Genesis GV90 resgata as portas suicidas — e resolve o problema que fez a indústria abandoná-las
Topo de linha da marca sul-coreana resgata em 2027 um formato de porta que a indústria abandonou nos anos 1960 por questões de segurança
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 20/08/2026 às 17h00
A Genesis apresentou o GV90, SUV elétrico que assume o posto de topo de linha da marca sul-coreana e chega às concessionárias em 2027. O modelo estreia a arquitetura elétrica eMP, com 666 cv e 81,6 kgfm, mas o que o separa da concorrência está na lateral: as portas traseiras abrem no sentido contrário ao convencional, sem coluna B entre elas.
São as chamadas portas suicidas — apelido que a indústria vem tentando aposentar em favor de coach doors, ou portas de carruagem. A Genesis batizou o sistema de Neolun Arch Gate, referência ao conceito que originou o carro.

Por que quase ninguém faz isso
A solução é mais velha que o automóvel: veio das carruagens puxadas a cavalo e foi herdada pelos primeiros carros. O problema apareceu com a velocidade: sem cintos de segurança e com travas rudimentares, uma porta mal fechada era escancarada pelo próprio vento, e o passageiro precisava se inclinar para fora do carro em movimento para alcançá-la. Daí o apelido macabro.
O golpe final veio em 1965, quando o advogado Ralph Nader listou o dispositivo entre os itens inseguros de Unsafe at Any Speed, livro que fundou a regulação moderna de segurança veicular nos Estados Unidos. A partir dali, as portas traseiras articuladas praticamente sumiram das linhas de montagem.
No Brasil, elas tiveram sua fase: o DKW-Vemag Belcar as usou nas dianteiras até 1964, quando foram trocadas por razões de segurança. Mais recentemente, a primeira geração da Fiat Strada cabine dupla trouxe uma porta traseira invertida do lado direito, entre 2013 e 2020.

O detalhe que muda o jogo
A Strada esbarrava no problema clássico do formato: a porta de trás só abria depois da dianteira. É o que acontece também no Rolls-Royce Ghost e no antigo BMW i3. Sem coluna B, uma porta trava na outra, e a ordem de abertura vira imposição mecânica.
É exatamente aí que o GV90 se distingue. Dianteiras e traseiras abrem simultaneamente e em qualquer ordem, sem destravamento prévio. O truque está no movimento: a porta traseira desliza para fora antes de girar, o que exige um volume considerável de mecanismos alojados na lateral do carro. Um protótipo flagrado no ano passado rodava com o painel da caixa de roda removido, expondo o aparato.

A rigidez perdida com a ausência da coluna B foi compensada por uma moldura que envolve a cabine e é 50% mais espessa que a de veículos convencionais. A Genesis afirma que o SUV se comporta como um modelo com coluna B em impactos laterais e recorreu ao alumínio no assoalho para atenuar o peso extra, ainda não divulgado.
O restante do pacote acompanha a ousadia: bateria de 123,5 kWh, autonomia estimada de 499 km no ciclo norte-americano, teto de vidro com airbag próprio contra estilhaços em capotamentos, faróis formados apenas por faixas de LED e nenhum painel de instrumentos — tudo é projetado no para-brisa. Preço e data de lançamento seguem em aberto. A Genesis não opera no Brasil.

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