Algumas fabricantes antes de oferecerem e serem reconhecidas pelo o seu luxo, já trabalhavam nos campos, indo do barro ao luxo
As origens das grandes montadoras de automóveis são muito mais diversas do que o público imagina. Muitas marcas que hoje são sinônimo de status e velocidade começaram produzindo itens que nada tinham a ver com o asfalto, ou trilharam caminhos paralelos no agronegócio. Nesta coluna, exploramos cinco fabricantes de prestígio que deixaram sua marca na história dos tratores.
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Para um breve contexto: das empresas que se uniram para fundar a Daimler-Benz, a Benz & Cie. já tinha experiência na construção de tratores, em especial com arados motorizados conhecidos como Benz-Sendling. Esse sucesso fez com que, após a fundação da Daimler-Benz, a linha fosse mantida e recebesse investimentos para o desenvolvimento de novos modelos.
Em 1928, foi lançado o modelo OE, um trator monobloco cuja sigla significava Oelmotor Einzylinder (motor a óleo monocilíndrico). Equipado com um motor a diesel horizontal de um cilindro com pré-câmara, ele entregava cerca de 24 cavalos de potência, acoplado a uma caixa de marchas de três velocidades.
Curiosamente, o modelo era muito robusto e conseguia trabalhar com combustíveis de baixa qualidade e até óleo pesado. Contava com sistema de arrefecimento evaporativo e, o detalhe mais peculiar: a partida era feita por meio de cartucho e manivela. Embora resistente, sua produção foi finalizada em 1935, com 380 unidades produzidas em sete anos. O encerramento ocorreu devido à crise econômica mundial, que reduziu o poder de compra, mas a Mercedes-Benz não abandonaria o setor.

Nos anos 70, a Mercedes-Benz retornou ao campo. Os novos modelos eram baseados no Unimog, já que muitos agricultores achavam o Unimog convencional rápido demais e inapropriado para serviços pesados. Em junho de 1972, na feira agrícola DLG em Hannover, a montadora apresentou o protótipo do modelo 65/70, considerado “leve”.
A produção em série começou em 1973. Logo surgiram os modelos 900 e 1000 (médios) e a série pesada (1300 e 1500). Nos anos 80, foi lançado o 1800, equipado com intercooler. Apesar da inovação tecnológica, o MB-Trac enfrentava um obstáculo: o preço elevado, que nem sempre justificava o investimento. Em 1991, as atividades foram encerradas, mas a tecnologia foi vendida para a empresa Werner Forst- und Industrietechnik, que continuou a produção com foco no uso florestal. Entre 1972 e 1991, foram produzidos cerca de 41 mil tratores.

A Hyundai possui uma história curiosa. Nos EUA, por exemplo, é comum encontrar implementos rodoviários da Hyundai Translead, mas nosso foco hoje são os maquinários pesados.
A Hyundai Heavy Industries foi fundada em 1972 por Chung Ju-yung. Reza a lenda que, para conseguir o empréstimo inicial de um banco inglês, ele mostrou uma nota de 500 wons com o desenho de um “Navio Tartaruga” coreano do século XVI, provando que a Coreia já sabia construir navios muito antes dos ingleses. A ousadia funcionou.
A empresa tornou-se gigante na construção de estradas e navios. Inicialmente, utilizavam equipamentos de outras marcas, mas a Hyundai, insatisfeita com o desempenho, decidiu fabricar os seus próprios. Em 1987, apresentou suas primeiras escavadeiras, destinadas ao mercado interno coreano, que vivia um boom de infraestrutura.
No início dos anos 90, a série Robex ajudou na consolidação internacional. Nos anos 2000, entraram no segmento agrícola em parceria com a TYM (Tong Yang Moolsan). Em 2021, a Hyundai comprou sua principal concorrente, a Doosan, passando a se chamar HD Hyundai Construction Equipment.

Semelhante à Mercedes, a história da Volvo CE começou cedo. Em 1832, Johan Theofron Munktell fundou uma oficina. Em 1853, ele construiu a primeira locomotiva da Suécia e, em 1913, lançou o primeiro trator sueco, o ME 30-35.
Paralelamente, em 1832 (mesmo ano de Munktell), os irmãos Bolinder fundaram uma empresa focada em motores marítimos. Mais tarde, as empresas se uniram, criando a Bolinder-Munktell (BM). Nos anos 50, a Volvo — que já fabricava carros e caminhões — adquiriu a BM para entrar no segmento de construção, surgindo a Volvo BM.
Em 1954, apresentaram a H10, a primeira pá carregadeira do mundo com braços de elevação paralelos. Em 1985, a Volvo uniu forças com a Clark Michigan, expandindo seu portfólio. Em 1998, comprou a divisão de equipamentos da Samsung na Coreia do Sul.
Atualmente, a Volvo CE é líder em inovação, produzindo caminhões articulados (os “Caminhões Lagartixa”) e desenvolvendo escavadeiras 100% elétricas.

Ferdinand Porsche não projetou apenas o Fusca; ele também recebeu a missão de criar o Volksschlepper (Trator do Povo). O objetivo era uma máquina simples, barata e modular para pequenos produtores.
O protótipo surgiu em 1938, com motor de dois cilindros arrefecido a ar e um conceito inovador de acoplamento hidráulico (embreagem fluida), permitindo trocas de marcha suaves. Com a Segunda Guerra Mundial, o projeto foi paralisado. No pós-guerra, sem fábrica própria, a Porsche licenciou o projeto para a Allgaier. Assim nasceu o AP 17, vendido como Allgaier System Porsche.
O sucesso foi tanto que a Mannesmann comprou a divisão e criou a Porsche-Diesel Motorenbau GmbH. Os tratores eram divididos em quatro categorias: Junior (1 cilindro), Standard (2 cilindros), Super (3 cilindros) e Master (4 cilindros e 50 cv). Em 1963, com o mercado saturado, a Porsche decidiu focar seus recursos de engenharia no desenvolvimento do seu esportivo mais icônico: o 911.

A história mais famosa é a de Ferruccio Lamborghini, que, após ser tratado com desprezo por Enzo Ferrari, decidiu criar um carro que superasse a marca do cavalinho rampante. Mas sua origem nos tratores é igualmente fascinante.
Mecânico da força aérea italiana na Segunda Guerra, Ferruccio notou, ao voltar para casa, que os agricultores precisavam de máquinas, mas não tinham dinheiro para novos equipamentos. Em 1948, ele criou o Carioca, um trator construído com restos de veículos militares (tanques e caminhões) da guerra.
O diferencial era um vaporizador de combustível inventado por Ferruccio, que permitia ao motor dar a partida com gasolina e depois funcionar com diesel (mais barato). O sucesso foi imediato. Em 1951, surgiu o L 33, o primeiro trator totalmente Lamborghini. Nos anos 60, a marca já fabricava seus próprios motores e foi a primeira na Itália a oferecer câmbio sincronizado de série.
Após crises econômicas e pedidos cancelados por golpes de estado na Bolívia e problemas na África do Sul, Ferruccio vendeu a divisão de tratores em 1973 para a SAME (hoje grupo SDF). A Lamborghini Trattori continua ativa até hoje, mantendo o legado de luxo e eficiência no campo.
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