Novos pneus de carros elétricos apostam menos na seringueira e mais nas terras-raras
Com catalisadores de neodímio, a borracha resiste mais ao desgaste e a rasgos; China quer depender menos da seringueira
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 10/08/2026 às 08h00
A China concluiu os testes de uma fábrica de borracha sintética produzida com catalisadores de terras-raras, material considerado estratégico para pneus de carros elétricos e de caminhões, relatou O Globo. Construída pela Dushanzi Petrochemical, subsidiária da PetroChina, com apoio do Instituto de Química Aplicada de Changchun, a unidade entrou em operação em 16 de julho e terá capacidade para 100 mil toneladas por ano.
A tecnologia usa catalisadores à base de neodímio, uma terra-rara cuja produção é amplamente dominada pelos chineses. O país responde por cerca de 70% da extração mundial desses elementos e por perto de 90% do refino, e desde 2025 exige licença prévia para exportar vários deles.
O produto da nova fábrica é uma borracha de butadieno, um dos principais tipos de borracha sintética usados na indústria, conhecida pela resistência ao desgaste. Na versão feita com catalisadores de terras-raras, o material apresenta maior resistência mecânica, melhor desempenho em baixas temperaturas, menor geração de calor durante o uso e maior resistência a rasgos do que o obtido com catalisadores convencionais, como os de níquel.
Por que os elétricos entram na conta
Segundo o Instituto de Química Aplicada de Changchun, essas características tornam o composto especialmente adequado para pneus de veículos elétricos, que exigem borrachas mais resistentes por causa do peso adicional das baterias e do elevado torque dos motores, além de aplicações em veículos pesados.
A tecnologia também já foi testada industrialmente. A Shandong Shenchi Petrochemical produziu pneus de caminhão substituindo 50% da borracha natural por borracha de isopreno obtida com catalisadores de terras-raras. De acordo com o Centro de Testes da Associação da Indústria da Borracha da China, o material registrou taxa de vulcanização equivalente à da borracha natural e desempenho básico superior ao de produtos importados.
Uma estratégia que começou nos anos 1950
A borracha sintética é produzida sobretudo a partir de derivados de petróleo, como estireno e butadieno — ao contrário da natural, extraída de seringueiras. Pesquisas divulgadas pelo instituto de Changchun apontam que o país passou a investir na área na década de 1950, diante da escassez de borracha natural e de restrições tecnológicas impostas por países ocidentais. Nos anos 1960, cientistas chineses publicaram o primeiro estudo do mundo sobre a síntese de borracha cis-butadieno com catalisadores de terras-raras. A parceria com a Dushanzi para levar a tecnologia à escala industrial existe desde 2006.
Em estudo publicado em 2020, pesquisadores do Instituto de Pesquisa da Sinopec classificaram a borracha sintética como um “importante recurso estratégico nacional”, usado em setores como transporte, indústria, defesa e bens de consumo. Para eles, a nova rota pode ampliar a produção doméstica, reduzir o déficit de borracha natural e aumentar a autossuficiência do país.
O movimento acontece enquanto a indústria brasileira de pneus perde terreno para importados asiáticos. Segundo a Anip, associação do setor, os importados chegaram a 72% do mercado de reposição de pneus de passeio e carga em janeiro de 2026, contra uma participação nacional que caiu de 66% em 2021 para 28%.
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