Adicionar 35% de etanol na gasolina é decisão técnica ou política?

Novos percentuais estão previstos na Lei do Combustivel do Futuro, desde que aprovada a viabilidade 'técnica' - mas será que é isso mesmo?

posto montagem IA
Decisão pelo aumento do etanol na gasolina tem motivação política (Ilustração gerada por IA)
Por Boris Feldman
Publicado em 04/04/2026 às 09h00

A bandeira que se empunha não poderia ser mais convincente: reforçar a presença dos biocombustíveis para reduzir a poluição atmosférica e a dependência dos combustíveis fósseis. O aumento nos percentuais está previsto na Lei do Combustivel do Futuro, de 2024. Etanol na gasolina vai para 35% (E35) e o biodiesel no diesel até 25% (E25). Hipocrisia: desde que aprovada a “viabilidade técnica”.

AutoPapo
NÃO FIQUE DE FORA do que acontece de mais importante no mundo sobre rodas!
Seguir AutoPapo no Google

Teoricamente, uma legislação que só merece aplausos: quem poderia – em sã consciência – ser contrário a reduzir emissões e reforçar a presença de combustíveis renováveis que estimulam o setor agrário?

VEJA TAMBÉM:

Vantagens e desvantagens do etanol

Entretanto, existem limites tecnológicos para se elevar estes percentuais. O etanol, por exemplo, é um excepcional substituto da gasolina. Se, por um lado tem menor valor energético (poder calorífico) e aumenta o consumo, por outro seu teor de carbono é muito menor (mais limpo) e sua octanagem elevada.

Um novo  motor projetado para queimar só etanol poderia ser mais eficiente que o flex, por não ter que servir “a dois senhores”. Não é conversa fiada: a Fiat já tem um pronto na prateleira há alguns anos. Só não põe nos carros pelo temor do motorista em se tornar refém do etanol, que pode variar de preço ou até faltar no posto (como já ocorreu no final da década de 1980 e desacreditou o “Pró-Álcool”).

bomba combustivel alcool etanol aditivado
Carro 100% a etanol sofreria rejeição do mercado por ‘trauma’ dos consumidores (Foto: Shutterstock)

Ao subir o percentual de etanol no ano passado, de 27% para 30%, os testes aprovaram o E30 com algumas ressalvas, principalmente nas motos. Mesmo assim, foram realizados somente provas de dirigibilidade, pela “urgência” do governo em aprová-lo.

Nada de verificar se o etanol poderia prejudicar a durabilidade (compatibilidade) dos componentes. Sem tempo hábil para uma rigorosa avaliação da “viabilidade técnica”, como previsto na legislação.

Biodiesel: usuário é que paga o pato

Se subir o percentual do etanol e passar a gasolina para E35 é uma aposta arriscada, no caso do diesel é quase um escândalo, pois hoje (B15) já prejudica os motores devido às suas moléculas diferentes do diesel. Ele provoca borra no fundo do tanque que sai entupindo filtros, bombas e o que encontra pela frente.

E o sofrimento é maior ainda nas baixas temperaturas no sul do país. Motoristas e frotistas tremem ao imaginar o biodiesel elevado para 20% ou 25% (E25) como pretendem seus produtores.

Amparados pela Lei do Combustivel do Futuro, governo e empresários do setor se utilizam de argumentos os mais marotos para silenciar quem contesta os novos percentuais. Alegam que o motor pode funcionar até com biodiesel puro (B100) e que alguns países já elevaram este percentual para 30% ou 35%. O que é verdade. Mas não explicam serem necessárias condições especialíssimas – e aumento de custos – para se contornar os problemas provocados por este combustível.

