Trump ganhou um Boeing 747 de presente de outro país. Seria um cavalo de tróia?
Presente dado pelo governo do Catar a Donald Trump, o novo Air Force One vem acumulando desconfianças até de aliados do presidente dos EUA
Publicado em 09/07/2026 às 12h00
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez uma troca incomum de avião presidencial durante sua viagem à Europa nessa semana, deixando para trás o novo avião presidencial dado de presente pelo Catar, que havia sido apresentado semanas antes como seu novo Air Force One. Na quarta-feira (8), Trump embarcou no modelo antigo — um 747-200B em serviço desde 1990, comprado pelos próprios EUA — para parte do trajeto de volta, e a troca reacendeu dúvidas sobre a segurança do jato recebido de graça.
Segundo a imprensa americana, a substituição veio logo após Trump ordenar, ainda em Ancara, novos ataques ao Irã, país vizinho à Turquia, onde o presidente visitava. O avião antigo, designado VC-25A, carrega sistemas de defesa que o presente do Catar, reformado às pressas, pode não ter por completo. Questionado, o presidente negou que a mudança tivesse relação com risco e afirmou que a nova aeronave seria levada a uma base no Reino Unido para ser exibida a militares.
De jato real a “avião-ponte”

A nova aeronave foi fabricada como uma versão de série do Boeing 747-8 com interior de jatinho, sendo entregue à Qatar Amiri Flight, a frota VIP da família real do Catar, em 2012. Em 2023, o Jumbo saiu de operação. Em fevereiro de 2025, já no segundo mandato de Trump, o emir catariano enviou o avião aos EUA para que o presidente o conhecesse. O que começou como possível venda ou aluguel virou doação: o Pentágono aceitou o jato em maio de 2025, e a empresa de defesa L3Harris ficou responsável pela conversão. Estima-se que o 747-8 mais suas adaptações possam custar cerca de US$ 5 bilhões (R$ 25 bilhões)
Foram cerca de 400 funcionários em turnos ininterruptos por dez meses para entregar o avião antes de 4 de julho, segundo a L3Harris. A aeronave, apelidada de VC-25B Bridge (“ponte”, em inglês), foi revelada em 19 de junho de 2026 na Base Conjunta Andrews e ganhou pintura em vermelho, branco, azul-escuro e dourado, escolhida por Trump, em ruptura com o tradicional azul-claro usado desde os anos 1960.
O VC-25B Bridge é baseado no 747-8 Intercontinental, o maior avião comercial já feito pela Boeing. Tem cerca de 76,3 m de comprimento, aproximadamente 5,5 m mais longo que o atual, e 68,4 m de envergadura. O peso máximo de decolagem chega a cerca de 448 toneladas, um salto de aproximadamente 70 toneladas sobre o VC-25A.
O avião antigo é um 747-200B com quase quatro décadas de uso. São dois exemplares (caudas 28000 e 29000), com mais de 70 assentos e cerca de 383 km de fiação, o dobro de um 747 comum, toda blindada contra pulso eletromagnético. A hora de voo é cara e as peças de reposição estão escassas, o que motivou a busca por um substituto enquanto a Boeing atrasa os dois VC-25B definitivos.
Por que o avião velho ainda inspira mais confiança

O VC-25A é, na prática, um Boeing 747 travestido de fortaleza voadora, com um arsenal passivo de sobrevivência. Na cauda, por exemplo, o receptor de alerta AN/AAR-54(V) detecta o rastro ultravioleta da fumaça de um míssil recém-lançado; o sistema de contramedidas infravermelhas direcionadas dispara pulsos de energia para “cegar” a cabeça-guia de mísseis de calor; e o jammer AN/ALQ-204 mascara a assinatura térmica dos motores. Há ainda os clássicos chaff (fitas metálicas que confundem radares) e flares (sinalizadores quentes que atraem mísseis de calor para longe da fuselagem) para protegê-lo de diversos ataques.
A camada mais extrema é a blindagem: fiação e estrutura são protegidas contra o pulso eletromagnético de uma explosão nuclear, o que permitiria ao avião seguir operando como posto de comando mesmo em guerra atômica. Boa parte desses recursos é secreta, mas o suficiente já veio a público para se saber que o VC-25A funciona como um centro de comando blindado, não apenas como transporte.
O problema do jato catariano está aí: segundo especialistas ouvidos pela imprensa americana, a conversão acelerada teria deixado de fora parte do pacote habitual de proteção. A própria Força Aérea admitiu ter feito concessões em capacidades menos usadas para cumprir o prazo, embora afirme não ter aberto mão de segurança, comunicações e defesa essenciais.
O que o Catar quer em troca

Por trás do presente, analistas enxergam estratégia. Para críticos e especialistas em ética, o jato configuraria possível violação da Cláusula de Emolumentos da Constituição americana, que proíbe autoridades de aceitar presentes de governos estrangeiros sem aval do Congresso. O temor é que uma dádiva desse porte crie expectativa de reciprocidade em política externa, negócios de armas ou tarifas.
Segundo esses críticos, o gesto se encaixaria em um esforço mais amplo de Doha para ampliar sua influência nos EUA. Trump rebate: disse que “só um tolo” recusaria “o avião mais luxuoso do mundo” e afirmou que a aeronave pertence ao Departamento de Defesa. Ele pretende transferi-la à sua futura biblioteca presidencial ao fim do mandato, o que, para os opositores, reforça a leitura de troféu pessoal.
Enquanto isso, os dois VC-25B de nova geração, encomendados à Boeing por US$ 3,9 bilhões (cerca de R$ 20,1 bilhões) em 2018, seguem atrasados. A entrega não é esperada antes de 2028, o que pode deixar Trump sem um Air Force One comprado pelos EUA até o fim de seu governo.
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