Motor AP: você sabia desses 7 fatos sobre o icônico Volkswagen?

Com laços na Audi e visitas à Ford, sendo laboratório de preparadores, e estreando tecnologias no Brasil, o AP rendeu muita história em seus 27 anos

Por Bárbara Angelo 01/09/19 às 10h00

O motor AP é dono de um título controverso no Brasil, o de ser um dos motores mais venerados da história nacional. Enquanto alguns “APzeiros” acreditam em sua absoluta superioridade, outros questionam sua fama, e garantem que o AP não é lá tudo isso.

Nós não estamos aqui para resolver a disputa, enxergando nele tanto as qualidades quanto os momentos em que deixou a desejar. O que nos interessa são algumas curiosidades da história do projeto, que podem ter passado batido tanto aos seus amantes quanto aos seus algozes.

release da volkswagen motor ap setembro de 1985
Material de divulgação da Volkswagen

O motor AP teve uma longa vida. O propulsor surgiu de uma adaptação brasileira, com base em um projeto da Audi. Em setembro de 1985, já se tinha notícia de alguns dos primeiros modelos que ele equipou.

Eram o Gol, Voyage, Parati, Passat e Saveiro, modelo 1986, carregando o AP-600 1.6, movido a álcool, de 85 cavalos de potência.

Ao mesmo tempo, chegava às lojas o AP-800 1.8 no Santana, Quantum, Passat GTS Pointer e Voyage Super. Também a álcool, ele fornecia 94 cv de potência.

Também já estava à venda o Gol GT, com o motor mais forte AP-800 S, com potência declarada de 99 cv. Na realidade, ele tinha 106 cv, mas a Volkswagen “escondeu” essa diferença para evitar uma alíquota de imposto mais alta, aplicada a veículos com potência maior que 100 cv.

release da volkswagen motor ap setembro de 1985 ap 600 ap 800 ap 800s
Os 99 cv do Gol GT eram, na verdade, 106 cv

Depois disso, o motor AP ganhou a configuração 2.0, AP-2000, e os irmãos foram renomeados de AP-1800 e AP-1600. Durante sua história, ele ganhou diversas tecnologias, algumas estreantes no mercado brasileiro. Seguiu até 2012, quando apareceu, pela última vez, na Parati.

E nesse tempo, também rendeu muitos fatos curiosos, como nos contaram especialistas que estiveram em contato com o motor AP desde sua chegada, além da própria Volkswagen, que você confere abaixo.

1. O motor AP, na verdade, se chama EA827

volkswagen passat l 1974
O Volkswagen Passat estreou a família EA827 no Brasil, em 1974

Como lembra o piloto e jornalista especializado no setor automotivo, Bob Sharp, “AP” foi apenas um nome comercial para o motor da Volkswagen. A nomenclatura oficial da fabricante está embaraçada na pré-história do propulsor que foi utilizado por 27 anos.

O motor AP é uma versão melhorada do MD-270, e ambos têm o nome interno de EA827. “AP e MD são nomes comerciais, mas todos são EA827. Esse é o nome dele, o resto é marketing”, esclarece Sharp.

A família apareceu, pela primeira vez, na primeira geração do sedã europeu Audi 80 de 1972, marca que já pertencia ao Grupo Volkswagen de então.

Contudo, quando chegou ao Brasil, os engenheiros da Volkswagen local fizeram algumas alterações no projeto. Por aqui, a família EA827 fez sua estreia no Passat, em 1974, já com algumas diferenças, na forma do MD-270.

Ele chegou ao Voyage em 1981. Já em 1985, nasceu, de fato, o motor AP. Depois de muitos retoques brasileiros para extrair mais força, o projeto do EA827 já não se comportava como deveria.

Os motores vibravam muito e, por isso, a Volkswagen colocou bielas mais longas e pistões mais largos nele, e encurtou o curso do virabrequim. O projeto foi aprimorado e, entre outros, também era novo o comando de válvulas. As bielas passaram de 136 milímetros para 144 mm.

motor ap 1 6 saveiro titan 2007
Motor AP 1.6 que equipou a Saveiro Titan 2007

E essa foi a diferença fundamental que separou os AP dos MD-270. Em relação ao antecessor, a novidade foi reconhecida por funcionar de forma mais suave. A distinção, inclusive, virou apelido: “bielão” e “bielinha”. Além, claro, de “AP”, sigla para Alta Performance.

Contudo, ambos permaneceram, internamente, como EA827. Na Europa, os motores da família rendem sucessores até hoje, embora modernizados, e não se pode dizer que são o brasileiro AP.

