A China está fabricando carros elétricos em excesso e irá ‘desová-los’ no resto do mundo
Demanda interna mais fraca e corte de incentivos empurram as fabricantes para fora; exportações devem chegar a 10 milhões de unidades no ano
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 07/07/2026 às 19h00
A desaceleração do mercado de eletrificados na China tem levado as montadoras do país a acelerar a ofensiva no exterior. Ainda o maior mercado mundial de carros elétricos, a China vê as vendas patinarem abaixo do pico do ano passado, pressionadas pela redução dos incentivos do governo e por uma demanda interna mais fraca.
O movimento tem tamanho: as marcas chinesas devem encerrar 2026 com cerca de 10 milhões de veículos exportados, um salto de 41% ante 2025, quando embarcaram 7,1 milhões de unidades, segundo projeção da consultoria AlixPartners. As vendas ao exterior se tornaram a principal alavanca de escala diante do freio no consumo doméstico, e ajudaram o país a manter a liderança global de exportações conquistada no ano passado, quando ultrapassou o Japão. A Chery puxa a fila entre as locais, com 1,34 milhão de unidades embarcadas em 2025.
No mercado interno, os números seguem em queda. Dados da Associação Chinesa de Veículos de Passageiros mostram que 1,04 milhão de elétricos a bateria e híbridos plug-in foram emplacados em junho, recuo de 7% na comparação com o mesmo mês de 2025. No acumulado do primeiro semestre, as vendas somaram 4,73 milhões de unidades, uma retração de 13% na base anual.
Vários fatores explicam o desempenho. A economia chinesa ainda se recupera em ritmo lento, parte dos consumidores adia a compra à espera de novos cortes de preços e o apoio estatal aos chamados veículos de nova energia (NEVs) vem minguando a cada ano.
Neste ano, Pequim passou a retirar gradualmente a isenção do imposto sobre vendas concedida às fabricantes. Além disso, confirmou que os benefícios fiscais anuais para elétricos a bateria, híbridos plug-in, modelos com extensor de autonomia e veículos comerciais movidos a célula de combustível serão reduzidos a partir de 1º de janeiro de 2027. O abatimento, porém, é modesto: hoje varia de 360 a 660 yuans (US$ 53 a US$ 97) por ano.
Com margens cada vez mais estreitas, a rentabilidade segue restrita a poucos. Atualmente, apenas três montadoras chinesas operam com lucro no segmento de elétricos. Segundo a AlixPartners, no máximo outras quatro devem alcançar o ponto de equilíbrio até 2030, enquanto fabricantes menores tendem a ser adquiridas por rivais maiores ou a deixar o mercado.
A aposta externa, contudo, não é isenta de riscos. Tarifas mais altas na Europa e na América do Norte encarecem os carros chineses, comprimem as margens e dificultam o planejamento de longo prazo — justamente quando as marcas mais dependem das vendas fora de casa.
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