Rússia usa gasolina automotiva para abastecer aviões em meio a crise de combustíveis causada pela guerra

Ataques ucranianos a refinarias e sanções deixaram a Rússia sem querosene e a aviação local busca saídas arriscadas para não parar

Rússia avalia uso de gasolina comum em aviões após crise de abastecimento
Escassez de combustível, agravada pela guerra e por ataques a refinarias, pressiona a aviação civil do país (Foto: Banco de Imagem | Shutterstock)
Por Júlia Haddad
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 25/06/2026 às 09h00

A Rússia enfrenta uma crise de abastecimento de combustíveis que já chegou à aviação civil. Diante da escassez e da alta no preço da gasolina de aviação, operadores de aeronaves leves passaram a testar o uso de gasolina automotiva comum nos motores — uma alternativa considerada arriscada por especialistas, segundo o jornal russo Kommersant.

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Os testes já incluem voos de demonstração. Algumas empresas substituíram os motores Rotax-912 por similares chineses, os modelos C100, capazes de operar com gasolina de menor octanagem, do tipo Euro-3. Os primeiros resultados não apontaram danos imediatos ao desempenho, mas o tempo de voo acumulado ainda é insuficiente para conclusões definitivas.

O combustível aeronáutico tem octanagem mais alta — em geral 100 — e é formulado para suportar baixas temperaturas e grandes altitudes. A gasolina comum, de octanagem inferior, eleva o risco de detonação nos motores, fenômeno que pode reduzir a potência, acelerar o desgaste do sistema de escapamento e, em situações extremas, provocar falhas em pleno voo.

As causas da escassez

A falta de combustível é atribuída à combinação entre os elevados custos da guerra, as sanções internacionais e os ataques ucranianos à infraestrutura energética russa. Nos últimos meses, drones de Kiev têm atingido refinarias e instalações estratégicas, pressionando ainda mais a produção e a distribuição. Para preservar os estoques internos, Moscou proibiu a exportação de gasolina até o fim de julho e a de combustível de aviação até o fim de novembro, além de flexibilizar os padrões de qualidade — autorizando gasolina com teor de enxofre muito acima do limite ambiental.

A pressão recai com mais força sobre a pequena aviação, em que o combustível chega a representar mais de um terço dos custos operacionais. A associação que reúne operadores do Antonov An-2 — biplano de origem soviética com 853 unidades registradas no país — pediu ao Ministério dos Transportes a regulação estatal dos preços do querosene e da gasolina de aviação. Os preços do querosene de aviação subiram cerca de 41% desde o início do ano, e, em algumas regiões, as reservas de gasolina aeronáutica devem durar de um a um mês e meio.

Além dos desafios de abastecimento, a aviação civil russa segue enfrentando dificuldades para manter a frota em operação por causa das sanções internacionais, que restringem o acesso a peças, componentes e serviços de manutenção. Diante do impasse, autoridades estudam recolocar em operação até 700 An-2 da era soviética que estavam paradas, depois do fracasso na tentativa de desenvolver um substituto moderno.

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