Aurelio Lampredi: o engenheiro que fez motores de Ferrari e do Uno

Esse engenheiro italiano fez carreira desenvolvendo motores para todos os tipos de carros e ajudou na criação da Fiat brasileira

Aurelio Lampredi V12 ferrari salão de turim 1951 wikimedia
O seu V12 foi responsável pela primeira vitória da Ferrari na F1 (Foto: Wikimedia)
Por Eduardo Rodrigues
Publicado em 18/01/2026 às 09h00

O motor Fiasa, usado pela Fiat brasileira do 147 ao Palio, foi uma peça essencial para a consolidação da marca no país. Por trás dele está um engenheiro que fez motores de corrida para a Ferrari e para a Fiat italiana, Aurelio Lampredi.

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No passado era comum que os motores nascessem das pranchetas de apenas um engenheiro ou que ele chefiasse sozinho o projeto. Hoje os processos são mais complexos, com equipes cuidando de diferentes partes do “coração” do carro.

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O italiano Aurelio Lampredi, nascido em 1917 na cidade de Livorno, na Toscana, foi responsável por vários motores importantes para a Ferrari e a Fiat. Ele formou em engenharia mecânica na suíça.

O início da carreira de Lampredi foi com motores aeronáuticos, na década de 30. Começou na Piaggio e durante a 2ª Guerra Mundial foi realocado para a Officine Meccaniche Reggiane para trabalhar em motores para a força aérea.

Dos aviões para a Ferrari

Aurélio Lampredi entrou no mundo dos carros após a guerra, com seu chefe da Reggiane recomendando o engenheiro para Enzo Ferrari. Na época o comendatore estava construindo sua equipe.

A primeira passagem de Lampredi pela Ferrari durou apenas um ano, ele achou que não tinha espaço para crescimento trabalhando junto de ícones como Giuseppe Busso e Gioacchino Colombo. De lá ele foi para a Isotta Fraschini, onde projetou o motor V8 que foi usado no último carro da marca, o Tipo 8C Monterosa.

Em 1950, com a saída de Giuseppe Busso para a Alfa Roleo, Lampredi retornou para a Ferrari. O primeiro motor V12 da marca era compacto e foi projetado por Gioacchino Colombo.

O primeiro projeto de Lampredi na Ferrari foi criar um V12 maior para os carros de Fórmula 1, para suceder o 1.5 de Colombo. A primeira versão desse propulsor novo era um 3.3 com comando simples no cabeçote, mas ele chegou a ter versões de até 5 litros e com comando duplo.

A primeira vitória da Ferrari na Fórmula 1 foi com esse motor, no Grande Premio da Grã Bretanha em 1951. O argentino José Froilán González pilotou o modelo 375, com motor 4.5 de 350 cv, e começou a história de vitórias da scuderia.

Enzo Ferrari viu a oportunidade de entrar na Fórmula 2 pois o regulamento permitia que os carros dessa categoria também pudessem competir na Fórmula 1. Ele pediu para o engenheiro desenvolver um motor 2.0 de quatro cilindros em linha que poderia entrar nas duas competições.

Motor 4 cilindros ferrari lampredi testarossa wikimedia
O nome Testarossa veio desse cabeçote vermelho no 4 cilindros de um carro de turismo (Foto: Wikimedia)

O quatro cilindros de Lampredi era feito em alumínio, tinha comando duplo e era alimentado por dois carburadores Weber 45DOE. A ideia de Enzo Ferrari funcionou e o piloto Alberto Ascari venceu o campeonato de Fórmula 1 em 1952 e 1953.

Em 1956 esse motor foi parar em um carro do campeonato de turismo, o 500 TR, e teve o cabeçote pintado de vermelho. Foi assim que nasceu o apelido Testa Rossa para os motores da marca, que passaram a ter esse acabamento.

Aurelio Lampredi criou outros motores de quatro cilindros para a Ferrari, com deslocamento maior, e um seis cilindros em linha. Ele chegou a fazer um protótipo de dois cilindros, que não foi pra frente por não ser confiável.

Sua carreira na Ferrari terminou em 1955, quando ela comprou a divisão de corrida da Lancia. Junto disso veio o projetista Vittorio Jano, que desenvolveu novos motores V6 e V12.

Aurelio Lampredi criou os motores mais importantes da Fiat

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Todo motor da marca criado nos anos 60 e 70 saíram das pranchetas dele (Foto: Fiat | Divulgação)

Depois de tanto tempo cuidando apenas de motores de corrida, Lampredi foi para a Fiat ter uma tarefa ainda mais difícil: desenvolver motores para carros de passeio. Enquanto os veículos de competição precisam ter foco apenas no desempenho, um carro de rua tem que equilibrar isso com a durabilidade, consumo de combustível e ser fácil de usar.

