Kia abrirá fábrica no Brasil se dívida bilionária for perdoada pelo governo, diz chefe da marca no Brasil
Importador exclusivo da Kia, José Luiz Gandini diz que perdão no caso Asia Motors é condição para que a matriz amplie investimentos no Brasil
Publicado em 18/07/2026 às 11h00
A Kia do Brasil pode passar por mudanças importantes, incluindo a construção de uma fábrica no país. A informação é do próprio responsável pela marca no país atualmente, José Luiz Gandini, em entrevista ao AutoPapo. Gandini esclareceu, à reportagem, informações que foram divulgadas primeiramente pelo jornalista João Anacleto.
Segundo o empresário, a matriz da Kia, na Coreia do Sul, estaria negociando o perdão de dívidas bilionárias junto ao governo federal, contraídas ao final do século XX, no incidente da fábrica da Asia Motors (veja abaixo). Caso haja o perdão, o empresário afirma que entregará o comando aos asiáticos e se tornará apenas concessionário.
“É uma negociação que não tem prazo, não tem previsão. Enquanto isso não acontece, tudo se mantém como está e eu sigo no comando da importação”, frisou José Luiz Gandini à reportagem.

Por mais que Kia e Hyundai sejam marcas do mesmo grupo, ambas operam de maneira independente no país, muito por conta de questões legais. A Hyundai, por exemplo, é comandada direto pela matriz sul-coreana, desenvolve produtos exclusivos para o mercado nacional e conta com sua fábrica em Piracicaba (SP).
A Kia, por sua vez, se limita a importar modelos produzidos no exterior, normalmente de maior valor, em operação de menor escala liderada, de modo oficial e exclusivo, pelo Grupo Gandini desde 1992. É a maior importadora sem fábrica e de atuação contínua no Brasil.
Com operação de menor escala e foco no tíquete-médio ao invés do volume, a estratégia da Kia acaba limitando as vendas da marca: no mundo inteiro, em 2025, seus emplacamentos corresponderam a cerca de 75% do volume da Hyundai; no Brasil, a Kia vendeu apenas 3% da irmã maior.

Como é tendência em todos os grupos automotivos do mundo hoje, a estratégia natural seria unificar as operações e aproveitar a estrutura da Hyundai no país para expandir fortemente a Kia nas ruas brasileiras. Para tanto, também seria necessário uma fábrica. José Luiz Gandini confirmou que soube de tal intenção dos sul-coreanos, mas não tem muitos detalhes. “A gente ouviu falar que essa fábrica da Kia seria do lado da fábrica da Hyundai, [em Piracicaba]”, contou.
O problema da Asia Motors
Nos anos 1990, a Asia Motors do Brasil recebeu redução de aproximadamente 50% dos impostos de importação, condicionada à construção de uma fábrica na Bahia. A montadora chegou a importar modelos como Towner e Topic, mas a unidade industrial nunca foi concluída.
Por conta da isenção sem a contrapartida prevista, o governo passou a cobrar os tributos economizados e as penalidades da Asia. Quando o débito foi inscrito em dívida ativa, em 2003, o principal era de aproximadamente US$ 217 milhões; depois de juros e multas, passou por cerca de R$ 1,6 bilhão, R$ 2 bilhões e chegou, segundo o STJ em 2023, a aproximadamente R$ 6 bilhões.

A Asia Motors pertencia ao grupo Kia e foi incorporada pela Kia na Coreia. A Fazenda Nacional sustenta que a Kia é sucessora e tentou redirecionar a execução fiscal contra ela. Em 2023, o STJ não encerrou a cobrança: devolveu o processo à primeira instância para que a responsabilidade da Kia fosse discutida pelo procedimento correto.
Assim, embora a dívida formal seja originária da Asia Motors do Brasil, existe risco de cobrança contra a matriz coreana. Isso desencoraja a Kia a abrir subsidiária, investir diretamente e colocar patrimônio industrial no Brasil, que poderia ficar exposto à execução.
Por isso, a operação continua nas mãos do Grupo Gandini, e a solução desse passivo é tratada como pré-condição prática para a matriz assumir o negócio e construir uma fábrica.
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