Após críticas ao design da Luce, Ferrari demite executivo que mandava na marca havia 16 anos

Comparado a um iPhone sobre rodas, a Luce dividiu o mundo automotivo e custou o posto ao influente chefe comercial da Ferrari

ferrari luce azul frente parada
Primeiro elétrico da Ferrari recebeu críticas de especialistas, ex-dirigentes e autoridades italianas (Fotos: Ferrari | Divulgação)
Por Júlia Haddad
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 25/06/2026 às 11h00

A Ferrari trocou o comando de seu marketing em meio à repercussão negativa da Luce, seu primeiro carro totalmente elétrico. A empresa anunciou a saída de Enrico Galliera, diretor de marketing e comercial que ocupava o cargo havia 16 anos, semanas depois de o modelo ser recebido com duras críticas — inclusive de ex-executivos e de autoridades italianas.

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Conhecido pelo apelido de “Dr. No”, Galliera era uma das figuras mais influentes da fabricante: decidia pessoalmente quem podia comprar os modelos mais raros e exclusivos e chegou a barrar celebridades como Justin Bieber e Kim Kardashian por descumprirem os padrões da marca. Para substituí-lo, a Ferrari escolheu Massimiliano Di Silvestre, que assume em 1º de julho e passará a se reportar ao presidente-executivo, Benedetto Vigna. Com mais de duas décadas no setor premium, ele comandava as operações italianas do BMW Group.

Coincidência?

ferrari luce (9)

A crise começou com a apresentação da Luce, revelado em maio em Roma. Embora a eletrificação da marca já fosse esperada desde 2021, foi o design do modelo que provocou a maior repercussão. Avaliado em cerca de R$ 3,25 milhões (550 mil euros), a primeiro Ferrari de quatro portas e cinco lugares dividiu opiniões entre especialistas, entusiastas e executivos do setor, e colecionou comparações nas redes sociais — de “iPhone sobre rodas” a “Ferrari Multipla”, em referência ao Fiat considerado um dos carros mais feios já feitos.

As críticas alcançaram nomes de peso. O ex-presidente da Ferrari Luca di Montezemolo disse que a marca corria o risco de “destruir uma lenda” e chegou a sugerir a remoção do emblema do carro. O vice-primeiro-ministro e ministro dos Transportes da Itália, Matteo Salvini, também ironizou o projeto, perguntando nas redes o que Enzo Ferrari diria diante daquilo.

O Luce foi desenhado em parceria com o ex-chefe de design da Apple, Jony Ive, e o designer Marc Newson — ambos do estúdio LoveFrom —, ao lado do diretor de design da Ferrari, Flavio Manzoni. A proposta era inaugurar uma nova era para a fabricante sem abandonar de vez sua herança visual, preservada em detalhes como as lanternas inspiradas no 360 Modena e no 458 Italia.

A busca por um “culpado” após um lançamento polêmico não é inédita no setor. Movimento parecido ocorreu na Jaguar, cujo chefe de design deixou a empresa após a reação ao conceito elétrico Type 00, e na Volkswagen, durante o Dieselgate, quando o executivo Michael Horn deixou o cargo apesar de não ter participado da fraude criada na Alemanha.

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