Está na hora de baixar os preços dos carros no Brasil

Indústria automobilística sempre arruma mil e um argumentos para manter os carros a preços elevados, mas há soluções

O mercado automotivo segue imprevisível em 2022
Encalhar e deixar de produzir é mais vantajoso que reduzir preços (Foto: Shutterstock)
Por Sergio Quintanilha
Publicado em 23/03/2023 às 10h03

Tirem as calotas, mas baixem os preços dos carros! Eis o grito de guerra que deveria estar saindo da garganta dos consumidores de automóveis no Brasil. Quatro importantes fabricantes estão com a produção paralisada por falta de clientes e escassez de componentes eletrônicos: Stellantis, General Motors, Volkswagen e Hyundai.

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São “apenas” as quatro montadoras que mais produzem. Assim como as demais, não citadas, esses fabricantes se recusam a baixar os preços dos carros. Não o farão. Recentemente, um dos especialistas em indústria da Bright Consulting, Cássio Pagliarini, prevendo o ano de 2023, disse que os preços não iriam baixar, mas que haveria promoções. Preço de lista não cai, é a regra da indústria.

Mas deveria. Afinal, não é o mercado que regula o preço da mercadoria? Se os carros estão caros, se o crédito é escasso (com taxas de juros indecentes) e se os consumidores sumiram, por que não baixar os preços dos automóveis?

Não é possível, dirá a indústria, em coro, apontando para as novas imposições de eficiência energética, emissões de CO2 e itens de segurança. Para além disso, porém não menos importante, está a exigência do consumidor brasileiro, que adora um mimo no automóvel.

Preços dos carros daqui bancam tecnologia lá fora

Mas há ainda outro elemento: o lucro das montadoras no Brasil. Eu não ficaria admirado se o Brasil estiver contribuindo de forma importante com o financiamento das novas tecnologias de carros elétricos na Europa. O lucro daqui moderniza os carros de lá.

Mas o consumidor também tem sua parcela de culpa. Primeiro porque valoriza mais a aparência do que os aspectos técnicos. Quer também uma infinidade de mimos que acabam levando os preços dos automóveis às alturas.

Por exemplo: qual é o problema de vender um carro com rodas de aço e sem calotas? Esse é apenas um dos itens que poderiam estar na lista de opcionais ou de acessórios. Fiz uma pesquisa com os dois automóveis “mais baratos” do Brasil, o Renault Kwid e o Fiat Mobi. Ambos custam mais de R$ 68.000. Mas vejam a lista de itens supérfluos (ou que poderiam ser opcionais) que as duas montadoras (Renault e Fiat) colocam nesses carros.

Renault Kwid Zen

renault kwid zen vermelho 1 preço dos carros
Kwid é o modelo mais barato do mercado, mas longe de ser uma pechincha (Foto: Renault | Divulgação)
  • Abertura interna do porta-malas
  • Ar-condicionado
  • Rádio Continental 2DIN (Bluetooth, USB, AUX)
  • Sistema CAR – Travamento automático a 6 km/h
  • Monitoramento da pressão dos pneus (TPMS)
  • Controle eletrônico de estabilidade (ESP) com auxílio de partida em rampa (HSA)
  • Luzes de circulação diurna em LED (DRL)
  • Direção elétrica
  • Sistema Start&Stop
  • Indicador de troca de marcha
  • Calota 14″ Dark Antracite

Fiat Mobi

fiat mobi trekking 2022 cinza frente e lateral preços dos carros
Fiat Mobi é um dos modelos menos caros do mercado brasileiro (Foto: Marcelo Jabulas | Divulgação)
  • TPMS (sensor de pressão dos pneus)
  • Vidros one touch e anti esmagamento)
  • Check quadro de instrumentos (Welcome Moving)
  • Calotas integrais
  • Grade dianteira texturizada
  • Revestimento externo nas colunas B e C das portas
  • Molduras nas caixas de roda
  • Ar condicionado
  • Para-choques na cor do veículo
  • Espelho no para-sol lados motorista e passageiro
  • Parachoques exclusivos
  • Porta malas com tapete em carpete
  • Faróis com máscara negra
  • Limpador, lavador e desembaçador do vidro traseiro
  • Lane Change (Função auxiliar para acionamento das setas indicando trocas de faixa)
  • ESS (Sinalização de frenagem de emergência)
  • Quadro de instrumentos com Iluminação a LED e display digital de 3,5 polegadas (Conta-giros, indicador de trocas de marchas, odômetro parcial e total, relógio digital, indicação do nível de combustível e temperatura do motor)
  • Chave desmodrômica com Fiat code 2ª geração

Vejam bem: estamos falando de carros de entrada! Será que um carro de entrada, básico para uso no dia-a-dia, precisa ter monitoramento de pressão dos pneus, assistente de partida em rampa, sinalização de frenagem de emergência e chave desmodrômica? Esses são apenas alguns exemplos.