O projeto também teve diversas versões a diesel no Velho Continente, em modelos da Volkswagen e da Audi, entre outras marcas do grupo alemão.

2. Motor AP com mais de mil cavalos?

cinco geracoes do volkswagen gol 2012
Várias gerações do motor AP são usadas por preparadores, como dos Gol G1, G2 e G3

Não demorou para o novo propulsor da Volkswagen ficar conhecido entre os preparadores. Até hoje ele é a opção mais popular para uma turbinação “caseira”, como conta Eduardo Bernasconi, dono da publicação especializada Fullpower.

A preferência é explicada por Bernasconi com base no mercado. É muito fácil encontrar peças para o motor AP, elas têm custo acessível, e há diversas opções de componentes disponíveis.

“Tem um monte de pistão com um tanto de medidas, bielas nacionais e importadas, depende da receita de cada preparador”, detalha ele.

Assim, os envolvidos com preparação de carros já conseguiram extrair do motor AP potências surpreendentes. De acordo com Bernasconi, elas já chegaram a mais de mil cavalos.

Se considerarmos que a potência média da família AP ao longo de sua vida é de cerca de 100 cv, é uma multiplicação de 10 vezes. Além disso, nessa brincadeira, são usados tanto os motores antigos quanto os mais novos, conta ele.

volkswagen gol g3 linha de montagem menor
Gol G3 na linha de montagem

Naturalmente, esses motores recebem inúmeras modificações para chegar a esses níveis de potência. Segundo o profissional, mal se usa o bloco do propulsor original, junto a pistões e bielas especiais, cabeçotes de 20 válvulas, e diâmetros e cursos diferentes.

Até mesmo o combustível é especial, conta ele, diferente da gasolina ou álcool encontrados nos postos.

Contudo, a “mexeção” tem consequência. “Não existe durabilidade. Depois de preparado, o motor pode quebrar na primeira largada, em menos de 500 metros”, pontua Bernasconi.

3. O motor AP também apareceu em modelos Ford

volkswagen pampa 1 8 s 1994
A Pampa foi um dos modelos da Ford equipados com o motor AP na fase da Autolatina (Ford | Divulgação)

Em 1987, durante um período de crise econômica no Brasil, a Volkswagen e a Ford iniciaram uma grande parceria, a Autolatina, que durou até 1996. A colaboração, do tipo joint venture, incluía o compartilhamento de motores entre as duas, gerando modelos “gêmeos”.

Assim, o motor AP passou a equipar, também, veículos da Ford. Entre os primeiros a o receber, estavam Escort, Del Rey, Belina e Pampa, a partir de 1989. O AP-1800 de então oferecia 87 cv de potência e 14,3 kgfm de torque.

Naquele ano, também chegou às lojas o Escort XR3 com o motor alemão, dessa vez o AP 1800 S, versão esportiva que já aparecera no Gol GTS.

Além dos carros da Ford, o motor AP também equipou outros modelos nacionais. Um deles era o Gurgel Carajás, do qual algumas versões contavam com um AP-1800 de 97 cv, derivado do Santana.

Ele também chegou a ser equipado com uma configuração a diesel do propulsor, derivado de uma versão da Kombi, um 1.6 de 50 cv. O off-road foi vendido de 1984 até 1994, quando a marca brasileira foi à falência.

4. Tinha um problema de ressonância sonora na versão 2.0

volkswagen voyage 1991 a 1996

Douglas Mendonça, jornalista especializado no setor automotivo que também tem experiência nas pistas, lembra que nem tudo no motor AP era perfeito. Ele reconta uma ocasião que viveu quando correu a Mil Milhas de 1994, no circuito de Interlagos, em São Paulo.

Conduzindo um Voyage preparado para corridas, com um motor AP 2.0, sua equipe procurou os engenheiros da Volkswagen para saber mais sobre o motor e como melhor ajustá-lo para a competição de longa distância. Nisso, descobriram que ele tinha uma falha.

“Eles disseram que o motor não podia ficar constantemente no regime de rotações em torno de 5 mil rpm, porque corria o risco de ter quebra ou fratura de biela, ou trinca de pistão”, relembra Mendonça.

Para piorar, o jornalista e piloto observa que era justamente essa a rotação alcançada em partes do circuito, como finais de reta e nos box. Por isso, os engenheiros fizeram algumas recomendações. “Mexam na relação de transmissão para que isso não aconteça, ou quem estiver pilotando vai ter que evitar manter o motor nesse limite por muito tempo”, reconta ele.

