Um Honda Civic por R$ 850.000: como Singapura tornou o carro artigo de rico
Só a licença para rodar dez anos saiu por R$ 500 mil no último leilão; entenda o sistema de cotas que limita a frota da cidade-Estado
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 12/08/2026 às 13h00
Se ter um veículo no Brasil está ficando caro, Singapura pode elevar o conceito de “caro” a um patamar astronômico. A nação insular é reconhecida como o local mais caro do mundo para se adquirir um automóvel, com preços elevadíssimos devido a uma política rigorosa de controle de veículos na pequena cidade-estado.
Lá, a licença que dá o direito de rodar com um carro por dez anos custou S$ 123.890 (cerca de R$ 499.014) no último leilão de autorizações, encerrado em 5 de agosto. O valor é maior que o preço de vários carros de luxo — e não inclui o carro. Trata-se apenas do papel que autoriza registrar o veículo.
A licença se chama Certificate of Entitlement (COE) e é a peça central do sistema de cotas que a cidade-Estado usa para limitar a frota. Com 12% do território ocupado por vias, o governo mantém uma política de crescimento zero para automóveis particulares: um carro só entra em circulação quando outro sai. Os certificados são distribuídos em leilões abertos realizados duas vezes por mês pela Land Transport Authority (LTA), a autoridade de transportes do país.
Cinco categorias, cinco preços
A cota A, a mais concorrida, cobre carros a combustão com motor de até 1.600 cm³ e 132 cv, além de elétricos de até 150 cv. Foi ela que fechou a S$ 123.890. A cota B, para motores maiores e mais potentes, saiu por S$ 129.910. A categoria C, de veículos de carga e ônibus, custou S$ 91.545, e a D, obrigatória para motos, S$ 10.503. A E é uma categoria aberta, válida para tudo menos motocicletas, e fechou a S$ 131.000. Só as cotas C e E podem ser transferidas.
Vale um ajuste de perspectiva: o preço de agosto na cota A representa uma trégua. Em julho, o mesmo certificado bateu recorde histórico de S$ 129.000.
E o COE é só uma parte da conta
Somado ao carro, o resultado desafia comparações. Um Honda Civic sem hibridização é anunciado em Singapura por S$ 211.899, cerca de US$ 165,6 mil. Nos Estados Unidos, o Civic LX 2026 sai por US$ 25.890, já com taxas de entrega. O sedã japonês custa, portanto, mais do que a renda familiar mediana anual do país, de S$ 149.352 (US$ 116,7 mil). No topo da tabela, um Mercedes-Benz GLE parte de S$ 572.888, quase US$ 100 mil acima do preço de um McLaren 750S nos Estados Unidos.
O certificado, porém, é apenas uma das camadas. O comprador ainda paga taxa de registro, imposto de consumo de 20% sobre o valor de importação, 9% de imposto sobre bens e serviços e a Additional Registration Fee, que varia de 100% a 320% do valor do veículo, em faixas progressivas.
Passados os dez anos, quem quiser manter o carro precisa desembolsar o Prevailing Quota Premium (PQP), média móvel dos preços das cotas nos três meses anteriores — 100% do valor para renovar por outra década ou 50% para cinco anos, sem direito a nova prorrogação. A janela é de um mês após o vencimento; perdido o prazo, o veículo precisa ser desregistrado. Ainda assim, a fila não diminui: no último leilão, a LTA recebeu 1.522 lances na categoria A e 1.316 na B.
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