Após erros e ajustes na gestão de elétricos, locadora amplia investimentos em mobilidade eletrificada, com foco em infraestrutura e rentabilidade
A recente aquisição de 10 mil carros elétricos da BYD pela Localiza&Co é um dos fatos mais relevantes de 2026 para o nosso mercado automotivo. É um movimento que injeta um volume sem precedentes de veículos eletrificados de uma só vez e sinaliza uma aposta de peso no futuro da mobilidade no Brasil. Como entusiasta da tecnologia, celebro a iniciativa. Como analista de mercado, no entanto, ligo um sinal de alerta.
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Na minha visão, é impossível não traçar um paralelo com o que aconteceu nos Estados Unidos com a locadora Hertz e a Tesla. A história, que parecia um conto de fadas da nova era automotiva, rapidamente se tornou um exemplo dos enormes desafios que essa transição impõe. A Hertz investiu pesado e, pouco tempo depois, se viu forçada a vender parte da sua frota elétrica com prejuízo.
O que deu errado por lá? Uma combinação de fatores que serve de lição: desvalorização acelerada dos veículos, impulsionada pela própria Tesla ao reduzir drasticamente os preços dos carros novos, custos de reparo muito acima do esperado e, consequentemente, uma dificuldade em revender esses ativos. A pergunta que fica é: estamos imunes a esse roteiro no Brasil? Acredito que não, e a Localiza terá que superar alguns desafios críticos.
O modelo de negócio das locadoras de veículos depende fundamentalmente da saúde do mercado de seminovos. A capacidade de revender os carros após o período de locação com uma depreciação controlada é vital para a rentabilidade da operação.
Se a BYD, conhecida por sua estratégia agressiva de preços para ganhar mercado, continuar a reduzir o valor de seus modelos novos, o valor de revenda desses 10 mil carros, que chegarão ao mercado de usados por volta de 2027 e 2028, pode ser severamente impactado. A previsibilidade no valor residual será o principal pilar para sustentar a operação.
O consumidor de um carro usado a combustão tradicionalmente se preocupa com a quilometragem, o estado da lataria e a manutenção de componentes como a correia dentada. No universo dos elétricos, a principal preocupação tem outro nome: “State of Health” (SOH), ou o estado de saúde da bateria. A bateria é o componente mais caro de um carro elétrico, e sua degradação natural impacta diretamente a autonomia e o valor do veículo.

Essa preocupação não é apenas conceitual. Estudos da McKinsey & Company mostram que desafios relacionados à autonomia e à recarga seguem entre os principais fatores que impactam a experiência com veículos elétricos, a ponto de cerca de 46% dos proprietários nos Estados Unidos considerarem voltar a modelos a combustão.
O dado reforça como o desempenho da bateria é central para a confiança no produto. Nesse contexto, o grande desafio será como certificar a saúde dessa bateria no mercado de usados, por meio de laudos transparentes e confiáveis que ainda não existem de forma padronizada no país.
Carro parado na garagem da locadora é sinônimo de prejuízo. A Hertz sofreu nos EUA com a centralização e a demora na reposição de peças da Tesla, elevando o tempo de inatividade dos veículos. Nesse quesito, a Localiza parece ter uma vantagem competitiva crucial: a nacionalização da produção da BYD em Camaçari, na Bahia.
A promessa de uma fábrica local pode garantir uma manutenção mais rápida, barata e com maior disponibilidade de peças, mitigando um dos maiores gargalos enfrentados pela Hertz.
Neste sentido, percebo que a Localiza adota uma estratégia mais prudente que a da Hertz, ao incluir também híbridos em seu plano e buscar parcerias técnicas. Essa cautela é justificada. O sucesso dessa empreitada não será medido pelo volume de locações, mas pela forma como o mercado de carros usados absorverá essa nova e massiva frota eletrificada.
O Brasil tem, sim, condições de escrever uma história com um final mais feliz. Nossa matriz energética favorável e o interesse do consumidor por novas tecnologias são trunfos importantes. Ainda assim, a jornada exigirá uma pilotagem cuidadosa, com atenção total aos movimentos do mercado e, principalmente, ao retrovisor. Estaremos observando atentamente cada curva dessa estrada.
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