Lecar: pegar carona no sonho alheio não vale

Sonho de Flávio Assis em tirar a Lecar do papel é válido, mas não dá para pedir para alguém comprar o que ainda não existe

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Estande da Lecar dividiu as atenções com as demais marcas presentes no Salão do Automóvel de São Paulo (Fotos: Eduardo Rodrigues | AutoPapo)
Por Marcelo Jabulas
Publicado em 29/11/2025 às 15h00

A Lecar, marca do empresário capixaba Flávio Assis Figueiredo, teve seu grande momento no Salão do Automóvel de São Paulo. A apresentação da marca foi uma das mais aguardadas. Afinal, o autodenominado “Elon Musk brasileiro” tinha prometido um carro completo para o salão, que depois virou um painel funcional e no final se transformou num carro carnavalesco.

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Sem discurso ensaiado, teleprompter, Assis quis falar de peito aberto, daquilo que emanava do coração no momento. E ele falou. Contou sua história, seu sonho e seu projeto.

Com tropeços, improvisos e comparativos desnecessários (como a maior resistência do telhado em comparação à fábrica da Toyota), Assis mostrou o que quer fazer. Exibiu a maquete de sua fábrica e os carros que deseja construir. Deu seu recado.

Assim, a meta de Assis foi atingida: publicidade. A imprensa, influenciadores e visitantes visitaram seu estande com grama sintética, bandeira do Brasil, modelos com trajes colados e seus carros de compensado e gesso.

Salão do Automóvel Lecar campo frente (2)
Estrela do palco do Anhembi, Mockup da picape Campo ainda está longe de chegar ao produto final

E depois de tanto conteúdo orgânico, a Lecar já estava mais do que falada e vista. Mas algo chamou atenção, uma análise em defesa de Flávio e seu sonho. Uma análise  de 250 palavras (contando as preposições e artigos). É mais ou menos o volume deste texto até aqui.

Na defesa, o “analista” fala sobre a valentia do empresário, sobre sua iniciativa e da dificuldade de empreender no Brasil. Em suma, ele aproveitou o “hype” para fazer seu comercial e se vender como uma espécie de Lee Iacocca de rede social.

Todo empreendimento exige coragem

Mas voltemos à Lecar. De fato, empreender no Brasil é caríssimo e extremamente difícil. Tributação nas alturas, taxas, logística, insegurança, capital de giro, recursos humanos, sazonalidades e até efeitos climáticos entram na conta.

Mas não basta coragem é preciso ter algo para oferecer. Não dá para pedir apoio do consumidor, da imprensa e da opinião pública quando se vende um produto com prestações superiores a um salário mínimo e este item é algo que não existe e que não tem previsão de entrega. Isso vale para quem vende picolé, pirulito e carro.

Quem resolveu ser dono do próprio negócio, mesmo que seja uma operação menos complexa, sabe que conquistar o mercado não é fácil. Vamos dar um exemplo factível e que se tornou o meio de vida de muitos brasileiros: uma pequena cozinha que fornece quentinhas. Quem ganha a vida nesse ramo sabe o tamanho do desafio.

Equipar seu negócio com fogão industrial, geladeira e freezer, contratar um bom cozinheiro, se cadastrar numa plataforma de entregas, batalhar a compra de insumos com preços mais baixos, a compra do gás e mais um monte de outras demandas é um trabalho gigantesco. Isso sem contar a atenção com o ambiente de preparo, qualidade dos ingredientes, qualidade da embalagem. Tudo isso demanda um investimento inicial, que independente da quantidade de dinheiro, é sempre um grande investimento.

Esse empreendedor nem pode sonhar com a hipótese de a cozinheira se adoecer, da maionese azedar ou o entregador se acidentar, pois isso compromete todo seu negócio. Ou seja, preparar uma marmita demanda muito esforço, talento e até uma pitada de sorte.

Mas o vendedor de quentinhas não vende sua marmita no papel. O marmiteiro não pede para seus fregueses adiantarem o pagamento para que ele possa comprar o fogão, o gás e o arroz. Se não tiver a comida pronta para entregar, não tem Pix do cliente.

