Por que a China aposta em carros a metanol, o combustível que virou caso de polícia no Brasil
Aposta da Geely mira o frio extremo, que derruba a autonomia dos elétricos, mas o combustível exige cuidados por ser muito mais tóxico que o etanol
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 04/11/2026 às 07h00
A Geely lançou nesta terça-feira (3), na China, o Xingyao 6 EF, sedã híbrido que pode rodar com metanol, gasolina ou eletricidade.
Segundo a fabricante, é o primeiro carro de passeio híbrido a metanol produzido em série no mundo. Os dois combustíveis líquidos podem ser usados em qualquer proporção no mesmo tanque, como fazem os carros flex brasileiros com etanol e gasolina.
Um sensor mede em tempo real a concentração de metanol no tanque, e a central eletrônica ajusta a injeção e a ignição de acordo com a mistura.
O motor tem eficiência térmica de 48,15%, ou seja, transforma quase metade da energia do combustível em movimento. Segundo a Geely, é o índice mais alto entre os motores a metanol produzidos em série. A injeção direta de 350 bar e a ignição de alta potência permitem dar a partida a até -40 °C.
No ciclo chinês CLTC, mais otimista que o do Inmetro, o sedã roda 230 km só com eletricidade. Com a bateria carregada, a autonomia total chega a 1.250 km com o tanque cheio de metanol e a 1.880 km com gasolina. A diferença se explica pela química: um litro de metanol tem cerca de metade da energia de um litro de gasolina.
O Xingyao 6 EF mede 4,8 m de comprimento e tem 2,76 m de entre-eixos.

Por que o metanol
O metanol, ou álcool metílico, é líquido em temperatura ambiente, como o etanol. Pode ser armazenado, transportado e abastecido de forma parecida com a gasolina, com uma estrutura bem mais simples que a do hidrogênio.
Na China, o apelo também é estratégico: o país tem pouco petróleo e muito carvão, principal matéria-prima do metanol chinês, e é o maior produtor mundial do combustível. Em Guiyang, no sul do país, mais de 90% dos táxis rodam com metanol, segundo a Geely.
O argumento da Geely para o novo modelo é o frio. No inverno do norte da China, os carros elétricos perdem boa parte da autonomia, e o híbrido a metanol contornaria o problema.
Há ainda a promessa ambiental: a Geely, que pesquisa o metanol desde 2005, aposta no chamado metanol verde, produzido a partir de gás carbônico (CO2) capturado e hidrogênio gerado com energia renovável. A marca diz ter criado um sistema que captura o carbono do escapamento para reaproveitá-lo na produção do combustível.
Histórico ruim no Brasil
No Brasil, o metanol ficou conhecido por motivos bem diferentes. Em 2025, a Operação Carbono Oculto revelou um esquema que desviou mais de 10 milhões de litros de metanol para adulterar gasolina e etanol em postos ligados ao PCC.
Em alguns deles, o metanol chegava a 50% da mistura. O limite permitido pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) é de 0,5%.
No mesmo ano, bebidas falsificadas com metanol causaram 76 casos confirmados de intoxicação e 25 mortes no país, segundo o Ministério da Saúde.
Isso porque o metanol é muito mais tóxico que o etanol e não pode ser diferenciado dele pelo cheiro ou pelo sabor. Pequenas quantidades ingeridas podem causar cegueira e morte, e a substância também é absorvida pela pele e pela respiração.
O manuseio exige outros cuidados: a chama do metanol é quase invisível à luz do dia, o que dificulta perceber um incêndio, e o líquido corrói borrachas e alguns metais, o que obriga o uso de peças específicas no sistema de combustível.
A Geely, que tem participação na operação da Renault no Brasil, não anunciou planos de vender o Xingyao 6 EF no país.
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