Volvo 240 Turbo: o tijolo que desafiou a elite do turismo europeu

Batizado de Flying Brick, o tijolo voador conquistou os campeonatos de turismo europeu e alemão em 1985 e mostrou que a sueca era mais que segurança

VOLVO 240 TURBO GRUPO A DTM ETC
Também conhecido como Schwedenpanzer, o Tanque Sueco, o Volvo 240 Turbo provou que suas formas não limitavam sua performance (Fotos: Volvo | Divulgação)
Por Marcelo Jabulas
Publicado em 21/02/2026 às 11h00

Durante décadas, a Volvo construiu sua reputação longe das pistas, associada à segurança, à sobriedade e a carros familiares de durabilidade quase lendária. Ainda assim, em meados dos anos 1980, um sedã grande, pesado e deliberadamente quadrado protagonizou uma das histórias mais improváveis do automobilismo europeu. Seu nome: Volvo 240 Turbo. Seu apelido, eternizado nas pistas: “Flying Brick”.

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Nada naquele carro parecia adequado ao mundo das corridas. As linhas retas e a silhueta alta contrastavam com os elegantes cupês alemães que dominavam os grids do turismo europeu. Ainda assim, sob a carroceria funcional, escondia-se um projeto engenhoso, robusto e surpreendentemente eficaz.

Força bruta como filosofia

Volvo 240 Turbo
No campeonato europeu de turismo, coube aos pilotos Gianfranco Brancatelli e Thomas Lindström a condução do 240 ao título

O Volvo 240 Turbo atendia ao regulamento do Grupo A da FIA, que determinava que o carro tivesse produção em série, com pelo menos 5 mil unidades produzidas anualmente, além de outras 500 unidades de alta performance (Evolution), que culminou no Volvo 240 Evolution.

Reza a lenda que as unidades foram montadas na carroceria cupê, que teriam destino os Estados Unidos, e a partir destas unidades que seria feita a preparação dos carros que iriam disputar as competições como DTM e ETC.  No entanto, depois da inspeção da FIA, os componentes do “kit” teriam sido removidos, pois as unidades de exportação vinham com teto solar. O carros de corrida utilizaram a carroceria da versão europeia que não tinha o “buraco” do acessório e oferecia maior rigidez estrutural.

Mas o que era fato é que de fábrica, o 240 Turbo entregava pouco mais de 150 cv, mas sua preparação para as pistas trouxe um volume extra de cavalaria.  O coração do 240 Turbo de competição era um motor 2.1 litros, quatro cilindros, turboalimentado, capaz de entregar algo entre 300 e 330 cv, graças à furiosa turbina Garrett T3, com 1,5 bar de pressão. O torque abundante, que muita gente tinha certeza de superava os 25 kgfm do motor de rua, fazia do Volvo uma presença intimidadora em saídas de curva e retas longas, compensando o peso elevado e a aerodinâmica pouco refinada.

Mesmo assim, o carro ficou no limite dos 975 kg mínimos exigidos no Grupo A. Todas partes móveis, como portas, capô e tampa do porta malas foram substituídas por peças metálicas mais leves.

Enquanto rivais apostavam em soluções sofisticadas, o Volvo confiava em um conceito simples: potência, resistência mecânica e ritmo constante, este último potencializado pelo tanque de 120 litros e um sistema de reabastecimento rápido. Em provas longas, essa combinação fazia toda a diferença.

Volvo 240 e o choque no DTM

VOLVO 240 TURBO GRUPO A DTM PER STURESON
No DTM, Per Stureson fez história ao desbancar as marcas alemãs em seu território

Em 1985, o Deutsche Tourenwagen Meisterschaft (DTM) representava o auge do turismo alemão, com forte domínio de fabricantes locais e equipes altamente estruturadas. Foi nesse cenário que o Volvo 240 Turbo surgiu como um elemento disruptivo (para usar uma expressão bacana).

Com pilotos como o sueco Per Stureson, o “Flying Brick” conquistou vitórias emblemáticas e resultados expressivos, desafiando a hierarquia estabelecida.

Stureson venceu apenas uma etapa, mas sua constância no pódio, ao longo da temporada, lhe garantiu mais de 115 pontos e a conquista do título. Outros 240 também imperaram no alto do pódio, sem chance para as marcas alemãs.

Naquele ano, a Volvo sagrou como a primeira marca não alemã a conquistar um título da DTM, algo que era visto como improvável diante da soberania de marcas como BMW e Mercedes-Benz, assim como os braços germânicos de Ford e Rover.

Consagração continental da Volvo

Se na Alemanha o 240 Turbo causou desconforto, foi no cenário europeu que ele alcançou a consagração definitiva. O European Touring Car Championship (ETC) de 1985 exigia versatilidade máxima: pistas rápidas, circuitos travados e corridas longas colocavam à prova não apenas a velocidade, mas sobretudo a confiabilidade.

volvo 240 turbo

Nesse ambiente, o Volvo brilhou.

Com um elenco internacional formado por nomes como Thomas Lindström, Gianfranco Brancatelli e Win Percy, o 240 Turbo construiu uma campanha baseada em regularidade e estratégia. Enquanto muitos adversários enfrentavam quebras e desgaste excessivo, o sedã sueco mantinha desempenho sólido do início ao fim.

O resultado foi histórico: título do European Touring Car Championship de 1985, transformando definitivamente o Flying Brick em referência no turismo europeu.

Um ícone improvável

O sucesso do Volvo 240 Turbo não foi fruto de acaso ou oportunismo. Foi a validação de um conceito que contrariava tendências estéticas e técnicas da época. Sem ser o carro mais leve ou mais aerodinâmico, o Volvo venceu apostando em força e resistência.

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Alguns exemplares do Volvo 240 Turbo, que conquistou a Europa nos anos 1980 ainda estão bem preservados

O Flying Brick provou que, no automobilismo, aparência raramente conta toda a história. Em 1985, o esporte aprendeu uma lição que permanece atual: subestimar um carro pela forma pode ser um erro imperdoável. Às vezes, até um tijolo pode voar. Nunca julge o presente pelo embrulho!

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