Mas como estamos falando de carros italianos, o tempero esportivo estava sempre presente. A lista de projetos que Lampredi chefiou na Fiat foi grande, praticamente todos os motores da marca lançados nos anos 60 e 70 foram dele.

O mais icônico deles foi o motor quatro cilindros e comando duplo, que passou a ser conhecido como motor Lampredi. Ele estreou no 124 Sport Coupé em 1966 e foi tomando a função de ser o motor grande ou esportivo dentro da Fiat e da Lancia.

Apesar de ter começado como motor de rua, ele foi rapidamente adotado pela Abarth em carros de corrida. O 124 Abarth Rally e o 131 Abarth colecionaram vitórias nos campeonatos de rali.

Nos anos 80 ele foi base para o motor turbinado do Lancia Deltra Integrale, outro grande campeão de rali. O motor Lampredi chegou ao Brasil com o Tempra, mesmo sendo um projeto dos anos 60 ele não fazia feio dos rivais com motores duas décadas mais novos.

Aurelio Lampredi também foi o projetista do SOHC 128, motor conhecido aqui como Sevel. Era um quatro cilindros em linha compacto que ficava abaixo do motor de comando duplo.

Ele foi muito usado pela Fiat na Europa até 2005, na versão 1.6 16v. Na América do Sul ganhou uma sobrevida como o 1.9 do Linea, que foi criado usando uma receita argentina de preparação.

O coração da Fiat brasileira

Um dos últimos trabalhos como projetista de motores de Aurelio Lampredi foi o de criar um quatro cilindros em linha robusto e econômico para o Brasil. A Fiat estava preparando sua entrada no país durante os anos 70 e resolveu criar um produto dedicado.

O carro nós já conhecemos bem, o 147. Ele é derivado do 127, mas com reforços e melhorias para aguentar as condições do Brasil, como vedação reforçada e suspensão elevada.

O motor dele também foi feito com o Brasil em mente. Ele tinha taxa de compressão baixa para lidar com a gasolina de baixa octanagem da época, foi acertado para entregar torque em baixas rotações e o comprimento das bielas era longo, para permitir versões de maior deslocamento.

Seu nome é Fiasa, que é a sigla de Fiat Automóveis S.A. Ele foi feito apenas no Brasil e chegou a ser exportado para ser usado no 127, no Ritmo e no Autobianchi Y10.

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O último carro a usar o Fiasa foi o Mille Smart, em 2001 (Foto: Fiat | Divulgação)

O motor Fiasa foi o primeiro a álcool no mundo. Ele também teve uma versão a diesel apenas para exportações, o que é uma prova de sua robustez.

Esse motor projetado por Aurelio Lampredi fez história novamente em 1990 quando foi o primeiro carro popular 1.0 do Brasil. O Fiasa nasceu com 1.050 cm³, a mudança para virar 1 litro foi feita em poucos meses e consistia, basicamente, em reduzir o curso dos pistões.

O motor Fiasa foi usado pela Fiat do Brasil até 2001. Ele equipou o 147, o Uno, o Palio e seus respectivos derivados. E, como de costume, chegou a equipar carros de corrida como o Oggi CSS.

Lampredi aposentou como começou a carreira

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Lampredi ficou por conta da divisão Abarth até se aposentar (Foto: Abarth | Divulgação)

Quando a Fiat comprou a Abarth em 1971, preparadora especializada em carros da marca italiana, ela passou a gerência dessa divisão para Aurelio Lampredi. Em 1977 ele saiu do cargo de projetista e passou a ficar por conta da equipe de competição.

Sob sua gerência a Abarth passou a cuidar dos carros de corrida da Fiat e da Lancia. Nessa época ela era forte nas competições de rali, mas também participava dos campeonatos de turismo.

O Lancia Rally 037, último carro 4×2 a ganhar no Grupo B, foi um dos projetos dessa época. Ele usava o motor 2.0 Lampredi sobrealimentado com turbo e compressor mecânico.

Sua vitória no campeonato de 1983 foi quase como uma despedida para Aurelio Lampredi, que se aposentou no ano anterior. O engenheiro faleceu em sua cidade natal em 1989

O motor que leva seu nome saiu de linha em 2000, dando lugar ao Pratola Serra. O Fiasa foi aposentado em 2001, sendo sucedido pelo Fire. E o SOHC durou até 2010, quando deu lugar ao E.Torq. Mas o legado de Lampredi segue vivo na Fiat, com a atual linha de motores que tenta combinar esportividade com economia.

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