Carro ‘dedo-duro’: GM paga R$ 1,2 bilhão por contar às seguradoras como os clientes dirigiam
Programa Smart Driver dava nota a frenagens e acelerações; dados eram revendidos a seguradoras, e parte dos clientes passou a pagar mais caro
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 30/10/2026 às 19h00
A General Motors vai pagar caro por ter transformado o carro de parte dos clientes em um “dedo-duro” para as seguradoras.
A montadora fechou acordo de US$ 220 milhões (cerca de R$ 1,2 bilhão) com 35 estados americanos e o Distrito de Colúmbia, anunciado nesta quinta-feira (29), para encerrar acusações de que vendeu dados de direção e de localização de motoristas sem autorização. A GM não admitiu culpa.
O valor é 11 vezes o que a empresa teria faturado com a venda dos dados, segundo cálculo da Procuradoria-Geral da Califórnia.
Nota de motorista virava preço de seguro
O caso nasceu do Smart Driver, função gratuita do OnStar (central de serviços conectados da GM) que prometia ajudar o cliente a dirigir melhor e até a conseguir desconto no seguro. O sistema dava nota ao motorista com base em frenagens bruscas, acelerações fortes e trechos acima de 129 km/h.
Esses registros, porém, iam parar na LexisNexis e na Verisk, empresas que montam relatórios sobre consumidores — uma espécie de Serasa do volante. Elas revendiam as informações a seguradoras, e parte dos clientes viu o seguro encarecer sem saber que era monitorada.
Segundo os procuradores, muitos foram inscritos no programa pelos vendedores das concessionárias, que ganhavam bônus por adesão. O aplicativo do OnStar chegou a informar, por erro, a mais de 370 mil motoristas que eles não participavam do Smart Driver, enquanto a coleta continuava.
A GM encerrou o programa em 2024. Pelo acordo, terá de obter autorização expressa antes de coletar ou compartilhar esses dados, passar por auditorias externas e rever o treinamento nas concessionárias, para que nenhum cliente seja pressionado a aderir.
A montadora afirma que o acordo trata de um produto já encerrado e reforça medidas que vinha adotando para proteger a privacidade dos clientes.
E no Brasil?
O OnStar também equipa os Chevrolet vendidos no Brasil desde 2015, mas o processo envolve apenas clientes americanos.
Por aqui, esse tipo de coleta precisa seguir a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que exige consentimento claro para compartilhar dados pessoais. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) pode multar em até 2% do faturamento da empresa no país, com teto de R$ 50 milhões por infração — o acordo da GM equivale a mais de 20 vezes esse limite.
A GM não é a única na mira. Nos EUA, o dono de um Toyota RAV4 processou a marca ao descobrir, numa cotação de seguro, que a seguradora já tinha o histórico de como ele dirigia. A Toyota diz que ele aceitou os termos dos serviços conectados, e a Justiça mandou o caso para arbitragem, espécie de julgamento privado.
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Enquanto isso meio-mundo tava acusando a China…
