Por que o Brasil proíbe carros a diesel? Entenda a regra de 1976

Uma portaria de 1976 ainda proíbe o diesel em carros de passeio; entenda a origem da regra e por que ela não cai

Fiat Palio Weekend 1 7 turbo diesel
Modelos como Fiat Palio e VW Gol até tiveram motores diesel, mas só em países como a Argentina (Foto: Mosautochina | Reprodução)
Por Eduardo Passos
Publicado em 31/07/2026 às 11h00

Quem quer um carro pequeno a diesel no Brasil não encontra: não existe nenhum à venda. Não é falta de tecnologia nem desinteresse das montadoras — é uma portaria de 1976 que nunca foi revogada.

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A regra nasceu como a Portaria MIC nº 346, de novembro de 1976, e hoje vale na forma da Portaria nº 23, de junho de 1994, do extinto Departamento Nacional de Combustíveis (DNC). O texto proíbe o uso de óleo diesel em veículos de passageiros, de carga e de uso misto com capacidade de transporte inferior a 1.000 kg, incluindo aí o peso de motorista, passageiros e carga.

Por que o país trancou o diesel

Fiat 147 a álcool na linha de montagem de betim IG
Ideia do Brasil sempre foi depender menos do petróleo — o contrário do que oferece o diesel (Foto: Fiat | Divulgação)

O pano de fundo era a primeira crise do petróleo, de 1973, quando o Brasil importava quase 80% do petróleo que consumia. A portaria de 1994 explicita a lógica: o diesel tem “preço favorecido” e o país precisa importar volumes expressivos, com alto gasto de divisas. Barato por decisão política e em parte comprado fora, o combustível ficou reservado a caminhões, ônibus e máquinas agrícolas.

A restrição tem brechas: picapes com carga útil acima de 1.000 kg podem usar diesel, caso de Toyota Hilux, Ford Ranger e Chevrolet S10. Utilitários 4×4 com marcha reduzida e ângulos mínimos de ataque e saída também entraram na lista, amparados na Resolução 292/2008 do Contran. Daí a distorção: há SUV a diesel no Brasil, mas não hatch a diesel.

As tentativas de derrubar a regra

As propostas de revogar a proibição se acumulam há mais de uma década. O PL 1013/2011 chegou a ter comissão especial e parecer favorável do relator, o deputado Evandro Roman (PSD-PR); o PDL 84/2015 tentou sustar a portaria; e o PL 567/2022, do então deputado Heitor Freire (União-CE), foi apensado ao PL 1013 e aguarda comissão temporária. Nenhum chegou ao plenário.

A resistência mais dura vem da indústria: a Anfavea sustenta que o país já tem um combustível de baixo carbono à mão, o etanol. Em 2015, em audiência na Câmara, a entidade calculou que o consumidor levaria de 12 a 18 anos para compensar o custo extra do motor a diesel.

Há ainda o argumento fiscal: desde 12 de março, PIS e Cofins estão zerados sobre o diesel, renúncia estimada pelo Ministério da Fazenda em cerca de R$ 20 bilhões. O governo também paga subvenção de R$ 1,12 por litro, que custa de R$ 5 bilhões a R$ 5,5 bilhões por mês, segundo o Ministério do Planejamento — a da gasolina, de R$ 0,44 por litro, sai por R$ 1,3 bilhão. Até junho, as medidas para conter o preço dos combustíveis somavam R$ 14,55 bilhões, com outros R$ 7 bilhões previstos para julho. E de 20% a 25% do diesel consumido no país vem de importação.

Onde é livre, o diesel está sumindo

GAC Aion UT Premium branco frente parado (2)
Carros elétricos vêm tornando o diesel menos atraente em veículos menores (Foto: GAC | Divulgação)

Na Europa, o carro a diesel virou nicho. A tecnologia respondia por cerca de 55% dos licenciamentos na União Europeia em 2011 e 2012, seu auge, segundo o ICCT. No primeiro semestre de 2026, ficou em 7,5%, com queda de 16,5% em volume, aponta a ACEA. No mesmo período, os elétricos a bateria alcançaram 20,7% do mercado.

A explicação é direta: o elétrico entrega o que o diesel vendia. Quem escolhia diesel queria rodar muito gastando pouco, e o carro a bateria faz isso com custo por quilômetro ainda menor, sem o filtro de partículas e o catalisador de ureia que encareceram o motor depois do aperto nas normas de emissões e do escândalo Dieselgate, em 2015. Somem-se as zonas de baixa emissão nas cidades europeias e sobra um motor que perdeu o que tinha de melhor: ser a opção econômica.

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7 Comentários
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Santiago 7 de agosto de 2026

A restrição deve sim continuar!
Ainda hoje, e por razões um tanto semelhantes, o diesel vem requerendo subsídios e monitoramentos do governo, a fim de não faltar e nem o seu preço disparar.
Trata-se de um insumo essencial para a movimentação da nossa economia, e o continuará sendo ainda por muito tempo.
Portanto não deve ser esbanjado em automóveis de passeio, os quais já contam com ampla oferta de gasolina e etanol além da própria eletrificação veicular já em curso.

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Georges 7 de agosto de 2026

Se o governo subsidia o diesel visando atender transporte público e maquinários então caminhonetes e suvs não deveriam ser permitidos. ou abastecer sem subsídio.

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Tiburtino Lacerda 7 de agosto de 2026

Bem, o motivo principal, para a existência dessa portaria, não existe mais, a meu ver: O óleo diesel AINDA É SUBSIDIADO? Ele custa mais que a gasolina!

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Paulo Augusto 7 de agosto de 2026

Delírio total defender liberação do diesel para jipões e SUVs levando riquinhos para o litoral e para as fazendas no interior. Importamos 20 bilhões de litros de diesel por ano, de um consumo total de 70 bilhões de litros. Diesel é para o transporte público e para cargas. Parem com essa alucinação de diesel em veículos leves. Apenas parem.

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Reynaldo 7 de agosto de 2026

Com esseixo de diesel que é vendido aqui, melhor nem comercializar esse tipo de veículo mesmo.

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Daniel 7 de agosto de 2026

Com a quantidade de Biodiesel no nosso Diesel esses carros iam dar muito problema

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Rodolfo 31 de julho de 2026

Ainda bem que proíbe. Aqui no estado de São Paulo está cheio de carros a gasolina saindo fumaça azul (queimando óleo) ou com fumaça preta de carburador desregulado. Imagine se fosse motor a diesel esses carros…
Por falar em diesel o nosso transporte de carga terrestre é predominante por caminhões. Deveríamos ampliar a malha ferroviária para sermos menos dependentes dos caminhões, pois assim abaixaria o custo final dos produtos transportados. E ainda ampliar a malha ferroviária de transporte de passageiros…
Na Alemanha por exemplo tem trens de carga para todo lado. A rede ferroviária da Alemanha é muito grande e importante. O país tem cerca de 38.856 quilômetros de trilhos e move milhões de toneladas de produtos todos os anos.
Fonte:
https://www.dw.com/pt-br/as-consequ%C3%AAncias-milion%C3%A1rias-da-greve-de-trens-na-alemanha/a-68075109