Carro zero quilômetro custa R$ 22 mil no Irã, mas é mais fácil comprá-lo por R$ 1,47 milhão
Sorteio estatal define quem compra pelo preço de fábrica; no mercado aberto, o mesmo carro custa muito mais caro
Publicado em 23/09/2026 às 15h00
No Irã, um carro zero-quilômetro pode custar o equivalente a R$ 22 mil. O problema é chegar até ele: esse preço só vale para quem é sorteado em uma loteria estatal de veículos.
O mercado iraniano trabalha com duas tabelas paralelas. A primeira é o preço de fábrica, definido pelo governo abaixo do mercado para manter os carros acessíveis ao menos no papel. Como a procura por esses valores é enorme, o Estado criou um sorteio nacional: o cidadão se cadastra pela internet, muitas vezes adiantando dinheiro, e concorre ao direito de comprar. A segunda é a do mercado aberto, em que o mesmo carro vale bem mais.
É por esse caminho que o Saipa Quik S, compacto de 88 cv derivado da antiga plataforma do Kia Pride, chega ao equivalente a cerca de R$ 22 mil para os sorteados.
Importado custa o triplo do preço dos vizinhos
Na outra ponta, os importados viraram artigo de luxo. Só um punhado de empresas ligadas ao Estado e intermediários pode trazer veículos, e a combinação de impostos chega a inflar o preço final em até 200%, segundo reportagem do Al Jazeera publicada em meados de setembro. Um Toyota Land Cruiser VXR 2026 sai por cerca de R$ 1,47 milhão por lá — o mesmo modelo custa em torno de R$ 440 mil nos Emirados Árabes Unidos.
Carro virou reserva de valor
Com a moeda local em queda, o iraniano deixou de ver o automóvel como bem que se deprecia: ele virou proteção contra a inflação, na mesma prateleira do ouro. O Al Jazeera acompanhou o caso de um funcionário de escritório de renda modesta, dono de um Peugeot 206 manual antigo avaliado em cerca de R$ 22,3 mil. Trocar por um 207 automático custaria cerca de R$ 62,3 mil: mais de 20 meses de salário integral, mesmo vendendo o carro velho.
Os nacionais também pesam: o sedã Shahin sai por volta de R$ 69 mil e o crossover Reera passa de R$ 95,7 mil. A guerra em curso agravou o quadro: ainda segundo o Al Jazeera, os carros nacionais subiram de 40% a 80% desde o início do conflito, e alguns modelos passaram de 130% do valor de setembro de 2025.
Para efeito de comparação, o zero-quilômetro mais barato do Brasil, o Fiat Mobi Like, parte de cerca de R$ 80 mil — mais que o Shahin iraniano. A diferença é que, por aqui, ninguém precisa ser sorteado para ter o direito de pagar.
Sobras da Kia, da Toyota e da Peugeot

Os três modelos resumem a história recente da indústria iraniana. O Saipa Quick, de 2017, é o mais velho de espírito: usa a plataforma X200, descendente do Kia Pride de 1986 — primo do Mazda 121 e do Ford Festiva. Feito sob licença como Saipa Pride, o carro passou de 7 milhões de unidades em 27 anos e virou sinônimo de popular no país.
O Shahin tenta virar essa página. Apresentado em 2018 como Roham e produzido desde o fim de 2020, é o primeiro sedã da Saipa sobre uma plataforma projetada dentro do Irã, ainda que derivada da base do Toyota Yaris. Tem 112 cv e 18,1 kgfm.
Já o Reera nasceu órfão. Quando a Peugeot deixou o país após a volta das sanções americanas, em 2018, ficaram dois projetos inacabados: um virou o sedã Tara, baseado no 301; o outro, o crossover Reera, derivado do 2008. A Iran Khodro o apresentou em 2022 e só começou a produzi-lo em 2024, com 162 cv e 24,5 kgfm.
👍 Curtiu? Apoie nosso trabalho seguindo nossas redes sociais e tenha acesso a conteúdos exclusivos. Não esqueça de comentar e compartilhar.
|
|
|
|
X
|
|
|
Siga no
|
||||
Ah, e se você é fã dos áudios do Boris, acompanhe o AutoPapo no YouTube Podcasts:
Podcast - Ouviu na Rádio
|
AutoPapo Podcast
|
