Trump diz que motoristas de carros elétricos têm uma “doença”
Em discurso em Las Vegas, o presidente americano chamou a ansiedade de autonomia de doença e repetiu alegação falsa sobre carros elétricos
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 07/08/2026 às 17h00
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, classificou como “doença” o receio dos donos de carros elétricos de ficar sem carga em viagens longas — a chamada ansiedade de autonomia — e chamou de “loucos” os motoristas de veículos a bateria. A declaração foi feita na quarta-feira (5), em discurso sobre a agenda econômica do governo em Las Vegas.
“Eles têm uma doença”, disse Trump, ao descrever motoristas que, segundo ele, começam a procurar um ponto de recarga quando a bateria ainda está com três quartos de carga. O presidente citou ainda placas de rodovia que indicam eletropostos a 143 km de distância. “Essas pessoas são loucas”, afirmou.
No mesmo trecho do discurso, Trump reivindicou o fim do que chamou de ‘obrigatoriedade elétrica’ e fez uma referência a Elon Musk, dono da Tesla e ex-aliado do governo. “Não quero falar sobre isso porque o Elon não ficou exatamente satisfeito comigo, mas eu tinha que fazer”, disse. “Nós amamos o Elon.”
Nunca houve obrigação de comprar um elétrico
A tese de que os americanos seriam forçados a trocar o carro a combustão por um elétrico até 2030 não corresponde aos fatos. Nunca existiu lei ou regra federal que impusesse essa compra ao consumidor.
O que havia era uma meta, fixada no governo Joe Biden, de que 50% dos veículos novos vendidos no país fossem de emissão zero até 2030 — objetivo dirigido às montadoras, não aos compradores. A ela se somavam os padrões federais de emissões e a autorização especial que permitia à Califórnia adotar limites mais rígidos. Foram justamente esses instrumentos, e não uma exigência de varejo, o alvo do decreto assinado por Trump em janeiro de 2025.
O que dizem os números
Trump afirmou que os elétricos respondem por 7% das vendas nos Estados Unidos. Estimativas da Kelley Blue Book, da Cox Automotive, apontam 5,8% no segundo trimestre. Apesar da pequena imprecisão, a ordem de grandeza se sustenta: a demanda esfriou de forma acentuada desde o pico de 2025, movimento associado, ao menos em parte, ao fim do crédito fiscal federal de US$ 7.500 (cerca de R$ 38 mil) — medida tomada pelo próprio Trump.
Já a afirmação de que não havia como recarregar um elétrico no país é contrariada pelo banco de dados do Departamento de Energia americano, que registra mais de 250 mil pontos públicos de recarga. A rede, no entanto, continua desigual: a cobertura é mais rarefeita em áreas rurais e fora das grandes regiões metropolitanas, e quem mora em apartamento sem tomada própria tem uma experiência de uso bastante diferente da de quem recarrega em casa todas as noites.
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