Hacker famoso deixa Porsche 911 de herança para o homem responsável por sua prisão

A história improvável de um dos hackers mais famosos do mundo e o presente que ele deixou justamente para quem o entregou à Justiça

Porsche 911 Carrera GT cinza na estrada
O lendário hacker Kevin Mitnick deixou o Porsche 911 como presente ao ex-algoz e posterior amigo (Foto: Porsche | Divulgação)
Por Júlia Haddad
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 23/06/2026 às 16h30

Uma tentativa de ataque hacker nos anos 1990 terminou da forma mais improvável possível: com uma herança. Shawn Nunley, então administrador de redes da Novell, recebeu do testamento de Kevin Mitnick — um dos hackers mais famosos da história e o homem que ele próprio ajudou a levar à prisão — dinheiro suficiente para comprar o carro dos seus sonhos: um Porsche 911 Carrera 4 GTS.

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Na década de 1990, Nunley cuidava da rede da Novell, dona do NetWare, um dos sistemas corporativos mais visados da época — e, por isso, alvo natural de alguém como Mitnick, que havia entrado para a história ainda em 1979, ao convencer o servidor de uma empresa de software a lhe entregar a cópia integral de um sistema operacional sequer lançado. Foi então que o administrador passou a notar sinais de uma ameaça persistente, como telefones tocando em sequência por todo o prédio. Em uma das investidas, Mitnick ligou se passando por um funcionário chamado Gabe Nault, que precisaria de acesso remoto urgente.

Para sustentar a história, o hacker afirmou trabalhar em um projeto secreto chamado Snowbird e estar de férias em Vail, no Colorado — detalhe que coincidia com a mensagem na caixa postal do verdadeiro funcionário. Ainda assim, Nunley desconfiou. Sem revelar a suspeita, pediu que o interlocutor lhe deixasse um recado na secretária eletrônica.

No dia seguinte, ao chegar ao escritório, ele gravou a mensagem em uma fita cassete, segundo o relato de Nunley reproduzido pelo site The Drive. O registro se tornaria a principal prova usada pela Justiça americana contra Mitnick, que respondia por 14 acusações de fraude eletrônica. No início, o administrador colaborou com o processo, mas, após cinco anos de adiamentos, cansou-se da forma como o caso era conduzido e deixou de cooperar com a promotoria. Pouco depois, o hacker fechou um acordo e foi libertado.

Ao deixar a prisão, Mitnick procurou Nunley para se desculpar — um reencontro que chegou a ser registrado pela revista Wired e que marcou o início de uma amizade de mais de 25 anos. Nesse período, o ex-hacker reinventou-se como consultor de segurança digital e fundou a própria empresa, hoje tocada pela família, ensinando companhias a se proteger das mesmas técnicas que o haviam tornado conhecido.

Quando morreu, em 2023, vítima de um câncer no pâncreas, Mitnick deixou um último gesto ao antigo adversário. Em testamento, reservou os recursos para que Nunley realizasse o velho sonho automotivo.

“Foi maravilhoso vê-lo se tornar um homem de verdade”, afirmou Nunley. “Estou realmente triste por sua partida, pois ele foi uma parte importante da minha vida durante o último quarto de século.”

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