Motocicletas começaram a chegar ao país mais tardiamente, o que ajudou na escassez das clássicas que temos hoje
A cada ano que passa, o movimento dos carros clássicos cresce, principalmente com o advento do carro elétrico que, por diversas razões, acende o sentimento do motorista que gosta de modelos vintage a combustão. Para a motocicleta, um movimento semelhante poderia ser esperado, porém, ao que parece, as motos antigas não têm tantos holofotes quanto os carros.
Segundo dados da Federação Brasileira de Veículos Antigos (FBVA), existem 256 clubes afiliados à organização. Destes, apuramos que menos de seis parecem abranger veículos de duas rodas e apenas três (Confraria Vespa Motor Clube; Escaravelhos da Serra – Assoc. de Carros, Motos, Bicicletas e Objetos Antigos; Veteran Motorcycle Club do Brasil) têm foco nas motocicletas.
Embora hoje o apelo pelas motocicletas seja maior do que o dos carros, uma vez que elas comercializam mais, por que será que existem menos motos clássicas do que carros antigos?
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Segundo o responsável pelo acervo de motos do Museu da Honda, em Indaiatuba (SP), Alfredo Guedes, a resposta pode ser mais simples do que parece e tem a ver com a chegada das motos ao Brasil e sua proposta inicial.
Guedes explica que, até os anos 1960, as motos existentes no Brasil eram principalmente europeias e americanas, como BMW, Harley-Davidson, Indian, Jawa e Norton. Eram modelos caros e usadas como item de lazer.
“Ninguém usava moto para trabalhar. Não existia delivery. A motocicleta era associada à liberdade, ao vento no rosto e à rebeldia”, afirmou o especialista.








O mercado de motocicletas que conhecemos hoje no Brasil se iniciou em 1976, quando a Honda começou a fabricar motocicletas no país. A japonesa já existia por aqui, já que desde 1971 importava oficialmente seus modelos.
Quem teve uma trajetória parecida foi sua conterrânea Yamaha, que começou a importar para o Brasil em 1970 e a fabricar em 1975.
“As vendas começaram a crescer nos anos 1970 e 1980, e as motos mais clássicas e icônicas, como as CB Four, não vinham em grandes volumes. O mercado começou a se consolidar de verdade após a inauguração da fábrica, em 1976.”
Guedes ainda afirma para nossa redação, relembrando o que não é nenhuma novidade, o fato de a popular Honda CG ter sido fundamental para mudar o mercado de motos do Brasil.

“E quem tornou a motocicleta realmente popular foi a CG. Foi depois da CG que as motocicletas ganharam volume e, principalmente nos anos 1990, passaram a ser vistas como ferramentas de trabalho. Tanto que a Honda criou a CG Cargo, em 1988, voltada especificamente para o trabalho. Durante muitos anos usamos o slogan de que o Brasil aprendeu a andar de moto com a CG. E isso é verdade.”
“Hoje, as motocicletas que as pessoas querem colecionar são aquelas que remetem a uma época em que a moto era lazer, liberdade e convivência. Eu acompanhava muitos grupos de motociclistas que se reuniam no Ibirapuera. Era um símbolo de diferenciação da juventude.”

Guedes afirma que esse fato, somado ao preço e à popularização tardia da motocicleta, indica o porquê de termos menos motos clássicas rodando pelas estradas. O especialista ainda compara as motocicletas com os carros, uma vez que eles estão no mercado como veículos populares e para trabalho há muito mais tempo, o que deu mais tempo deles serem veículos nostálgicos aos brasileiros. Hoje o cidadão torna clássico aquilo que fez parte de sua juventude.
“Quando olhamos para os carros clássicos, muitos eram carros populares. Hoje vemos Gol quadrado, Chevette, Opala e outros se tornando clássicos.”
Mesmo com o baixo volume de modelos, Guedes diz ser possível encontrar as motos mais clássicas do mercado, seja no Brasil ou no exterior.
“Inclusive, adquiri [para a Honda] três motos dos anos 1970, importadas: uma CB400 Four 1976, uma CB500 Four 1973 e uma CB750 Four 1974. Quando compramos essas motos, fizemos uma varredura muito grande para encontrar exemplares com o maior número possível de itens originais. Uma moto 100% original é muito difícil. Das três, duas são placa preta, já pertenciam a colecionadores”, explica.
Ele ainda detalha que, mesmo assim, estão fazendo uma revisão detalhada e trocando alguns itens para deixá-las o mais próximas possível da originalidade.

Muitas das motos clássicas do museu são da própria Honda, fabricadas no Brasil e mantidas na fábrica (ou destinadas imediatamente ao museu) pela marca, afirma Guedes. Porém, algumas que não foram reservadas ou importadas são procuradas pelos especialistas.
Fora os modelos Honda, o especialista marca ainda conta que as motos mais clássicas, comercializadas aqui no Brasil e que viraram símbolo para o cidadão, muitas vezes são encontradas nos interiores, utilizadas como aquela “motinha antiga”, com a manutenção às vezes fora do prazo e para simples deslocamento.
O fato das motos antigas não terem tanta representação oficial ou tanto volume quanto os carros antigos não indica que elas não existem, apenas que existem menos e que não geraram o mesmo sentimento do que os modelos de quatro rodas naquela época.
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