Governo adota a Lei de ‘Dooh Nibor’

A recente greve dos caminhoneiros levou o desastrado governo federal a adotar a Lei de Robin Hood... ao contrário

Por Boris Feldman 17/06/18 às 10h58

O desgoverno Temer reduziu – na marra e à custa de sacrificar verbas essenciais para a sociedade – o custo do óleo diesel na bomba. Uma conta a ser paga com mais filas nos hospitais e buracos nas estradas, menos escolas para crianças e policiais nas ruas.

Mas são vários os reflexos negativos das medidas: ao baixar o preço do diesel enquanto as bombas registravam um aumento da gasolina/álcool, privilegiou meia dúzia de milionários e aumentou a despesa de combustível dos menos afortunados financeiramente. Como assim?

O diesel já tinha sua tributação reduzida para custar menos no posto, barateando o transporte de cargas e passageiros. Mas seu uso era limitado aos veículos pesados (caminhões e ônibus) e agrícolas. Entre esses,  o jipe. Que, para se enquadrar nesta categoria, deve contar com tração nas quatro rodas e sistema mecânico de redução.

Utilitário esportivo, em geral, tem tração nas quatro rodas, mas não oferece a reduzida. Mas, daí para o “dá-se um jeitinho” bem ao estilo brasileiro foi um pulo só. E a Mercedes-Benz foi ao Contran para homologar seu ML 320 CDI. Um SUV a diesel, com tração integral, mas sem a reduzida. E “provou”, sabe-se lá com que “argumentos”, que a eletrônica desenvolveu de tal forma os sistemas de controle de tração que já se obtinham os mesmos resultados práticos que a reduzida.

Basta um conhecimento mínimo de mecânica para se ter certeza do contrário: a informática pode até resolver melhor que a mecânica a dirigibilidade de um carro no barro, mas jamais substituirá a redução mecânica exigida pela lei. Que pode ser obsoleta e deveria ser atualizada para refletir  a evolução tecnológica que torna operacional um carro no barro. Mas continua vigendo, mesmo obsoleta, como centenas de outras no país.

O órgão de trânsito caiu na conversa mole da Mercedes, por incompetência (ou desonestidade) e o SUV foi homologado como jipe, mesmo sem cumprir a lei. Para alegria de todas as marcas com utilitários esportivos a diesel em seu portfólio. Seu custo inicial é mais elevado, porém o quilômetro rodado é mais barato pelo menor custo do diesel em relação à gasolina e porque seu motor é mais eficiente e roda mais quilômetros com um litro de combustível. E daí um festival de importações destes carros que perdura até hoje. Há quem defenda a decisão, argumentando ser a lei obsoleta e que não reflete os avanços tecnológicos da indústria. Então, dizem outros, que se mude a lei.

No frigir dos ovos, uma decisão que reforça a distância entre rico e pobre:  enquanto o primeiro vai para o sítio no domingo consumindo diesel mais barato e subsidiado em seu chique utilitário esportivo BMW de centenas de milhares de reais, o remediado vai para a feira hippie com sua Brasilia Muito Velha (BMV) pagando cada vez mais pela gasolina. E pior: ela já contem um percentual de álcool de 27%, que aumenta o consumo do motor pois o derivado da cana tem valor energético – por litro – menor que o do petróleo. A rigor, quem abastece com gasolina está sendo trapaceado pois leva 27% de um combustível com valor energético inferior.

Não satisfeito, o desgoverno ainda afrontou a lei da oferta e demanda, estabelecendo preços mínimos de fretes. Política que já deu suficientes mostras de não se viabilizar em nenhum lugar do mundo, muito menos no Brasil. Remete à antiga Sunab, órgão do governo nas décadas de 80 e 90 que tentava inutilmente limitar preços das mercadorias. Evidente que vai encarecer o arroz e feijão, prejudicando – mais uma vez – o pobre. Exatamente o que mais sofre quando encarecem os produtos.

A rigor, a greve dos caminhoneiros foi um perde-perde com prejuízo para todas as partes. Mas as decisões do governo prejudicaram especialmente a classe econômica mais baixa, numa verdadeira lei de Robin Hood ao contrário.

Diesel subsídio tira dos pobres para dar aos ricos
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4 Comentários
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    Junior 17 de junho de 2018

    Ótimo post, esta é a realidade do Brasil desgovernado.

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    paulo e.f. diehl 17 de junho de 2018

    caro Boris , aplicar uma moratória e reduzir os pagamentos dos módicos jurinhos para a rolagem da dívida pública , sem amortização de nenhum centavo dela, que até a presente data já somaram a quantia de + R$ 150 BILHÕES, que até o fim de 2018 atingirá R$ 400 BILHÕES, semelhante a de 2017, 2016 e etc…todas somas pagas na surdina e sem qualquer alarde da imprensa , aos nossos ”’agiotas oficializados ”” os banqueiros , que no último semestre aumentaram em 517% seus lucros , com a maior agiotagem mundial e sem precedentes, que irá sobrar numerário para saúde, educação, segurança e obras , assim a solução é a mesma de 1964, com Bolsonaro e o coturno militar para acabar com a semelhante corrupção anarquia social/econômica, só que exponencialmente superior daquela época !!!

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    José A J Vital 17 de junho de 2018

    A máquina verdadeiramente maligna e que prejudica o país inteiro é a pública ! Com vazamentos mensais bilionários e entravada pelo excesso de leis e mecanismos frouxos e inoperantes.
    Na roubalheira e desvio, nosso governo quase nada mexe . Senado, câmaras e seus parceiros trabalham quase que exclusivamente bolando novas maneiras de ludibriar e roubar cada vez mais .

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    ROBSON MARTINS DE OLIVEIRA 17 de junho de 2018

    Boris tudo isso que disse tem sim um grau relevante é impactante na nossa economia, mas em questão do tabelamento de fretes, por hora extremamente importante pois eu e vc vamos interagir hora ou outra com veículo pesado no trânsito, o problema do frete é que as transportadoras já operam no limite de custos há anos agora com essa carga de aumentos constantes no preço do diesel ficou inviável o negócio do transporte de cargas.
    Fato esse que inviabiliza a manutenção dos veículos que rodam cada dia mais em estados precários por falta de condições para manutenção aí é onde entramos na história pondo em risco nossas preciosas vidas e de nossas famílias sem contar o trabalhador do transporte que também está exposto diariamente a esse bug do processo logístico .como certa vez ouvi um operador de cargas dizer “Custo do transporte não é problema meu”ele tinha razão o problema é nosso .

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