Projeto de quase uma década usa iluminação circadiana, zona de bem-estar e tripulação treinada em laboratório para combater o jet lag
A Qantas confirmou que vai inaugurar, em outubro de 2027, o voo comercial mais longo do mundo: uma rota direta, sem escalas, entre Sydney e Londres-Heathrow. É a primeira etapa concreta do Project Sunrise, projeto anunciado pela companhia australiana em 2017 para ligar a costa leste da Austrália a Londres e Nova York sem paradas técnicas. As passagens entram à venda em fevereiro de 2027.
Para tornar a façanha possível, a Qantas encomendou, em maio de 2022, doze unidades de uma versão sob medida do Airbus A350-1000, batizada de A350-1000ULR (sigla para ‘ultra long range’). A modificação central é um tanque de combustível adicional na traseira da fuselagem, que estende o alcance em cerca de 1.800 km e leva a autonomia total a aproximadamente 18.000 km. O primeiro exemplar, chamado Vega, fez seu voo inaugural de testes em 2 de junho de 2026, decolando de Toulouse, na França, para uma sessão de 3h43 que chegou a pouco acima de 41 mil pés. A entrega à Qantas está marcada para abril de 2027.
O trecho Sydney–Londres cobre cerca de 17 mil km e deve durar até 22 horas no ar, conforme os ventos. É a rota que elimina a última escala da histórica ligação aérea entre Austrália e Reino Unido, operada pela Qantas desde 1947 — quando a viagem levava quatro dias e sete paradas. Nova York também está nos planos da companhia, mas ainda não teve data de estreia anunciada.
O nome do projeto remete às missões “Double Sunrise” da Segunda Guerra Mundial, quando hidroaviões Catalina da Qantas cruzavam o Oceano Índico entre Perth e o Ceilão (atual Sri Lanka) em voos de 27 a 33 horas — longos o suficiente para que tripulação e passageiros vissem o sol nascer duas vezes.
Quantos nasceres e pores do sol os passageiros da rota comercial verão, porém, não é um número fixo: depende do horário de partida e da trajetória. Nos voos de pesquisa de 2019, o trecho Londres–Sydney (sentido leste, 19h19) rendeu de fato dois amanheceres. Numa viagem de cerca de 22 horas, o passageiro deve atravessar ao menos um ciclo completo de dia e noite, podendo presenciar dois nasceres do sol conforme a programação. A Qantas não divulgou uma contagem oficial para o voo comercial.

O treino dos tripulantes foi um dos pilares do projeto. Entre 2019 e 2020, a Qantas operou voos de pesquisa diretos de Nova York e de Londres a Sydney, com cientistas do Charles Perkins Centre (Universidade de Sydney) e da Universidade Monash a bordo. Pilotos usaram monitores de ondas cerebrais (EEG) e forneceram amostras para medir os níveis de melatonina antes, durante e depois dos voos, a fim de mapear o relógio biológico e definir os melhores períodos de descanso.
Os dados foram apresentados à Civil Aviation Safety Authority (CASA), o regulador australiano, que precisa atestar que os tripulantes conseguem encarar até 22 horas de jornada com segurança. As aeronaves do Project Sunrise terão compartimentos de descanso exclusivos para pilotos e comissários, separados da cabine, com escalas estruturadas e períodos de sono controlado. A composição em estudo prevê um comandante, um primeiro oficial e dois segundos oficiais por voo.
Para quem viaja, a estratégia gira em torno do bem-estar e do combate ao jet lag. Assim, a configuração interna terá apenas 238 assentos — a menor densidade entre todos os A350-1000 em operação no mundo —, distribuídos em quatro classes: seis suítes na First, 52 na Business (com porta deslizante, inédita na companhia), 40 na Premium Economy e 140 na Economy, das quais 42 vendidas como Economy Plus, com mais espaço entre fileiras. Mais de 40% dos assentos ficam em cabines premium.
O avião terá ainda uma ‘Wellbeing Zone‘, área aberta para alongamento, hidratação e movimentação, além de 12 cenários de iluminação — entre eles “Sunrise”, “Sunset” e “Awake” — calibrados pela ciência do ritmo circadiano para simular o amanhecer e o entardecer do destino e ajudar o corpo a se adaptar ao novo fuso. O serviço de refeições também será cronometrado pelo relógio biológico, e não pelo horário de origem. O conjunto foi desenvolvido ao longo de cerca de uma década em parceria com o Charles Perkins Centre e o escritório Caon Design.
A estreia demorou. A primeira entrega escorregou do fim de 2026 para abril de 2027, atrasando o cronograma em cerca de cinco anos ante o plano original, por causa da pandemia, de gargalos na cadeia de fornecimento da Airbus e da necessidade de redesenhar o sistema de combustível após questionamentos regulatórios. A companhia projeta que a operação possa somar mais de 400 milhões de dólares australianos por ano às receitas e já sinalizou que as tarifas devem ficar cerca de 20% acima das alternativas com uma escala, sobretudo nas classes superiores — embora os preços oficiais ainda não tenham sido publicados.
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