Paradoxo em Paris

A Ferrari não perde o sono com as críticas: todo o lote da “Aperta” foi vendido antes mesmo de o carro entrar em produção

Por BORIS FELDMAN02/10/16 às 15h27

Design de automóvel costuma despertar polêmica e nem sempre agrada a gregos e troianos. Quando a Fiat lançou o Uno no Brasil, foi logo chamado de “bota ortopédica”. Os marqueteiros de Betim correram para explicar: novidade que foge do padrão pode desagradar no começo mas depois emplaca durante uma vida e mais seis meses. Ao contrário dos que já chegam considerados “bonitinhos” ou “avançadinhos”: suas linhas cansam e são logo rejeitadas. O tempo provou que os italianos estavam corretos: o Uno durou dezenas de anos.

Mas, o “feio” emplaca? Alguém acabou se encantando por aquela horrenda picape Ssang Yong Actyon? E a BMW X6, verdadeiro monstrengo de linhas abrutalhadas? Pois não é que este “quasímodo”, misto de SUV com cupê, conquista admiradores, clientes e a BMW ainda ri de quem a critica, pois a Mercedes a tomou como referência e lançou um trambolho semelhante, chamado GTE.

Estas aberrações de estilo me vieram à lembrança na semana passada, no Salão de Paris. Um dos estandes mais badalados de qualquer mostra de automóveis é da Ferrari. Que este ano exibia a “Aperta”, uma versão meio conversível da “La Ferrari”, forte candidata ao troféu feiura. E páreo duro para outro “cavallino” também no estande, o GTC4Lusso, que estreou no Salão de Genebra deste ano. Ela sucede a horrorosa FF, primeiro modelo da marca com quatro lugares e tração integral, motor V-12, lançado em 2011. A novidade em Paris foi a GTC4Lusso T, versão mais simples, motor V-8, sem tração integral. A fábrica tentou reduzir o impacto das linhas grosseiras da FF, mas ficou na intenção.

Aliás, a Ferrari decidiu fazer do salão francês o marco inicial para comemorar 70 anos de seu primeiro modelo (1947), festejados com a produção de séries especiais que remetem a detalhes e cores de cinco de seus ícones. A idéia de levá-los ao estande ressaltou o paradoxo entre as maravilhas criadas por Pininfarina no passado e as extravagâncias atuais da marca. Das cinco, a California T (“The Steve Mc Queen”, referência à Berlinetta Lusso 1963) é a mais harmoniosa e remete aos tempos em que a Ferrari, além produzir os carros mais rápidos do mundo, exibia linhas elegantes e harmoniosas. Hoje, além do túnel de vento que limita a criatividade do designer, exagera nos penduricalhos estéticos raramente utilizados no passado. As linhas limpas e sedutoras de seus ícones das décadas de 70 e 80 (ahh… que saudade da 275 GTB4…) deram lugar a spoilers e aerofólios arrebatadores e pinturas metálico-acrílico-florescentes dignas dos mais bem elaborados hot-rods da periferia.

Assim como a BMW com sua X6, a Ferrari não perde o sono pelas eventuais críticas aos seus recentes lançamentos: a “Aperta”, por exemplo, só foi levada ao Salão de Paris para marcar presença institucional, pois o lote limitado de 200 unidades foi vendido antes mesmo do início de sua produção em série.

Mas, se o passado vale como referência, o futuro avalizou as ácidas críticas dirigidas a alguns lançamentos da marca há 30 ou 40 anos. Apesar de assinada por Pininfarina e ter um poderoso V-12 sob o capô, a “400 i” (década de 70) foi projetada especificamente para o mercado norte-americano e o primeiro filho da “Casa de Maranello” com câmbio automático. O design está mais para russo que italiano e prova disso é sua rejeição pelos colecionadores: se qualquer outra Ferrari V-12 desta época não está cotada por menos de U$ 200 mil, a “400 i” mal chega a U$ 50 mil. Outro deslize estético da marca, a Mondial (V-8, década de 80), dá para comprar por menos ainda…

Qual valerá mais dentro de 30 anos: California T ou FF?

Boris Feldman

Jornalista e engenheiro com 50 anos de rodagem na imprensa automotiva. Comandou equipes de jornais, televisão e apresenta o programa AutoPapo em emissoras de rádio em todo o país.

Boris Feldman

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