Não se faz uma fábrica da noite para o dia

E esse é o problema do Flávio Assis. Ele já vende um carro que não existe. Construir uma fábrica demora muito e custa uma montanha de dinheiro. Nesses mais de 20 anos de jornalismo, visitei inúmeras linhas de montagem e fui em lançamentos de pedras fundamentais de algumas. Entrevistei um exército de executivos e criei uma rede de relacionamento que me permite acesso a informações ao pé do ouvido.

Lecar fábrica no espírito santo google street view
Se tudo der certo, o terreno em Soorotema receberá a fábrica da Lecar (Foto: Reprodução | Google Street View)

E uma coisa é fato: não se monta uma fábrica da noite para o dia, nem mesmo a maquete dela. Em dezembro de 2013 fui até Araquari (SC) para o lançamento da pedra fundamental da planta da BMW. Dali para frente foram 10 meses e R$ 600 milhões (valores da época) para erguer a fábrica.

Em agosto de 2021, a GWM comprou as instalações da Mercedes-Benz em Iracemápolis (SP). Uma fábrica pronta, mas que precisava ser readequada para o maquinário da chinesa. Ela só entrou em funcionamento no fim do primeiro semestre deste ano.

A própria BYD, com a polêmica obra em Camaçari (BA), com flagrantes de trabalho análogo à escravidão e apresentações teatrais também levou um tempão para ficar pronta e consumiu uma cifra bilionária. Ou seja, dá um trabalho imenso para se fazer.

Dá pra fazer?

Mas Flávio não poderia fazer? Claro que pode, mas não do jeito que está fazendo. Reza a lenda que Henry Ford quando foi pedir dinheiro emprestado para montar sua fábrica, ofereceu devolver o valor com US$ 1 para cada carro vendido, pois confiava demais em seu projeto. E dizem também que, anos depois, os investidores ficaram muito satisfeitos. Mas eu escrevi investidores e não clientes.

Há uma diferença imensa entre um e outro. O primeiro coloca a grana para obter retorno, o segundo coloca o dinheiro para adquirir o bem. E até agora a Lecar não tem garantia de nenhum dos dois.

Não dá para fazer um Shark Tank com o dinheiro do consumidor, ele não tem o lastro do investidor. “Olha, tenho esse produto aqui, mas ele não existe. No entanto, se você comprar hoje, no futuro ele poderá se tornar realidade”. Não dá para ser  assim. Isso parece coisa de pirâmide financeira. Diante disso, o caro analista da indústria se perde em seu amplo argumento de 250 palavras (incluindo preposições e artigos).

Mas e se a maquete de Flávio Assis virar uma fábrica em escala real e a obra começar agora? Pode questionar o caro leitor(a). Bom, serão no mínimo 10 meses (se seguir o ritmo da BMW) ou quatro anos (se fizer como a GWM) para começar a operar.

A diferença é que BMW e GWM já tinham uma vasta gama de produtos, expertise, patentes e um robusto conhecimento industrial. A alemã faz carros há mais de um século e a chinesa está no mercado há 40 anos. A Lecar tem um arquivo de computador e seus mockups de gesso.

Depois de tudo pronto ainda seria necessário finalizar o carro, validar o protótipo, homologar, desenvolver a cadeia de fornecedores, galpão de peças e tudo mais que deve ser considerado num planejamento industrial.

Tomará que Assis consiga realizar seu sonho, que sua fábrica e seu carro saia do papel. Mas, por hora, não dá para endossar quem vende o que não existe, por mais que nosso bem-aventurado “analista” o deseje e confie na coragem do empresário. Que Assis consiga seus aportes com investidores, mas não com venda antecipada para o público geral.

E a dúvida que fica é: o analista vai botar seus dobrões e ajudar a construir o sonho do Flávio Assis, ou vai ficar no discurso motivador de balcão de botequim, se promovendo às custas do capixaba?

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