Gosto de motor, câmbio e suspensão. Sou de outro planeta?

Durante décadas, falar de carro era falar comportamento dinâmico, hoje, o foco parece ter migrado para telas, conectividade e penduricalhos

LANCER EVO VIII VERMELHO NA PISTA
Tinha uma época em que avaliar carro era levar seus limites ao máximo e não escrever uma dissertação sobre o multimídia (Foto: Mitsubishi | Divulgação)
Por Eduardo Pincigher
Publicado em 30/08/2025 às 15h00

Quando comecei a escrever sobre carros, o interesse dos leitores recaía sobre aspectos mais técnicos. Já resvalei nesse tema na semana passada: o fato de o mercado ser bem mais restrito lá nos anos 90 e 2000, com muito menos opções em cada segmento versus o que há hoje, criava a necessidade de o jornalista retratar e interpretar mais os dados técnicos e os resultados de desempenho e consumo. Como não havia muitas opções, o consumidor decidia a compra no detalhe. E o detalhe podia ser um consumo 5% melhor ou até a competência para contornar curvas. Era assim.

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Poucos coleguinhas falam hoje de arquitetura construtiva de uma suspensão, de geometria de direção, de curva de torque ou das relações de câmbio. Não que eles sejam incapazes de descrever esses dotes, ao contrário. É que o foco mudou. Hoje, “povo e pova” que leem sobre carros parecem se interessar somente por conectividade, entretenimento e pacote ADAS.

Antes: qual a potência do motor do seu carro? Quanto ele faz de 0 a 100?

Hoje: qual o tamanho da tela multimídia? Tem Apple Car Play? Espelha com ou sem cabo??

Sou de outro planeta, então. Claro que há exceções. O furor causado pelos recentes lançamentos de versões de Ford Mustang e Porsche 911 com transmissões manuais ratifica que o mundo ainda tem salvação – e isso só pra dar um exemplo. Há outros Edu´s por aí que se importam com o prazer ao dirigir, que enxergam automóveis não somente como meios de transporte repletos de gadgets, e sim como máquinas para serem experimentadas e que despertam paixão.

(Pra ser repetitivo: não consigo imaginar alguém que se apaixone por uma tela multimídia.)

Também não consigo assimilar muito bem os reais motivos disso ter acontecido, a não ser os triviais. As pessoas passam muito tempo dentro de seus automóveis. A internet já facilita muito a vida de quem está preso nos engarrafamentos. Se bem que a gente também encarava congestionamentos monstruosos nos anos 90. E a maioria dos carros só tinha a rádio FM como entretenimento.

Hoje, você espelha seu smartphone na tela da multimídia e, por comandos de voz, vai ouvindo e respondendo mensagens, além de se orientar todo o tempo sobre qual caminho deve percorrer para encurtar seu tempo de deslocamento.

Embora se passe muito tempo dentro do carro, portanto, a conectividade tem a incumbência de fazer com que você passe o menor período possível dentro dele, por mais incoerente que isso possa parecer. Quando as estradas começarem a conversar com os carros, bem como os carros conversarem entre si, o propósito será, antes de qualquer outro, o de encurtar (ainda mais) o caminho até sua casa ou para o trabalho.

Mas isso ainda é embrionário. Vamos analisar o que a gente dispõe hoje. Por que um sistema multimídia desperta mais interesse do comprador do que uma suspensão multilink?

Note o recente lançamento da nova geração da BMW i7. O cara tem 544 cv, faz 0 a 100 km/h em menos de 5 segundos, quase 480 km de autonomia… e, juro, todas, absolutamente TODAS, as reportagens que eu li a respeito do carro só evidenciavam uma tela instalada no teto, que servia os passageiros do banco traseiro, que tem exageradas 31 polegadas. Realmente é um tremendo chamariz você ter uma TV gigante no banco traseiro do seu carro, mas será que é só isso que interessa ao comprador de um sedã BMW? Eu mesmo respondo: “pode ser que sim”. Entrei agora no site da BMW e demorei um tempão pra achar a configuração técnica do carro. Só aparecia a tal da tela traseira.

