O que ninguém previa: venda de veículos dispara em 2026 e Brasil deve bater marca histórica

Anfavea multiplicou por quatro sua projeção e agora prevê mais de 3 milhões de veículos vendidos em 2026, o melhor resultado desde 2014

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Indústria automotiva brasileira superou expectativas e deve exceder os 3 milhões de autoveículos em 2026 (Foto: Stellantis | Divulgação)
Por Eduardo Passos
Publicado em 08/07/2026 às 15h00

A indústria automotiva brasileira caminha para reencontrar um patamar ao que não chegava há mais de uma década. A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) revisou para cima suas projeções de 2026 e agora estima que o país feche o ano com cerca de 3,01 milhões de autoveículos (automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus) emplacados — a primeira vez acima da marca simbólica dos 3 milhões desde 2014.

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A nova previsão representa um crescimento de aproximadamente 12,1% sobre 2025, quando foram vendidas 2,69 milhões de unidades. O número surpreende porque, no início do ano, a entidade projetava alta de apenas 2,7% nos emplacamentos, o equivalente a algo próximo de 2,76 milhões de veículos. Isso significa um crescimento 4,48 vezes maior do que o previsto pelos analistas inicialmente. A revisão foi puxada pelos automóveis e comerciais leves, cuja expectativa de expansão subiu para cerca de 13%, enquanto o segmento de pesados segue na contramão, com projeção de retração de 6% no ano.

A produção também foi recalculada: a estimativa passou de alta de 3,7% para 5,8%, o que deve levar a indústria a fabricar em torno de 2,8 milhões de unidades, o melhor resultado desde 2019. Ainda assim, a fabricação nacional cresce em ritmo inferior às vendas — descompasso que a Anfavea atribui ao avanço acelerado das importações.

Por que o mercado cresceu acima do esperado

O primeiro semestre explica boa parte do otimismo. Entre janeiro e junho foram emplacadas 1,42 milhão de unidades, alta de 18,5% e o melhor resultado para o período desde 2014. A produção somou 1,37 milhão de veículos (+8,8%), o melhor semestre desde 2019.

O principal motor foi a eletrificação. Em junho, os veículos eletrificados atingiram participação recorde de 20,9% nas vendas de leves, e já superam 130 mil unidades no acumulado do ano. Grande parte desse fôlego, porém, tem origem estrangeira, que acirrou a concorrência nas concessionárias. No semestre entraram 280 mil veículos importados, cerca de metade vindos da China, cujos embarques ao Brasil dobraram em doze meses. Soma-se isso a políticas de fomento da indústria local — Carro Sustentável e Move Brasil — e um mercado interno que resistiu mesmo com a taxa Selic em nível elevado.

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Apesar do bom número, a exportação de autoveículos e a produção de caminhões teve queda no ano (Foto: Volvo Caminhões | Divulgação)

A queda e a lenta retomada

Para entender por que 3 milhões viraram marco, é preciso voltar a 2014, quando o país atingiu seu pico histórico de 3,5 milhões de unidades. A recessão de 2015 e 2016, com dois anos seguidos de retração do PIB, desemprego em alta, crédito escasso e crise política, derrubou as vendas para pouco mais de 2 milhões — queda de cerca de 41% em relação ao topo. A recuperação começou tímida entre 2017 e 2019 e foi interrompida pela pandemia em 2020.

Nos anos seguintes, a escassez global de semicondutores limitou a oferta, enquanto os juros altos seguraram a demanda, mantendo o mercado estacionado na casa dos 2,1 milhões. Só a partir de 2023 o setor emendou três anos consecutivos de crescimento, ainda que contido pela Selic elevada — fator que penaliza sobretudo os veículos pesados.

Exportações em queda

Se o mercado interno acelera, o comércio exterior anda no sentido oposto: as exportações somaram 216,6 mil unidades no primeiro semestre, recuo de 21,2%. A projeção para o ano foi revista de uma leve alta, prevista em janeiro, para uma queda de 12,8%.

O principal fator é a Argentina, maior destino dos veículos brasileiros: só para o país vizinho os embarques caíram quase 60 mil unidades, reflexo da retração econômica argentina e da perda de espaço para concorrentes chineses e mexicanos na América Latina. O movimento também tem componente de base de comparação: em 2025 as exportações haviam disparado 32,1%, com salto de 85% nas vendas à Argentina.

O peso das políticas públicas

No segmento de pesados, o governo federal tentou estancar a queda com o Move Brasil, linha de crédito operada pelo BNDES para renovação de frota. A primeira fase, de R$ 10 bilhões, foi lançada em janeiro e esgotada em cerca de dois meses, com mais de 8 mil operações e 15,6 mil caminhões financiados. Em abril, o programa ganhou uma segunda etapa de R$ 21,2 bilhões, que passou a incluir ônibus, micro-ônibus e implementos rodoviários, com juros reduzidos a 11,3% ao ano e prazos de até dez anos para autônomos.

O estímulo, porém, ainda não reverteu o quadro: no semestre, as vendas de caminhões caíram 10,5% e as de ônibus, 11,6%. Junho trouxe os melhores números do ano para os dois segmentos, mas insuficientes para mudar a tendência de baixa. A recuperação dos pesados e o rumo da balança entre importações e exportações são justamente as variáveis que vão definir se a marca dos 3 milhões se confirma em dezembro.

Vendas de autoveículos no Brasil (2014–2025)

Ano Emplacamentos de autoveículos* Variação anual
2014 3.498.012
2015 2.568.976 −26,6%
2016 2.050.321 −20,2%
2017 2.239.943 +9,2%
2018 2.566.001 +14,6%
2019 2.787.850 +8,6%
2020 2.058.437 −26,2%
2021 2.120.503 +3,0%
2022 2.104.508 −0,8%
2023 2.308.966 +9,7%
2024 2.634.717 +14,1%
2025 2.690.000 +2,1%
2026 3.100.00 (est.) +12,7%

*Automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus. Fonte: Anfavea.

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