O que acontece se você jogar um avião de papel no espaço? A ciência finalmente respondeu

Engenheiros aeroespaciais de Tóquio levaram a ideia a sério e criaram um modelo matemático para descobrir o destino de uma aeronave de origami em órbita

Ilustração avião de papel
Estudo analisou a viabilidade de lançar aviões de papel a partir da órbita da Terra (Arte: AutoPapo)
Por João Paulo Profeta
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 30/06/2026 às 21h00

Quem nunca se perguntou, ainda na infância, o que aconteceria se um avião de papel fosse lançado no espaço? A dúvida, que parece brincadeira de criança, virou objeto de um estudo acadêmico sério, publicado na revista científica Acta Astronautica. Os engenheiros aeroespaciais Maximilien Berthet e Kojiro Suzuki, da Universidade de Tóquio, decidiram respondê-la com método.

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A dupla analisou o comportamento de um avião de papel — dobrado a partir de uma folha A4 — que fosse arremessado da Estação Espacial Internacional (ISS), a cerca de 400 km (250 milhas) de altitude. Para isso, combinou um modelo numérico avançado, processado em computador, com testes em um túnel de vento capaz de reproduzir condições extremas. Entre as perguntas que pretendiam responder estavam quanto tempo a órbita levaria para decair e se o brinquedo cairia de imediato, como costuma acontecer aqui na Terra.

Ao contrário do que se poderia imaginar, a pequena aeronave não despencaria de imediato. Segundo o modelo, na órbita baixa da Terra o avião manteria uma trajetória relativamente estável e continuaria apontado para a direção mais ou menos correta por cerca de 80 horas, antes de mergulhar de forma brusca rumo à atmosfera — um padrão que lembra o de qualquer avião de papel lançado numa sala de aula.

ACTA ASTRONAUTICA COPIA

Os cálculos, porém, só valem acima de aproximadamente 120 km de altitude. Abaixo disso, o ar mais denso torna as contas imprecisas, e foi aí que entrou a parte concreta do experimento. Os pesquisadores construíram um protótipo e o submeteram, no túnel de vento, à velocidade de Mach 7 e a temperaturas de cerca de 377 °C — as condições previstas na reentrada.

O modelo de papel resistiu mais do que se esperava: chegou a gerar ondas de choque, provavelmente o primeiro avião de papel a conseguir tal feito, ainda que o nariz tenha entortado para cima e as bordas ficassem chamuscadas. O desfecho, no entanto, é inevitável. O atrito com as camadas mais densas da atmosfera provoca o superaquecimento e a destruição da estrutura: o avião acaba incinerado na reentrada.

Apesar do fim em chamas, os autores enxergam uma aplicação possível. Como destacam no artigo, o custo baixíssimo de um avião de papel permitiria lançar vários ao mesmo tempo. Enxames dessas aeronaves, cada uma com pequenos instrumentos de pesquisa, poderiam, em tese, coletar dados de forma coletiva. Dificilmente o método substituiria os satélites convencionais, mas, como admitem os próprios autores, só dá para saber depois de pôr a ideia à prova.

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