Apesar disso, Mendonça se coloca como um apreciador do motor AP, que julga ser versátil, durável, resistente e de fácil manutenção.

5. Foi o primeiro motor flex do Brasil

Já dono da fama que mantém até hoje, o motor AP se tornou o primeiro propulsor flex do país, podendo ser abastecido com gasolina, álcool, ou qualquer mistura dos dois.

Isso aconteceu com o Gol 1.6 Total Flex, lançado em março de 2003. Com o AP-1600 bicombustível, entregava 99 cv com gasolina e 101 com álcool.

Mais tarde, chegaria ao mercado a versão 1.8, com 103 cv de potência se abastecido com gasolina, e 106 cv com etanol.

6. Teve a primeira injeção eletrônica do país

volkswagen gol gti 1988 a 1991

Além de ter sido o estreante da tecnologia flex, o motor AP também foi o primeiro a receber injeção eletrônica de combustível no Brasil. Ela chegou no Gol GTI, apresentado no Salão do Automóvel de São Paulo de 1988 como modelo 1989.

Movido apenas a gasolina e inicialmente limitado a 2 mil unidades, o GTI se tornou uma febre. O motor 2.0 entregava 120 cv de potência.

Futuramente, o motor AP-2000 com injeção eletrônica também apareceu em outros carros da Volkswagen, como o Santana Executivo, de 1990.

7. Até hoje, os motores da Audi têm o AP como base

audi tt 2015
Audi TT de 2015 ainda carrega heranças do motor AP (Audi | Divulgação)

Calma, não estamos dizendo que a Audi usa o motor AP até hoje, apenas que há semelhanças de projeto significativas entre o que o EA827 se tornou no Brasil e os propulsores dos modelos alemães, como lembra o jornalista especializado no setor automotivo, Paulo Eduardo.

“A semelhança está no diâmetro do cilindro e curso do pistão”, explica ele. Podemos lembrar que o EA827 fez sua estreia no Audi 80, e que ele continua rendendo herdeiros no Grupo Volkswagen.

Por isso, alguns motores Audi atuais têm essas medidas idênticas, mesmo que já estejam muito à frente do motor AP do passado. Se você não acredita, aí vai um exemplo.

O Gol GLS 2.0 Mi de 1998 com motor AP-2000 tinha curso dos pistões de 92,8 mm, e diâmetro dos cilindros de 82,5 mm. E o Audi TT 2.0 TFSI de 2015 tem exatamente as mesmas medidas.

Fotos, a não ser quando indicado: Volkswagen | Divulgação

Avalie o conteúdo:
PéssimoRuimRegularBomExcelente (9 votos, média: 5,00 de 5)
loadingLoading...
Clique na estrela para avaliar.
22 Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se identificar algo que viole os termos de uso, denuncie.
  • Avatar
    Anderson Mühlenbruch 26 de outubro de 2019

    O Brasil hoje está passando por dificuldades, porque a VW não relança carros populares com motor AP 1.6 e 1.8 que são robustos e baratos ao invés dessas merdas que eles tem hoje e diga-se de passagem umas merdas caras. Iria vender carro igual a pão francês. Ultrapassaria a GM.

  • Avatar
    Fernando 5 de setembro de 2019

    Muito estranho este caso do motor AP-2000 poder quebrar por ressonância a 5000 rpm. Nunca ouvi ninguém dizer que este motor é crônico quebrar quando exigido no seu limite e nem muito menos se andando a 5000 rpm. Além do que o Gol GTI 2000 era uns dos carros mais rápidos da época e tem a fama até hoje de ser um bom carro.
    Assim credito que este problema de ressonância se deu nas primeiras unidades deste motor 2.0AP e foi corrigido o problema com alguma melhoria no motor.

  • Avatar
    Rodrigo Medeiros de Souza 4 de setembro de 2019

    Tive muitos carros Ap ,mais uma Parati 86 1.6 álcool com carburador 2Z e comando do Gts meus amigos que emoção escutar o escapamento quatro em um

  • Avatar
    Paulo Roberto 3 de setembro de 2019

    Digiri carros com esse motor durante uns 15 anos. Dando cacete a vontade. Nunca consegui derreter esses motores APs. Muitos bons.

  • Avatar
    Anderson 3 de setembro de 2019

    Já escutei maluco falando que o do Chevette e Opala é melhor 🤔😂😂😂😂

  • Avatar
    Gustavo Meyer de Moraes 3 de setembro de 2019

    Faltou falar da origem do projeto do motor, que foi feito pela Mercedes quando comprou a DKW, procurando uma alternativa popular para os 2T.