Basicamente, o que estou propondo é que tanto a indústria quanto os consumidores revejam seus conceitos. Sim, que tal a volta do carro pé-de-boi? Qual é o problema de colocar a chave no buraco da ignição? Sinceramente, não cai a mão de ninguém, mas quase todos os automóveis hoje têm partida por botão.

Os consumidores de automóveis precisam saber que luxo custa caro. Para a indústria, está tudo muito bom, está tudo muito bem. Os carros serão vendidos com margens altas. As montadoras (todas) simplesmente abriram mão da classe média. É mais fácil produzir menos e lucrar mais. Vamos ver se alguma marca toma a iniciativa de propor algo diferente para virar esse jogo ou se vamos viver de promoções esporádicas.

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9 Comentários
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Alex 2 de abril de 2023

Preços de carros elevados? Você ainda não viu nada quando os carros elétricos dominarem o mercado…

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Ueider 26 de maio de 2023

Não sabe nada de carro. O brasileiro paga o carro mais caro do mundo e o cara ainda quer tirar o ar condicionado. ?? Metade dos carros aqui do Brasil não entra nos EUA por ser uma porcaria.

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Alex 2 de abril de 2023

Se as pessoas acham os preços dos carros no Brasil elevados, preparem-se para quando os carros elétricos se tornarem bem mais comuns do que são hoje…

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Alex 2 de abril de 2023

Sem também falar nas contas de luz residenciais…

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Jovi 25 de março de 2023

Como diz o ditado: todo dia um esperto e um trouxa saem de casa. Quando eles se encontram o dinheiro troca de mãos.

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Francisco Antônio Meireles Junqueira 24 de março de 2023

Colega , o problema do alto custo dos veículos não é das montadoras. Impostos nas faixas de 35 a 45 % , vc esqueceu ?? Um roubo.

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Joaquim Xavier 23 de março de 2023

Tudo bem se fizessem um pé-de-boi removendo esses itens. Mas arrancar o ar condicionado não dá, né! Tu tá num forno de 35, 40º no meio do verão e vai achar que ar condicionado é supérfluo? Vir com esse item de fábrica deveria ser é regra!

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Anônimo 23 de março de 2023

Uma boa matéria, Sergio.
Porém tem um detalhe importante em alguns itens que vc citou que poderiam ser descartados para baratear os veículos, todos os itens relacionados diretamente a consumo de combustível ou segurança são colocados nestes veículos para que a montadora consiga desconto de 1 ou 2 pontos percentuais de desconto no IPI. O hill holder por exemplo, está atrelado ao ESC, então como é um item obrigatório de qualquer forma não é algo q a montadora vá desabilitar pra perder competitividade por algo relativamente simples.
No caso do TPMS, ele gera crédito off-cycle para descontar no consumo energético do carro, colaborando com a redução de IPI que comentei. O mesmo vale para DRL e start&stop, q por si só já é ótimo na redução de consumo e poluentes.

Itens estéticos até concordo com você, talvez pudessem ser retirados, mas sabemos por histórico que esse tipo de remoção vai impactar em pouquíssima economia, quando mto algumas centenas de reais, q em um carro q começa em 70.000 se torna irrisório.

Outro equívoco que acredito que tenha seja achar que as montadoras desistiram da classe média Esta continua comprando carros da mesma forma, talvez alguém tenha reduzido de seguimento, mas nunca parou, quem perdeu a oportunidade de comprar carros novos foram as classes C e D, mais impactadas com a inflação.

Inflação sim que é a maior culpada pelo aumento de preços, além claro da ganância das montadoras que usam as desculpas esdrúxulas de emissões e segurança para justificar sucessivos aumentos de preço.

Gosto de comparar o preço do virtus e do voyage em meados de 2020, ambos custavam próximo dos 100.000, porém o virtus muito mais refinado e moderno que o voyage, que outra explicação teria para preços tão próximos se ambos tinham os mesmos equipamentos obrigatórios? Vale notar que o gol pouco antes da pandemia tinha o seu preço muito parecido com o preço de um gol “g3” equivalente que tivesse sido corrigido pela inflação desde os anos 2000, sendo que o gol em 2019 tinha muito mais equipamentos de segurança que sua versão antiga.

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Sergio Quintanilha 30 de março de 2023

Legal suas observações. Obrigado por comentar!

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