Apps prometem corridas com motoristas mulheres, mas elas são só 10,6% de quem dirige
Expansão nacional do Uber Mulher esbarra em uma base de profissionais que encolheu pelo segundo ano seguido, mostra levantamento com corridas de 2024 a 2026
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 17/09/2026 às 11h00
As mulheres representam 10,61% dos motoristas de transporte por aplicativo no Brasil, e a fatia vem encolhendo justamente no momento em que as plataformas ampliam serviços voltados às passageiras. Os dados são de um levantamento da Machine, empresa de tecnologia que fornece sistemas para operadoras de mobilidade e entregas, baseado em corridas e entregas registradas em 2024, 2025 e 2026.
O índice passou de 11,53% em 2024 para 11,21% em 2025 e chegou a 10,61% neste ano. A queda é pequena, mas ocorre sobre uma base que já era baixa: pouco mais de uma em cada dez pessoas ao volante é mulher. No delivery, a participação feminina seguiu trajetória parecida, com alta de 5,55% para 5,85% entre 2024 e 2025 e recuo para 5,76% em 2026. Na prática, menos de uma em cada 17 entregadoras por aplicativo é mulher.
Demanda de um lado, oferta do outro
Os números dão a dimensão do desafio enfrentado pelas modalidades que permitem às passageiras priorizar motoristas mulheres. O tema voltou ao debate com a expansão nacional do Uber Mulher, recurso antes testado em algumas capitais que aumenta as chances de a corrida ser atendida por uma motorista.
A 99 e a BlaBlaCar também oferecem ferramentas voltadas à segurança feminina, como identificação do motorista, compartilhamento da viagem em tempo real e canais de denúncia. Até há demanda potencial entre as usuárias, mas o número de profissionais disponíveis para atendê-la continua pequeno. Sem ampliar a presença feminina na outra ponta da operação, um filtro ou uma categoria exclusiva tem alcance restrito.
Um teto estrutural
Para Júlia Camossa, estatística responsável pelo Data Machine, os dados não indicam uma expansão gradual da presença feminina, e sim uma espécie de teto estrutural, em que as variações anuais não chegam a alterar a composição do mercado.
Segundo ela, o obstáculo não está apenas na entrada na atividade, mas em fatores como permanência, condições de trabalho, risco ocupacional e a organização do próprio trabalho, que pesam de forma desigual sobre as mulheres.
O pano de fundo ajuda a explicar por que a segurança deixou de ser um diferencial e passou a influenciar a escolha da plataforma: o Brasil registrou 1.470 feminicídios em 2025, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Pesquisa deste ano do Instituto Cidades Sustentáveis aponta ainda que sete em cada dez mulheres moradoras das grandes capitais afirmam já ter sofrido algum tipo de assédio. O transporte por aplicativo não explica esses números, mas é um dos espaços cotidianos em que a percepção de vulnerabilidade aparece — tanto para quem viaja no banco de trás quanto para quem trabalha ao volante.
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