Lugar com mais carros elétricos do Brasil depende de termelétrica para recarregar a frota

Fernando de Noronha lidera ranking nacional de carros elétricos por habitante, mas usina solar que pode mudar a recarga só chega em 2027

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Fernando de Noronha é pioneira da eletrificação no Brasil, mas geração de energia limpa ainda não emplacou (Foto: Renault | Divulgação)
Por Eduardo Passos
Publicado em 18/10/2026 às 17h00

Fernando de Noronha não é exatamente um município (é um distrito de Pernambuco). Mesmo assim, tem mais carros elétricos do que qualquer outro município brasileiro, em relação a seus habitantes.

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O arquipélago, a 545 km do Recife, emplacou 78 carros 100% elétricos desde 2022. Com cerca de 3,4 mil moradores, isso é um carro elétrico a cada 43 pessoas. Na média nacional, a proporção é de um para cada 639 habitantes, quase 15 vezes menos.

Há uma justificativa ambiental, ligada à preservação de uma das joias naturais do Brasil. Mas só até a página dois: a frota de Noronha é recarregada principalmente com energia de uma termelétrica, que queima combustível.

São dados revelados por um levantamento do AutoPapo que cruza os emplacamentos de janeiro de 2022 a setembro de 2026, da ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico), com a estimativa de população do IBGE. O carro conta no endereço do dono; para empresas e órgãos públicos, vale a sede.

Posição Município Carros 100% elétricos por 100 mil habitantes Carros 100% elétricos emplacados Habitantes
1º Fernando de Noronha (PE) 2.319 78 3.364
2º Eusébio (CE) 1.070 895 83.641
3º Brasília (DF) 1.038 31.228 3.009.996
4º Lauro de Freitas (BA) 832 1.839 221.023
5º Santana de Parnaíba (SP) 768 1.268 165.193
6º São Jorge do Patrocínio (PR) 759 51 6.718
7º Balneário Camboriú (SC) 697 1.077 154.525
8º Curitiba (PR) 664 12.162 1.832.183
9º Pinhal (RS) 658 20 3.039
10º Cabedelo (PB) 649 463 71.364

Carro elétrico, energia de termelétrica

A usina Tubarão, com 10 MW de capacidade, é a principal fonte de eletricidade de Noronha. As duas usinas solares da ilha, Noronha I e Noronha II, inauguradas em 2017 e 2018, somam 950 kW e respondiam por cerca de 10% do consumo em 2024, segundo o portal Canal Solar.

Ou seja, a maior parte da recarga dos carros elétricos da ilha depende de combustível. A contradição foi lembrada por moradores no debate que levou a Assembleia Legislativa de Pernambuco a adiar a proibição dos carros a combustão.

Para o ano que vem, há promessa de uma nova usina, com mais de 30 mil painéis solares, 22 MW de capacidade e baterias de 49 MWh. Um investimento de R$ 350 milhões da Neoenergia.

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A termelétrica Tubarão gera a maior parte da energia que recarrega os carros elétricos de Noronha (Foto: Reprodução)

Só elétricos na ilha

Sancionada em janeiro de 2020 pelo então governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), a lei previa proibir a entrada de carros a gasolina, etanol ou diesel em Fernando de Noronha a partir de agosto de 2022 e tirá-los de circulação até 2030.

A justificativa é ambiental: o programa Noronha Carbono Zero quer zerar as emissões de carbono da ilha, que tem a maior parte do território dentro de um parque nacional marinho.

O alvo principal eram os bugues alugados a turistas. Como a entrada de veículos na ilha depende de autorização da administração local, que em geral exige a troca por um carro que já está lá, o governo passou a liberar licenças para moradores comprarem elétricos sem essa permuta. Também havia isenção de IPVA e ajuda com o frete de navio, de cerca de R$ 10 mil.

O prazo, porém, foi adiado três vezes e agora é agosto de 2029. Segundo a Assembleia Legislativa de Pernambuco, ainda faltam pontos de recarga e oferta de carros, e a economia local é frágil.

Em junho de 2019, antes da sanção da lei, a Renault cedeu em comodato (empréstimo gratuito) à administração da ilha três Zoe, dois Twizy e um Kangoo elétrico, além de quatro carregadores, para uso oficial e como apoio ao programa Noronha Carbono Zero. Como foram entregues antes de 2022, esses carros não entram no levantamento.

Condomínios e frota de prefeituras

O segundo colocado, Eusébio (CE), tem outro perfil: a cidade de 84 mil habitantes faz divisa com Fortaleza e tem a maior renda média do Ceará: R$ 4.607 por responsável de domicílio, segundo o Ipece, o instituto de pesquisa do governo do estado.

