Sabotagem no km 160 da Dutra: livro detalha nova tese sobre a morte de JK
Obra resgata perícias e depoimentos que questionam a versão oficial sobre o acidente que matou o ex-presidente em 1976
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 14/08/2026 às 15h00
O carro em que Juscelino Kubitschek morreu teria sido sabotado no estacionamento de um hotel-fazenda da Via Dutra, enquanto o ex-presidente se reunia com emissários do presidente Ernesto Geisel. A tese é do jornalista Alex Solnik e sustenta O Código 12, livro que ele lança agora, a poucos dias dos 50 anos do acidente, completados em 22 de agosto.
O título é a chave do argumento: segundo Solnik, código 12 designa um tipo de operação, o atentado camuflado como acidente. Entre a saída do hotel e a batida passaram-se três minutos.
Solnik acrescenta a acusação de que o hotel era fachada de uma agência clandestina do SNI, frequentada pelo general Golbery do Couto e Silva. O dono, brigadeiro Newton Villa-Forte, fundou o órgão. O jornalista cita ainda um livro inédito do agente uruguaio Mário N. Barreiro, que diz ter conhecido numa ex-fazenda de café da Dutra um “Brigadeiro Vilafão” e um agente treinado no Uruguai para sabotar carros.
Três minutos entre o hotel e a carreta
JK voltava de São Paulo para o Rio de Janeiro na tarde de 22 de agosto de 1976, no Chevrolet Opala dirigido por Geraldo Ribeiro, quando o carro atravessou o canteiro central da Dutra e invadiu a pista contrária, onde se chocou com uma carreta. Os dois morreram. A última parada havia sido o Hotel-Fazenda Villa-Forte, no km 160 da rodovia.
O primeiro a levantar a suspeita de sabotagem foi o escritor Carlos Heitor Cony, em Operação Condor, escrito com a jornalista Anna Lee. Dois dias depois do desastre, o guardador de carros do estabelecimento contou a Cony que, ao entrar na estrada, Ribeiro sentiu algo estranho no veículo e perguntou se alguém havia mexido nele. O motorista era também mecânico.
A perícia da época atribuiu a culpa ao motorista de um ônibus da Viação Cometa. Anos depois, em entrevista a Cony e Anna Lee, o próprio perito afirmou ter recebido um relatório militar que deveria servir de ponto de partida para o trabalho.
Do laudo de 2019 à certidão de óbito
A versão do acidente resistiu por décadas, mantida pelas investigações da ditadura, por uma comissão da Câmara dos Deputados em 2001 e pela Comissão Nacional da Verdade em 2014.
O quadro mudou com o inquérito civil que o Ministério Público Federal conduziu entre 2013 e 2019, divulgado em 2021 e considerado a apuração mais completa sobre o caso. O MPF descartou a colisão com o ônibus, afirmando em nota que a batida na traseira do Opala, premissa que sustentava a tese da fatalidade, jamais ocorreu. Foi nesse inquérito que o perito Sérgio Ejzenberg produziu um estudo de mais de 200 páginas concluindo que não houve um simples acidente de trânsito.
Em maio deste ano, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ligada ao Ministério dos Direitos Humanos, aprovou relatório de mais de 5.000 páginas da historiadora Maria Cecília Adão que atribui a morte de JK à ditadura. As certidões de óbito do ex-presidente e de Geraldo Ribeiro devem ser retificadas.
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