O Fiat 147 roubado e devolvido. Foi isso?

Por Douglas Mendonça07/05/18 às 20h30

Esse “causo” ocorreu lá pelo ano de 1984. Os protagonistas são um belíssimo Fiat 147 L, fabricado em 1977, na cor bege, e meu grande amigo, praticamente irmão, Alvino Pereira Júnior, que, entre outras coisas, é um piloto de mão cheia, que venceu comigo as famosas provas Mil Milhas Brasileiras de 1983 e os 1000 Km de Brasília em 2004. Além disso, venceu em outras equipes as 1000 Milhas em 1989 e o vice-campeonato Paulista de marcas em 1991… O Alvino, sempre ligado nas, corridas mais do que eu, disputava em 1984 o campeonato brasileiro de marcas de pilotos e o campeonato paulista de marcas. O cara era fominha quando o assunto era corrida de automóvel.

Nessa época, o nosso vibrante piloto estava preocupado com os tempos que seu carro de corridas fazia nas pistas e não dava a mínima para o seu carro de rua. Para uso diário, utilizava um modesto 147 L que acabava dividindo com o seu pai, que o adorava. O carrinho, comprado em 1978, servia a família, fazia viagens, gastava pouco e praticamente não apresentava problemas mecânicos. Um 147 “pau para toda obra”, como costumava dizer o Sr Alvino, pai do promissor piloto.

Em 1984, um Fiat 147 foi supostamente roubado do estacionamento do autódromo de Interlagos. Porém, no fim das contas, tudo não passou de um grande mal-entendido

Em uma das provas do campeonato paulista de marcas, depois do treino classificatório, Alvino Jr. tirava seu macacão, se preparando para ir embora. Nisso, um amigo próximo veio correndo e avisou: “Acabei de ver um cara saindo do estacionamento do Autódromo com seu 147. Acho que estão roubando seu carro!” Foi um furdúncio nos boxes. Correram, pegaram um Fusca da equipe e tentaram seguir atrás do Fiat roubado. O Fusca estava sem combustível e parou alguns metros depois.

Depois de muita movimentação e da constatação de que o 147 havia mesmo sumido, resolveram ir ao distrito policial mais próximo para dar queixa do furto. Alvino Jr, muito triste, pois haviam levado o xodó da família, foi prestar a tal queixa. Lá chegando, fez o relato do ocorrido ao escrivão, que foi logo dizendo: “Estranho roubarem um carro de dentro dos boxes de Interlagos, eu nunca vi isso!” Mas Alvino insistiu, e foram então oficializar o boletim de ocorrência. Depois de todas aquelas informações que são comuns ao B.O., foram pormenorizar os detalhes.

Quando nosso amigo disse ao escrivão que o carro era um 147 L 1977, o tal escrivão se rebelou deu um sonoro tapa na mesa e foi logo dizendo: “Estou há 6 anos nesse distrito e nunca fiz um B.O. de furto de um carro de dentro do estacionamento dos boxes de Interlagos, e muito menos de um 147. Ninguém rouba esse carro, muito menos de dentro de Interlagos. Esse carro não foi roubado e deve haver um grande engano em toda essa história. Disso eu tenho a certeza!”

Nosso amigo piloto insistiu para que o B.O. fosse feito e, meio a contragosto, o escrivão terminou seu trabalho. Alvino retornou para Interlagos e, quando chegava, presenciou outro furdúncio. Realmente, o misterioso 147 havia retornado e estacionado no boxe de outra equipe. O piloto Marcos Paioli, que dividia a direção do Voyage de corrida com o Alvino nas provas de longa duração, desferiu um soco certeiro bem no meio da cara do pseudo-ladrão assim que ele  descia do Fiat. Sem perguntar, Paioli iniciou uma sessão de socos no sem-vergonha, que além de roubar, retornou ao local do crime. Depois da turna do “deixa disso” encerrar a briga, teve início a sessão de explicações e esclarecimentos. O pseudo-ladrão não era ladrão coisa nenhuma.

O piloto da equipe para qual esse mecânico trabalhava, por coincidência, tinha um Fiat 147 idêntico ao do nosso piloto Alvino Jr. Ele pediu a seu mecânico para sair do autódromo e fazer uma tarefa qualquer, deu as chaves do seu carro, disse a cor e onde ele estava estacionado. O pobre mecânico achou o carro do Alvino Jr. e pensou que fosse o do seu piloto. Pois bem, a chave abriu a porta e a outra ligou o contato, outra terrível coincidência. O pobre mecânico tinha a certeza que estava saindo com o carro certo. Depois de tudo esclarecido e dos pedidos de desculpas de ambas as partes, restava ao nosso heroico piloto voltar ao distrito policial para desfazer o mal-entendido.

Chegando ao distrito policial, Alvino procurou o tal escrivão para cancelar aquele B.O. feito pouco tempo antes. O escrivão, dessa vez, calmamente ouviu todo o relato do nosso amigo, esclarecendo tudo o que havia acontecido, e foi logo dizendo: “Eu tinha a mais absoluta certeza de que toda essa historia não passava de um grande engano. Roubar um 147 dentro do estacionamento dos boxes de Interlagos é algo que nunca vi em 6 anos de trabalho. Não ia ser hoje que esse fato inusitado iria acontecer”.

E não é que a experiencia do tal escrivão estava com toda razão? Já nesse tempo, quase que nenhum ladrão se interessava por um 147. E muito menos iria procurá-lo atrás dos boxes de Interlagos onde, podem ter a maior certeza, há carros muito mais interessantes para serem roubados.

Só para você saber, o Sr Alvino pai e o nosso amigo piloto Alvino Jr. teceram largos e longos elogios aos quase 15 anos que o 147 L serviu à família, nunca deixando ninguém na rua, gastando pouco combustível e com uma manutenção rápida e barata. Cumprindo, assim, sua função de carro familiar.

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3 Comentários

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  • Valéria 31 de maio de 2018

    Amei a história! Tive a sorte de ter um 147 ano 1978 azul claro, frente “alta” por mais de 8 anos. Era super econômico e tinha ótimo desempenho! Além de ser muito mais confortável para dirigir do que qualquer outro carro da Volkswagen. Nunca tive nenhum problema, só a manutenção de praxe. Até o pneu furava em frente à borracharia! Bastava ir a padaria pra receber boas ofertas para vendê-lo, sem estar a venda!
    Sem dúvidas um excelente carro na época, o qual tive muita sorte em ter um!

  • Antonio Carlos MACHADO 8 de maio de 2018

    Ja ouvi essa história dezenas de vezes e sempre dou muitas gargalhadas. Adorei ve-la escrita, agora será preservada em todos seus detalhes e personagens muito próximos. Obrigado Dodô.

  • Míriam Bueno da Cunha 8 de maio de 2018

    Como sempre muito boa a matéria! Rindo até agora

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