Há 50 anos, o Fiat 147 mudou a indústria automotiva brasileira
Primeiro Fiat produzido no país, 147 enfrentou um mercado viciado em carros grandes e deu origem à primeira família completa de modelos nacionais
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 04/08/2026 às 15h00
O Fiat 147 está completando 50 anos como um dos modelos mais importantes da história da indústria automotiva brasileira. Primeiro veículo produzido pela Fiat no país, o compacto inaugurou a era dos hatches modernos no mercado nacional e, três anos depois do lançamento, entrou para a história mundial como o primeiro carro movido a etanol fabricado em série.
O 147 estreou em 9 de julho de 1976, mesmo dia da inauguração da fábrica da Fiat em Betim (MG), com apresentação em evento realizado em Ouro Preto. O carro chegava a um mercado dominado por modelos grandes e beberrões, como Chevrolet Opala, Ford Galaxie e Dodge Dart, em plena ressaca da crise do petróleo. A proposta era oposta: motor transversal com tração dianteira, que liberava espaço interno em uma carroceria curta, além de pneus radiais e para-brisa de vidro laminado, itens raros entre os compactos da época.

Do 127 italiano ao jeito brasileiro
O 147 derivava do Fiat 127, lançado na Itália em 1971 e eleito Carro do Ano na Europa no ano seguinte. A adaptação, porém, foi profunda. Depois de rodar com protótipos europeus em estradas brasileiras, a engenharia concluiu que o modelo precisava ser mais resistente: a carroceria ganhou pontos de solda adicionais, a suspensão traseira foi redesenhada e o motor de 903 cm³ do italiano teve o deslocamento ampliado para 1.050 cm³, com 47 cv na estreia.
A Fiat também rompeu com a geografia do setor. Ao se instalar em Minas Gerais, e não em São Paulo, a montadora criou um polo automotivo que se tornaria o segundo maior do país.
O “Cachacinha” que abriu caminho para o flex
Ainda em 1976, no Salão do Automóvel de São Paulo, a Fiat exibiu um protótipo do 147 movido a etanol, já com quilometragem acumulada em testes. A aposta se concretizou em 1979, no auge do Proálcool: o 147 tornou-se o primeiro automóvel a etanol produzido em série no mundo. Apelidado de “Cachacinha”, abriu a trilha tecnológica que desembocaria, décadas mais tarde, nos motores flex, hoje presentes na quase totalidade dos carros leves vendidos no Brasil.
O hatch também foi o primeiro modelo nacional a originar uma família completa. Em 1979 veio a picape, primeira derivada de um automóvel de passeio no Brasil; em 1980, a perua Panorama e o furgão Fiorino; em 1983, o sedã Oggi. A linha passou por versões como GL, GLS, Rallye, Spazio CL e TR, e chegou a ser exportada para a Europa com motor a diesel de 1,3 litro e 45 cv, vendida como 127 D, um dos menores carros a diesel já produzidos.
Foram cerca de 1,27 milhão de unidades montadas em Betim até 1987, quando o Uno assumiu de vez o posto. Meio século depois, o 147 segue como referência de engenharia acessível e um dos capítulos decisivos da indústria brasileira.

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