Carros maiores, mais mortes: por que os atropelamentos fatais dispararam 75% nos EUA

De 200 a 400 pedestres morrem a mais por ano por causa de carros maiores; entenda o papel da física e de uma regra da era Obama nisso

FORD 2
As mortes de pedestres não só aumentaram 75% desde 2009, como também foram correlacionadas com os perigos representados pelo peso físico, altura e pontos cegos inerentes aos caminhões e SUVs de grande porte da atualidade (Foto: Divulgação)
Por João Paulo Profeta
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 24/06/2026 às 08h00

O aumento de 75% nas mortes de pedestres nos Estados Unidos desde 2009 não é coincidência, mas consequência direta da forma como os carros mudaram. Um levantamento do The New York Times com o Insurance Institute for Highway Safety (IIHS) reuniu dados inéditos sobre as dimensões dos veículos e confirmou o que já se suspeitava: o crescimento contínuo de picapes e SUVs em tamanho, peso e altura tornou as ruas mais perigosas para quem anda a pé.

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Segundo o estudo, de 200 a 400 pedestres deixariam de morrer todos os anos se os veículos tivessem mantido as dimensões de 25 anos atrás, o equivalente a cerca de 10% da alta recente nas mortes. O fenômeno tem origem datada. O boom de picapes e SUVs vinha dos anos 1990, foi interrompido pela crise de 2008 e voltou com força logo depois, turbinado por uma reviravolta regulatória e pelo programa Cash for Clunkers, que apagou quase 700 mil usados do mercado e empurrou os compradores para modelos novos.

Política de Barack Obama

Foi então que entrou em cena o chamado “modelo de pegada” revisão da era Obama que passou a classificar os automóveis por critérios físicos, como dimensões e tamanho dos pneus. Na prática, a regra permitia que as montadoras poluíssem mais desde que fabricassem carros maiores. O efeito colateral foi a ascensão do SUV e crossover, que destronaram o sedã médio como o carro de família preferido dos americanos.

Do ponto de vista da física, o perigo é multifatorial. Espalhar o impacto por uma área maior até reduziria a força sobre cada parte do corpo, mas esse ganho é anulado pela massa, que só cresce — em parte porque os carros pequenos, que seguravam a média, simplesmente sumiram do mercado.

A altura é o segundo agravante. Em sedãs baixos, o impacto ocorre nas pernas; em picapes e SUVs, atinge o corpo acima do centro de gravidade. Quando isso acontece, o pedestre é arremessado para a frente do veículo, e não sobre ele — situação bem mais letal por causa da baixa visibilidade desses modelos. Em testes de colisão feitos para o estudo pela empresa Forensic Rock, os pesquisadores observaram acidentes devastadores mesmo em baixa velocidade, com a vítima parando sob as rodas antes que o motorista percebesse o atropelamento.

Somam-se a isso os enormes pontos cegos dos para-choques imponentes. Avanços em pneus e em sistemas de segurança deram aos motoristas mais controle sobre máquinas cada vez mais pesadas, mas esse ganho não se estende a quem está fora do carro. A Europa há anos exige projetos de frente mais seguros para pedestres; nos Estados Unidos, o tema só agora ganha tração entre os reguladores.

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