  • Avatar
    Paulo 2 de setembro de 2019

    Eu quero saber como aqueles motores de 90 cavalos andava tanto. Hoje em dia um motor de 120, 140 cavalos não anda nada, como o kicks, por exemplo.

    • Avatar
      Pablo Lopes 2 de setembro de 2019

      O kiks tem apenas 114cv. Torque na casa de 15kgfm, além de ser multivalvulas, que só entrega esse torque em rotações elevadas ( casa dos 4500 rpm pra cima ). Sem comparar com um Gol 1.6 8v que tem apenas 104, porem, os mesmos 15kgfm de torque entregues a 2500 rpm. Além do peso do pseudo SUV. Resultado: o Gol pula na frente e o kicks ultrapassaria na velocidade final, caso estejam numa reta longa.

  • Avatar
    Amparo 2 de setembro de 2019

    O AP em relação ao MD recebeu novo cabecote com válvulas de maior diametro e entrada do arrefecimento entre 3 e 4 cilindros. Nos MD era entre 1 e 2.

    • Avatar
      Adilton 2 de setembro de 2019

      Eu parei de ler a matéria aí, nesse ponto…. o bloco é outro, o cabeçote idem, o eixo, bielas , etc e o cara diz que é o mesno motor? Nenhuma fábrica altera tanta coisa e mantém o nome… 🤔🤔🤔🤦🏻‍♂️

  • Avatar
    Marco 2 de setembro de 2019

    Foi uma febre porque antigamente tinha motores ruins no Brasil: o do corcel, o refrigerado a ar do Fusca, e aí apareceu o AP no Passat para ganhar longe deles, por isso a fama que foi longe (uma mudanca e tanto para a época).

  • Avatar
    Mr. Gasosa 2 de setembro de 2019

    Se o motor MD vibrava muito, então o que dizer da vibração dos novos motores 3 cilindros 1.0? Existe uma rotação perigosa pra eles como foi o caso do AP-2000 aos 5.000 rpm?

  • Avatar
    Mr. Gasosa 2 de setembro de 2019

    Eu tenho um Gol 1990 – 1.8AP a gasolina. Ele está com 241.000 km a compressão do motor está equalizada em exatos 160 psi em cada cilindro, sendo que o mínimo é 147 psi e o máximo são 176 psi. A única coisa que fiz foi retífica de cabeçote aos 160.000 km e troca de bronzinas aos 190.000 km. Assim este motor é muito durável mesmo.

    • Avatar
      Pablo Lopes 2 de setembro de 2019

      Tenho Gol Power 1.6 ano 2003. Está com 180.000km e nunca abri nem a capa de tuchos. E não ando devagarinho com ele.

      • Avatar
        Mr. Gasosa 3 de setembro de 2019

        Eu fiz o cabeçote porque infelizmente ele empenou em um superaquecimento devido ao mecânico ter esquecido de religar a tomada da ventuinha após trocar o coxim do motor. Eu ando dentro dos limites de velocidade, pois multa e pontos na carteira eu quero é distância.

  • Avatar
    Felipe 2 de setembro de 2019

    Como disse o colega ali embaixo, faltou falar da origem mercedes…
    E ja que falou de comparacao de curso e diametro, os hondas 1.6 vti 1994 com seus 160cv tem as medidas do ap 1.6, 81mm de diametro e 77,4mm de curso…

  • Avatar
    Fábio 2 de setembro de 2019

    Os motores audi e VW não são os mesmo?!

    • Avatar
      Delmar 2 de setembro de 2019

      Não exatamente os mesmos, como são da mesma divisão, ou do mesmo grupo, compartilham projetos, assim como hoje a jeep e Fiat também fazem.q

    • Avatar
      Delmar 2 de setembro de 2019

      Não exatamente os mesmos, como são da mesma divisão, ou do mesmo grupo, compartilham projetos, assim como hoje a jeep e Fiat também fazem.

    • Avatar
      Luiz 15 de novembro de 2019

      A VW é dona de várias marcas, entre elas Audi, Bugatti, Porsche, Lamborghini, Ducati… Nestes casos é até comum encontrar projetos semelhantes ou tecnologias de um no outro… Tendo em vista que estão todos no mesmo barco…

  • Avatar
    Juarez 1 de setembro de 2019

    Só faltou citar a origem Mercedes.

  • Avatar
    David leandro dos santos 1 de setembro de 2019

    Muito bom mesmo o motor AP

Avatar
Deixe um comentário