O padrão se repete em Lauro de Freitas, vizinha de Salvador, em Santana de Parnaíba, na Grande São Paulo, e em Cabedelo, ao lado de João Pessoa. Brasília, terceira colocada, combina renda alta com isenção de IPVA para carros elétricos.

Boa parte dessa renda está em condomínios de casas, onde é simples instalar um carregador na garagem.

Nos sete estados com maior renda domiciliar por pessoa, segundo o IBGE, foram emplacados 561 carros eletrificados (100% elétricos e híbridos) por 100 mil habitantes desde 2022. Nos sete de menor renda, todos do Norte e do Nordeste, foram 217, menos da metade.

Cidades pequenas que se destacam

Em São Jorge do Patrocínio, cidade de 6,7 mil habitantes às margens do rio Paraná, no noroeste paranaense, o motivo para o bom desempenho é a frota pública.

A cidade é sede do Coripa, consórcio de prefeituras criado para a conservação ambiental das margens do rio Paraná, perto do Parque Nacional de Ilha Grande. Ao que tudo indica, os carros estão registrados em nome dele.

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BYD Dolphin Mini doados pela Itaipu a prefeituras do Paraná põem São Jorge do Patrocínio no top-10 (Foto: Itaipu Binacional | Divulgação)

As duas levas emplacadas na cidade, 13 BYD Dolphin Mini em fevereiro de 2025 e 38 Geely EX2 em julho de 2026, coincidem em número e data com veículos elétricos que a Itaipu Binacional entregou ao consórcio.

Eles atendem secretarias como as de meio ambiente, agricultura, assistência social e saúde dos municípios associados, que quase não têm outros carros elétricos emplacados.

Segundo a Itaipu, as doações fazem parte do programa Itaipu Mais que Energia. A ideia é ajudar prefeituras pequenas, com pouco orçamento e acesso a crédito, e levar a muitas delas o primeiro carro elétrico da cidade.

A usina também justifica o investimento pelo fato de a conservação ambiental da região afetar o lago da hidrelétrica.

Já Pinhal, no norte gaúcho, perto de Palmeira das Missões, mostra o peso dos números pequenos. Com 3 mil moradores, a cidade entrou no top-10 com 20 carros 100% elétricos, oito deles emplacados em dois lotes de quatro unidades.

Ali, cada carro novo acrescenta 33 pontos ao índice por 100 mil habitantes.

Mais de mil cidades sem nenhum

Na outra ponta, 1.059 municípios do Brasil (19% do total) não emplacaram nenhum carro eletrificado no período, seja 100% elétrico, seja híbrido (exceto os híbridos leves). Sem nenhum 100% elétrico, são 2.133.

Entre os municípios com menos de 5 mil habitantes, 42% não têm nenhum eletrificado. Entre os 338 com mais de 100 mil, nenhum está nessa situação.

A região Norte concentra a maior proporção de cidades zeradas (34%), e o Pará tem o menor índice entre os estados: 51 carros 100% elétricos por 100 mil habitantes.

Caso curioso em Goiás

O maior município sem nenhum eletrificado emplacado desde 2022 é Santo Antônio do Descoberto (GO), com 76 mil habitantes. A cidade faz divisa com o Distrito Federal, terceiro colocado do ranking.

O caso não é isolado. As oito maiores cidades goianas do Entorno, região que cerca o Distrito Federal, somam 1,2 milhão de moradores e só 57 carros eletrificados emplacados desde 2022, menos de 5 por 100 mil habitantes. As demais cidades goianas com mais de 50 mil habitantes, sem contar Goiânia, têm 425.

Entre as cidades com mais de 100 mil habitantes, índices tão baixos quanto os do Entorno só aparecem em cidades do interior do Amazonas e do Pará, como Parintins (AM), acessível apenas por barco ou avião.

Uma explicação possível está no fato de o DF ser a única unidade da federação que isenta de IPVA todos os carros elétricos e híbridos, sem limite de valor.

Em Goiás, a Secretaria da Economia investiga desde 2024 cerca de 700 donos desses carros que moram no estado, mas registraram os veículos com endereços falsos no DF ou em outros estados. O prejuízo estimado é de R$ 10 milhões.

As investigações não informam em quais cidades goianas moram os suspeitos. Se parte dos carros elétricos que circulam no Entorno estiver emplacada no DF, o efeito é duplo: infla o índice de Brasília e zera o dos vizinhos.

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