Ora, nesse caso, os meus coleguinhas que avaliam automóveis não parecem estar fora de sintonia. O público, pelo jeito, só quer saber disso hoje em dia. Me causa estranheza só lembrar do fato de que… o cara que assina o cheque será o único que não usufruirá da tal da tela, visto que ele certamente estará sentado no banco do motorista. E pra ele? Alguém lembrou de descrever os principais features do i7??

Outra questão que me transforma em um ET ainda menos humanoide é compreender o porquê que existe tamanha fixação pelo pacote ADAS. Lógico que eu não refuto novas tecnologias criadas para gerar maior segurança ao rodar. Mas parece que só isso importa hoje em dia. Há um certo exagero nisso.

Lá atrás, eu passava linhas e mais linhas descrevendo o comportamento de um determinado carro em curvas mais acentuadas, retratava os eventuais desequilíbrios em frenagens, ou o porquê que o carro A era melhor nas arrancadas e o B tinha melhor performance nas retomadas. Isso ainda deveria existir, pois qualquer carro à venda, hoje, por mais equipado que seja com essas parafernálias eletrônicas, continua fazendo curvas, freando, acelerando e retomando velocidade.

E eu nem quero pensar em um futuro (dizem que está bem próximo) onde chegará a direção autônoma. Quer saber? Eu não vou usar e pronto. Vá para o raio que o carregue! Meu carro, guio eu. Não empresto pra ninguém, e muito menos vou permitir que uma máquina o dirija. Já reparou que todo mundo hoje só fala de ADAS? Quem não tem, ou tem um pacote menos aparelhado, é criticado. Será mesmo que as pessoas que estão comprando carros verdadeiramente querem, usam, exigem, esperam por isso?

É só uma pergunta.

Tô lembrando agora da sensação incômoda a qual vivenciei tempos atrás, quando viajei de São Paulo a Londrina, de Jeep Commander Overland TD380. Tinha um tal de alerta no centro do quadro de instrumentos que ficava berrando toda vez que eu ia trocar de faixa. Coisa chata, sô!! Só eu que acho isso?

Ele foi criado para alertar o motorista em qualquer indício de sono ao volante, pois se supõe que ele estaria mudando de faixa sem dar a seta. Só que, cá pra nós. Quando você faz uma viagem de 500 km numa estrada vazia, não será toda troca de faixas que você vai sinalizar com a seta, certo? Pois bastava que eu começasse a manobra para que o alerta sonoro berrasse no meu ouvido, a direção trepidasse, acendesse luz vermelha no painel. É chato. E pronto. Custei a descobrir como desligava o tal recurso. Você precisa de um curso de Mecatrônica para desabilitar esse berreiro todo. E é só parar num posto pra tomar um café e esticar as pernas… que ele vai lá e liga tudo de novo.

Hora de pegar meu disco voador, que, inclusive, tem motor no Stage 2, e partir.

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2 Comentários
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Santiago 31 de agosto de 2025

Uma humilde correção:
Nós, os apreciadores da mecânica e do desrmpenho, é que somos os verdadeiros terráqueos! Buscando a paz en meio à essa invasão alienígena que são os modismos dos excessos-tranqueira eletrônicos, somados aos dominantes “suvs-caixotinhos” que primam pela pouca estabilidade, manutenção cara e maior consumo, mas entregam a moda-ostentaçâo do “viu? eu também tenho”.
Quem sabe, como nos filmes, os alienígenas (isto é, os modismos) vão um dia embora e o mundo automotivo retorne a algo mais próximo à normalidade – pra alegria de nós, os verdadeiros terráqueos.

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Alexandre Henrique Oliveira 30 de agosto de 2025

Não fique triste Sr Alien, também me sinto um ET e não consigo mais me empolgar com a maioria dos lançamentos de carro e o último que conseguiu fisgar a minha atenção foi um Sandero RS spirit mas saiu de linha, e esportivo acessível agora somente SUV. Triste ver isso, carros anestesiados com motores minúsculos e multimídias enormes e comportamento dinâmico como se fosse um corredor 100m rasos correndo de salto alto. Mas somando isso a um radar a cada 100m e um mundo de quebra molas, é o que nos aguarda, sinônimo de que eu também estou ficando obsoleto e cada vez mais alien nesse novo mundo.

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