Casa Branca repete erro histórico da VW ao comemorar fábrica de motores nos EUA
Governo americano destacou investimentos industriais bilionários, mas associou erroneamente uma empresa de geradores e sistemas navais no setor automotivo
Publicado em 27/08/2026 às 22h00
Em um comunicado oficial divulgado recentemente para celebrar medidas de fortalecimento da indústria automotiva nacional, o governo dos Estados Unidos acabou cometendo um equívoco curioso ao misturar ramos empresariais totalmente distintos. A Casa Branca destacou um pacote de investimentos de aproximadamente US$100 milhões atribuído à Rolls-Royce, citando injeções financeiras em fábricas localizadas na Carolina do Sul e em Minnesota para a suposta fabricação de motores veiculares no país.
No entanto, o erro reside no fato de que a divisão mencionada não tem qualquer ligação com a construção de automóveis de luxo ou com os propulsores V12 utilizados em modelos como o Phantom ou o Ghost — cuja responsabilidade de montagem pertence à BMW no Reino Unido.
Os aportes financeiros referem-se, na verdade, à Rolls-Royce Holdings plc e à sua subsidiária de sistemas de energia MTU, cujas linhas produtivas são dedicadas ao desenvolvimento de motores a diesel de grande porte para aplicações em navios, locomotivas ferroviárias e geradores estacionários de alta capacidade, ideais para abastecer grandes centros de dados e instalações críticas.
VW comprou, mas não levou… Foi a BMW
Essa confusão institucional lembra um precedente histórico marcante ocorrido em 1998, quando a Volkswagen desembolsou quase US$ 1 bilhão acreditando estar adquirindo a totalidade da clássica marca de veículos britânica, mas acabou descobrindo que os direitos sobre o nome comercial pertenciam de forma independente ao braço aeroespacial e de defesa.
Ao disputar a aquisição da Vickers PLC, então responsável pela produção de Rolls-Royce e Bentley, a Volkswagen elevou a oferta para cerca de US$ 780 milhões e venceu a BMW. O problema é que a Vickers era dona apenas da Bentley e da fábrica de Crewe: os direitos sobre a marca Rolls-Royce pertenciam à Rolls-Royce Group PLC, empresa ligada à produção de turbinas aeronáuticas e marítimas.

A Volkswagen descobriu a armadilha depois de concluir a compra, enquanto a BMW já havia adquirido por US$ 70 milhões os direitos de uso do nome Rolls-Royce em automóveis. Após uma disputa, as duas fabricantes chegaram a um acordo: a Volkswagen ficou com a Bentley e a fábrica de Crewe, enquanto a BMW recebeu o direito de produzir Rolls-Royce a partir de 2003, além da icônica estatueta Spirit of Ecstasy. Para isso, construiu uma nova fábrica em Goodwood e ainda fechou um acordo para receber motores da Volkswagen durante cinco anos.
Apesar do enorme prejuízo financeiro, a Volkswagen modernizou a fábrica de Crewe e investiu no desenvolvimento da Bentley, que permaneceu sob seu controle e se consolidou como uma das principais marcas de luxo do mundo. Já a Rolls-Royce seguiu com a BMW, em uma reviravolta que transformou uma das maiores disputas da indústria automotiva em um episódio marcado por uma inesperada — e caríssima — falha de negociação.
Boris Feldman relembra essa história. Veja o vídeo:
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