A guerra no Oriente Médio veio bem a calhar para a pretensão dos produtores de biodiesel, pois a dificuldade na importação de cerca de 30% do diesel consumido no Brasil só escancara as portas para que se atendam suas reivindicações.

filtro de óleo diesel com borra de biodiesel sambaíba
Filtro de combustível saturado com borra provocada pelo biodiesel (Foto: Divulgação)

E os motoristas e frotistas de veículos diesel, como ficam nessa? E os motores que não operam continuamente, como os geradores de energia elétrica em prédios, principalmente os hospitais? Ou nas máquinas agrícolas, que podem ficar semanas ou meses inativas até a safra seguinte? Existem paliativos que reduzem os efeitos negativos, como troca de filtros mais frequente e aditivos específicos no tanque, mas que encarecem a operação destes motores. Ou seja, é (sempre) o usuário que paga o pato…

Mas nada disso interessa: o produtor exige, o governo (MME) se ajoelha e autoriza.  Na marra…

Newsletter
Receba diariamente notícias, dicas e conteúdos exclusivos que foram destaque no AutoPapo.

👍  Curtiu? Apoie nosso trabalho seguindo nossas redes sociais e tenha acesso a conteúdos exclusivos. Não esqueça de comentar e compartilhar.

TikTok TikTok YouTube YouTube Facebook Facebook X X Instagram Instagram
Siga no

Ah, e se você é fã dos áudios do Boris, acompanhe o AutoPapo no YouTube Podcasts:

Podcast - Ouviu na Rádio Podcast - Ouviu na Rádio AutoPapo Podcast AutoPapo Podcast
SOBRE
23 Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Comentários com palavrões e ofensas não serão publicados. Se identificar algo que viole os termos de uso, denuncie.
Avatar
jorge luis bogdanov kussarev 6 de abril de 2026

Tenho motocicleta 150 cilindradas, carburada, que já não era maravilhosa com 27% de álcool na mijolina. Com o aumento deste percentual, mais a dificuldade de abastecer em um posto honesto, fica fácil deduzir que meu consumo de combustível subiu, o desempenho caiu na mesma proporção, e o custo de rodagem… Anda mais do que notícia ruim !!! Eita desgoverno !

Avatar
Vinicius 6 de abril de 2026

É roubo. Além de destruir os motores a gasolina, o trouxa paga como se fosse tudo gasolina.

Avatar
Georges 6 de abril de 2026

Não tem nada de técnico aumentar etanol na alcolina. Já no aumento para 30% fomos brindados com a informação que o setor “responsável” não teve tempo para realizar os estudos técnicos. É só marotagem mesmo e lobby do setor alcooleiro.

Avatar
Arthur 6 de abril de 2026

Já temos motores flex. Deixa a gasolina subir que o álcool fica competitivo em vários estados.
Não precisa dessa interferência.
Já biodiesel no diesel deveria ser extinto, não aumentado.
Usa essa porcaria em térmica, trem, navios talvez… Coisa bruta e que consome muito.

Avatar
Georges 6 de abril de 2026

O álcool anda pendurado no preço da alcolina, se ela sobe o etanol vai pendurado.

Avatar
Marcos Henrique Saat 6 de abril de 2026

É triste ver decisões políticas prevalecer sobre decisões técnicas.

Avatar
Junior 5 de abril de 2026

Brasil é desmoralizado até nôs combustíveis.
Adicionar álcool a gasolina, é adulteração clara, porém, é legalizado vender gasolina adulterada.
O correto seria vender gasolina pura, quando o consumidor vai compra gasolina, ele quer gasolina não gasolina adulterada.
Aí um monte de deputado jumentos vão aprovam uma lei pensando que é ótima e acabam lesando o consumidor
Produto adulterado é crime, mesmo que seja legalizado é adulterado.

Avatar
Natan Cardoso 5 de abril de 2026

Deveria ser as bombas separadas de etanol e gasolina. Quem quiser fazer flex que abasteça com os dois. Mas querem enfiar guela abaixo esse etanol sabor gasolina.

Avatar
Anderson Domingues 5 de abril de 2026

É burrice de quem não se importa com os estragos que causarão nos veículos de quem se sacrifica a comprar e ainda ser saqueado com estes malditos impostos por pagar algo que já adquiriu… Vão lá POVO… continuem participando deste circo achando que nós temos o poder de voto, de escolha… Olhem os retardados, ladrões, todo o tipo de EXCREMENTOS que estão lá no poder… O povo não importa para estes saqueadores da nação…

Avatar
Claude 5 de abril de 2026

Basta ver as comodities de açúcar que despencaram, para entender que mudaram as diretrizes açúcar/ álcool, e está sobrando álcool no mercado interno que precisa ser”enfiado em algum lugar”, para ajudar os usineiros principalmente do nordeste.

