banco abraça, e os comandos respondem a um toque, a um pensamento quase. É a orquestração do movimento: o ronco grave do motor, a precisão da direção, a forma como o chassi lê o asfalto e traduz a paisagem em sensações táteis.
Na moto, a experiência transcende o abrigo. Despido das barreiras de vidro e aço, o piloto funde-se ao vento, à temperatura do ar, ao cheiro da chuva que se aproxima. Não há habitáculo, apenas a união perfeita entre corpo e máquina.
E por aí vai.
Gente, não é nada disso. Que bom que a IA não sabe do que estou falando. Ela desfila um rosário de sentenças poéticas, mas nunca, nunca mesmo, conseguirá sintetizar o que é frear um Porsche 911 Carrera GTS, dos novos (ou dos antigos, tanto faz) no final de uma reta, em um autódromo, a mais de 220 km/h. Ela não sabe. Então deixa eu te explicar o que é prazer ao dirigir, pelo menos pra mim.
Falo de coração acelerado quando você sente a traseira de um carro, numa fração de segundo, começar a escapar. Ou do suor na testa quando você deita a moto numa curva em um ângulo além do que havia feito… e dá certo. Ou sentir os pelos eriçados dos braços ao frear forte, acima dos 200 km/h, pra entrar no S do Senna a cerca de 70 km/h, com a traseira solta e você acertando no volante.
Prazer ao dirigir
Vou destacar alguns carros e os respectivos porquês.
Há o risco de não conseguir acabar esse texto, pois nem comecei ainda a descrever o “crème de la crème”. E ele começa com a…
Encaixei no carro como nunca havia sentido nada antes. Costurava com ele no trânsito como se o conhecesse havia tempo. Eu nem trocava as marchas. Dava tapas com desprezo na alavanca. E ela sempre entendia para onde ir. E o equilíbrio do carro em curvas de alta, versus a tração traseira sem nenhum controle eletrônico?? Bom. A segunda Série 3 inesquecível foi uma M3, acho que a E46, em 2000 ou 2001: a primeira que veio com paddle shift. Gente (2). Eu vou resumir no seguinte: moí um tanque e meio de gasolina em 3 dias (isso não é força de expressão. Gastei tudo isso mesmo.)
O italiano respondeu: “Questa macchina non ha nemmeno 120 cv. Questo fenomeno è intenzionale. Si ha l’impressione che cammini molto più di quanto non faccia in realtà”. Ou “esse carro não tem nem 120 cv. Esse fenômeno é proposital. Você fica com a impressão de que ele anda muito mais do que realmente anda”. Isso é ou não é genial? Daquele momento em diante, eu me tornei muito mais fã da Fiat do que poderia imaginar alguns anos antes!
A lista é longa. Você volta na próxima semana para o segundo capítulo?? Vou falar de carros como o Dauer 962 LeMans, a Chevrolet Zafira, o Chevrolet Omega CD, o Ford Ka 1.6, a Kawasaki Z900RS, o Honda Civic VTi, o Porsche Macan Turbo (o elétrico), mais alguns outros que vou me lembrar. Ah, claro, e do 911. Até lá.
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