“Agora ninguém fala mal de carros elétricos”, que viraram salvação em enchente na China

Um elétrico de 60 kWh alimenta uma casa por quase 18 horas; entenda como o V2L virou tábua de salvação na enchente na China

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Desalojados correm para recarregar seus celulares conectando-os a carro elétrico na China (Foto: Reprodução | Internet)
Por Júlia Haddad
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 10/07/2026 às 22h00

Em meio ao apagão provocado pelas enchentes históricas na província de Guangxi, no sul da China, donos de carros elétricos e híbridos transformaram seus veículos em pontos improvisados de energia. Usando a tecnologia V2L, eles passaram a recarregar celulares e a alimentar equipamentos essenciais de vizinhos deixados sem luz pelo desastre através das baterias dos EVs.

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As chuvas foram provocadas pelo tufão Maysak, o 10º da temporada e o primeiro a atingir a China em 2026. Depois de tocar o solo na ilha de Hainan em 3 de julho, o fenômeno perdeu força, mas permaneceu cerca de 26 horas sobre Guangxi — o dobro do tempo habitual de um tufão na região —, o que despejou volumes recordes de chuva, acima de 900 mm nas áreas mais castigadas.

O transbordamento e o rompimento de reservatórios em Hengzhou, na área de Nanning, inundaram cidades inteiras. Segundo autoridades locais, ao menos 39 pessoas morreram — número que disparou após o rompimento de uma barragem —, 130 mil foram retiradas de suas casas e 375 mil foram afetadas; drones e cerca de 5.700 barcos participaram do resgate.

A salvação pelos elétricos

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Chuvas na China já deixaram 39 mortos e 130 mil desabrigados (Foto: Xinhua | Cao Yiming)

Com a rede elétrica e as comunicações interrompidas em diversas áreas, os veículos viraram tábua de salvação, graças à tecnologia V2L. A sigla de vehicle-to-load, em inglês, descreve a capacidade de o carro funcionar como uma grande bateria portátil: elétricos, híbridos plug-in e modelos de autonomia estendida modernos têm carregadores bidirecionais que, além de abastecer a bateria na tomada, fazem o caminho inverso — convertem a energia armazenada em corrente alternada de 220 V, igual à das tomadas domésticas, disponível em um adaptador ligado ao veículo estacionado.

Para ter uma ideia, um elétrico com bateria de 60 kWh consegue fornecer cerca de 3,3 kW por quase 18 horas, o suficiente para o consumo básico de uma casa durante o apagão. Alguns híbridos ainda trazem um “modo camping”, que gera energia com o carro parado.

O jornal Southern Metropolis Daily mostrou moradores reunidos ao redor de um Geely EX2 (vendido na China como Xingyuan) operando em V2L, e circularam vídeos de carros com cabos de recarga espalhados pela carroceria. Nas redes, internautas brincaram que “agora ninguém fala mal de carro elétrico” e que a função “é usada poucas vezes por ano, mas basta uma para compensar”.

Grupos de proprietários também organizaram comboios voluntários, articulados por aplicativos de mensagem, para levar mantimentos a comunidades isoladas, aproveitando modelos capazes de vadear trechos alagados.

Apesar da utilidade em cenários críticos, especialistas alertam que adaptações improvisadas — extensões precárias e muitos aparelhos ligados ao mesmo ponto — elevam o risco de sobrecarga e acidentes. A tendência é que a solução se repita à medida que a frota elétrica cresce: segundo a China EV DataTracker, os veículos de nova energia responderam por 62,9% das vendas de carros novos no país em junho de 2026.

A potência disponível varia conforme o modelo — enquanto opções de entrada, como o próprio Geely EX2, entregam cerca de 3,3 kW, a picape Geely Riddara RD6 chega a 36 kW em corrente trifásica, capaz até de recarregar drones.

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