Avatar
Santiago 5 de abril de 2026

Mais de 90% do agronegócio do açúcar e do etanol estão concentrados na região Centro-Sul, principalmente no estado de São Paulo, e também no Triângulo Mineiro, Goiás, Mato Grosso do Sul e norte do Paraná.

Avatar
Helio 5 de abril de 2026

Está pra lá de comprovado que esse elevadíssimo índice de álcool atrapalha o funcionamento de veículos puramente a gasolina (como antigos e importados). Se o Brasil deseja realmente aumentar o consumo do etanol, reduzam os tributos do combustível. Mas não, preferem empurrar guela abaixo do consumidor.

Avatar
Reynaldo 5 de abril de 2026

Nem uma coisa, nem outra. É roubo mesmo, você pagar por gasolina e levar etanol. Governo maldito aplaudido por idiotas… Carro flex é gambiarra, gasta mais que a gasolina ou a álcool puros.

Avatar
Michel 4 de abril de 2026

Digo com convicção que isso é político, nunca foi técnico.
Vejo que no Brasil, dados técnico com coerência nunca vai ter prioridade, principalmente para esse governo de esquerda, que são burros.
Agora indo para o lado técnico, o Brasil pode ter formas infinitas, manter 100% o álcool anidro ao invés o hidratado….. ter estudos para ter um álcool com lubrificante, parecido com a gasolina, ser barato que a própria a gasolina para manter as peças metálicas sem desgastes….. ter a distribuição desde o oiapoque ao chuí do álcool em todos os postos.
Se quer ser referência, tem de ter estudos científicos e distribuição a todos.

Avatar
Paulo Maurício 4 de abril de 2026

E30 já causa problemas em carros importantes exclusivos a gasolina. Aumentar e péssimo. Os carros atuais os proprietários já podem optar pela mistura e 9 percentual que desejar. Vão causar prejuízos aos carros mais antigos e exclusivos a gasolina

Avatar
Alcides 4 de abril de 2026

Não vejo problema para a maioria dos veículo produzidos hoje, já que são flex. Se ao menos for mantido o percentual de 25% de etanol nas gasolinas premium e a indústria automotiva, principalmente de motos, ampliar a inserção de motores flex em seus produtos., fica a critério do usuário optar pelo uso da gasolina E35, mais barata, ou a premium, mais cara.

Avatar
The Aviator 4 de abril de 2026

E isso acontece com aprovação de um governo que se autoproclama como “todo para o social”! É bom mesmo em socializar os prejuízos para nós, principalmente os mais pobres, que não possuem condições de trocar seu veículo por um mais novo.

Avatar
ana 4 de abril de 2026

Pois eh, se querem fazer algo em prol do meio ambiente sem penalizar a sociedade poderiam cuidar da infraestrutura de transportes, como implementar trens ou ou ate permitir “road trains” em vez de estimular modernizacao de motores. Se for calcular tudo inclusive fator humano, modernizar para baterias e motores de aluminio fica mais caro pro meio ambiente e sociedade do que evoluir a tecnologia atual para motores mais durraveis

Avatar
Santiago 4 de abril de 2026

Tal como nos tempos do Império, os barões do Agro ainda continuam atrasando os interesses e os rumos do País.
Já não basta a esses senhores os $bilhões e mais $bilhões de lucros que eles embolsam a cada safra???
O Agro é pop….o k-c-t !!!

Avatar
Daniel 5 de abril de 2026

O analfabetismo é um desastre, o cara tá falando mal do agro em uma reportagem que fala de mais uma nova tecnologia do agro.

Avatar
Santiago 5 de abril de 2026

Leia a matéria na íntegra.

Avatar
Rodolfo 4 de abril de 2026

Por estas e outras que o Brasil não vai pra frente !
Que idiotice!

Avatar
John 4 de abril de 2026

É a decisão estúpida

Avatar
Deixe um comentário