A ovelha que já valeu pena de morte agora forra o banco do novo Bentley elétrico
Marca britânica abandona o couro vegano no Torcal, seu primeiro SUV elétrico, e adota fibra até quatro vezes mais fina que um cabelo
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 19/08/2026 às 19h00
A Bentley começou a revelar o interior do Torcal, seu primeiro SUV totalmente elétrico, antes da estreia oficial marcada para 23 de setembro, em Londres. Em vez do “couro vegano” e das superfícies plásticas que viraram padrão nos elétricos vendidos no Brasil, a marca britânica oferecerá uma opção de acabamento com lã 100% Merino nos bancos e painéis, ao lado de um folheado de madeira feito com sobras de nogueira prensadas com papel reciclado.
O tecido foi desenvolvido em parceria com a Fox Brothers, tradicional tecelagem britânica, para suportar o atrito e o uso diário de um automóvel, limitação histórica que mantinha as fibras naturais longe dos bancos. Segundo a Bentley, é o primeiro tecido automotivo de lã pura a receber a certificação Responsible Wool Standard, que audita bem-estar animal e rastreabilidade na cadeia produtiva.






A ovelha que já foi tesouro de Estado
A escolha não é só discurso sustentável. A lã Merino tem fibras de 15 a 24 mícrons de diâmetro, contra 50 a 100 mícrons de um fio de cabelo humano. É essa finura que elimina a coceira típica da lã comum. As fibras também são naturalmente onduladas, o que aprisiona ar e explica a termorregulação: o banco não ferve ao sol nem gela nas primeiras horas da manhã. A lã ainda absorve até 30% do próprio peso em umidade antes de parecer molhada e resiste a odores.
A raça nasceu na Espanha no século 13 e foi tratada como ativo estratégico: durante séculos, tirar um animal vivo do país era crime punível com a morte. Só a partir do século 18 os rebanhos chegaram à Austrália, à Nova Zelândia e à América do Sul, hoje os grandes polos produtores. No Brasil, a criação se concentra no Rio Grande do Sul, onde o Merino Australiano é uma das raças tradicionais da Campanha.
A tosquia anual não é capricho: a lã não para de crescer. O caso mais famoso é o de Shrek, um Merino neozelandês que passou seis anos escondido em cavernas para escapar dos tosquiadores. Capturado em 2004, carregava 27 kg de velo, cerca de seis vezes a média da raça e material suficiente para 20 ternos masculinos. A tosquia foi transmitida ao vivo pela TV.
Madeira de sobra e alumínio girado
O acabamento Ombre Veneer nasce de sobras de nogueira e papel reciclado comprimidos em até 1.000 camadas, depois fatiadas em lâminas de menos de 1 milímetro. As peças são dispostas para que a cor migre do quase preto ao tom natural da madeira ao longo do painel e das portas. Completa o conjunto o alumínio Mulliner Sunburst, escovado em três direções, que resgata a estética dos painéis engine-turned de modelos clássicos.
Quarta linha de produtos da Bentley, ao lado de Continental GT, Flying Spur e Bentayga, o Torcal será montado à mão em Crewe, na Inglaterra, com produção prevista para 2027. A marca confirma dois motores elétricos, tração integral e autonomia acima de 480 km, mas ainda não divulgou potência, capacidade de bateria ou preço.
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