Vendas de carros chineses crescem no mundo inteiro, menos na China
Vendas domésticas caíram 20,9% em julho, décimo recuo mensal seguido, enquanto embarques ao exterior avançaram 88% e pressionaram marcas tradicionais
sob supervisão de Eduardo Passos
Publicado em 20/08/2026 às 14h00
O mercado automotivo chinês fechou julho com o décimo mês consecutivo de queda nas vendas internas, enquanto as exportações quase dobraram no mesmo período. O desequilíbrio já redesenha as estratégias globais de Toyota, Volkswagen e das marcas de Detroit, que por décadas trataram a China como motor de lucros.
Segundo a Associação de Automóveis de Passeio da China (CPCA), as vendas no varejo de carros de passeio recuaram 20,9% em julho ante o mesmo mês de 2025, para 1,46 milhão de unidades. Na comparação com junho, a queda foi de 8,8%. No acumulado de janeiro a julho, o mercado chinês encolheu 20,5%.
No sentido oposto, as exportações somaram 923 mil veículos no mês, alta de 88%. No primeiro semestre, os embarques chineses chegaram a 5,31 milhões de unidades, 53% acima do registrado um ano antes.
Brasil é o maior destino no Sul Global
O Brasil está no centro dessa rota. O país recebeu 410.825 veículos chineses no primeiro semestre, segundo dados da CPCA divulgados por seu secretário-geral, Cui Dongshu — o segundo maior volume do mundo, atrás apenas da Rússia, com 448.157 unidades, e à frente de Reino Unido (255.260) e Austrália (237.823).
A combinação de combustível caro e economia fraca explica boa parte do tombo doméstico. A CPCA atribuiu a alta do petróleo ao fechamento do Estreito de Ormuz, que encareceu o custo de manter um carro a combustão e acelerou a migração para elétricos e híbridos. Os veículos de nova energia responderam por 65,1% das vendas totais em julho, ainda que seu varejo também tenha recuado 3,9%, para 951 mil unidades.
Marcas tradicionais sob pressão dupla
O aperto sobre as fabricantes estabelecidas vem de dois lados. Dentro da China, Mercedes-Benz, Volkswagen e BMW perdem participação em uma guerra de preços de elétricos travada em um mercado que encolhe. A General Motors, que enfrentou o mesmo cenário de investimento pesado e volume em queda, decidiu encerrar as operações da Chevrolet no país.
Fora dela, o excedente chinês chega justamente aos mercados que sustentavam as margens dessas marcas. A Geely ilustra a virada: embarcou cerca de 474 mil veículos no primeiro semestre, alta superior a 150% na comparação anual e volume já maior que o total de 2025. A meta para o ano foi elevada para aproximadamente 920 mil unidades, avanço que autoridades europeias associam a apoio estatal e apontam como distorção comercial.
Os elétricos fazem o trabalho pesado nessa expansão. As montadoras chinesas exportaram cerca de 2,4 milhões de veículos elétricos apenas no primeiro semestre de 2026, volume próximo do total embarcado em todo o ano de 2025.
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