Quando a Holanda proibiu carros aos domingos os cavalos tomaram as ruas
Com rodovias vazias, holandeses trocaram o volante por bicicletas, patins, carruagens e cavalos durante o embargo de petróleo da Opaep
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 30/09/2026 às 10h00
Durante a crise do petróleo de 1973, a Holanda proibiu a circulação de veículos motorizados particulares aos domingos para economizar combustível. Os holandeses se adaptaram rápido: além de bicicletas e transporte público, muitos recorreram a patins, carruagens e até cavalos, que voltaram a ocupar ruas, estradas e rodovias do país.
A restrição valeu por dez domingos, de 4 de novembro de 1973 a 6 de janeiro de 1974, e foi a resposta do governo do primeiro-ministro Joop den Uyl ao embargo imposto pela Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo (Opaep) às nações que apoiaram Israel na Guerra do Yom Kippur.
Apenas veículos com autorização especial, como ambulâncias e viaturas policiais, podiam rodar. A rainha Juliana, que tinha direito à isenção, recusou-se a usá-la, segundo o site americano Jalopnik.

Um ministro colocou a Holanda no embargo
Em 6 de outubro de 1973, no feriado judaico do Yom Kippur, Egito e Síria lançaram um ataque surpresa contra Israel para retomar os territórios perdidos na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Após sofrer pesadas perdas, a liderança israelense pediu socorro aos Estados Unidos.
A resposta veio oito dias após o ataque, quando o governo Richard Nixon montou uma ponte aérea que levou mais de 22 mil toneladas de armas e munições a Israel ao longo de um mês, contribuindo para reverter o rumo da guerra.
Em retaliação, os países da Opaep impuseram um embargo de petróleo aos Estados Unidos e a aliados como Reino Unido, Canadá, Japão, Portugal, Rodésia (atual Zimbábue), África do Sul e Holanda. Os holandeses entraram na lista depois que o ministro da Defesa, Henk Vredeling, decidiu por conta própria fornecer armas a Israel.
Diligências na rodovia e cavalos na porta do bar
Segundo o The New York Times, o país encarou a restrição com bom humor, quase como uma festa. Diligências circularam por rodovias, e os cocheiros precisavam desviar de adolescentes que faziam piqueniques no asfalto.
Em Amsterdã, moradores cavalgavam pelas ruas e amarravam os animais na porta de bares, como se o país tivesse sido transportado para o Velho Oeste. O único cuidado era com os ciclomotores, liberados pela regra, que assustavam os cavalos.
Quase ninguém desafiou a proibição: de acordo com o jornal britânico The Guardian, poucos motoristas foram multados no primeiro domingo. O efeito prático, porém, foi limitado. Muitos anteciparam as viagens para o sábado, e o país continuou recebendo petróleo por outras rotas.
Após os domingos sem carro, a gasolina passou a ser vendida com cupons de racionamento, de 12 de janeiro a 4 de fevereiro de 1974. O embargo da Opaep terminou em março daquele ano.
O Brasil, que importava cerca de 70% do petróleo que consumia, também sentiu o choque. A ditadura militar elevou o preço da gasolina, limitou a velocidade nas rodovias a 80 km/h e, em 1977, no governo Ernesto Geisel, proibiu os postos de abrir nos fins de semana. Dois anos antes, a crise já havia levado à criação do Proálcool, embrião do carro a álcool.
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