‘Zero chance’: Bandeiras descarta volta à Stock Car de Bortoleto
Equipe que tirou Barrichello e Piquet Jr. do grid afirma ter investido mais de R$ 20 milhões e busca reparação na Justiça
Publicado em 17/09/2026 às 17h00
A Scuderia Bandeiras não pretende voltar à Stock Car enquanto Lincoln Oliveira (pai do piloto de Fórmula 1, Gabriel Bortoleto) estiver no comando da categoria. A posição é de Átila Abreu, piloto e comandante da equipe que deixou o campeonato na quinta etapa da temporada 2026, levando junto Rubens Barrichello, Nelson Piquet Jr. e Rafael Suzuki. Enquanto permanecer essa gestão, zero chance”, disse Abreu ao AutoPapo, ao ser questionado sobre um eventual retorno em 2027.
VEJA TAMBÉM:
- Avaliação: vale a pena apostar no Leapmotor C10 elétrico?
- Yamaha R2 é novidade global: no Brasil seria revolucionária ou um ‘tiro no pé’
- Stock Car BH 2025 cancelada? Vicar e organizador local têm versões diferentes
Atila afirma ainda que algum movimento brusco deve ser tomado para que a equipe retorne a categoria. “Se essa categoria for vendida, alguma coisa acontecer, aí sim a gente estudaria o retorno, porque temos muito carinho e apreço pelo que é a Stock Car”, afirmou. “São 47 anos. Uma categoria gigantesca, que infelizmente passa por um momento muito complicado com a atual gestão.”

Lincoln Oliveira é CEO da Vicar, promotora da Stock Car, controlador do Grupo Veloci e pai de Gabriel Bortoleto, único brasileiro na Fórmula 1.
Tudo começou com o caso da cobrança pelo kit V8
A crise que tirou a Bandeiras do grid começa, em 2025, quando a Stock Car estreou uma nova geração de carros. Saíram os sedãs e os motores V8; entraram SUVs com motor turbo de quatro cilindros, num projeto batizado de SNG01.
Foram falhas em série de motor e câmbio desde a estreia, a ponto de a categoria ganhar o apelido de “Stop Car” e de a organização precisar adiar uma etapa inteira para tentar resolver o problema. Pilotos reclamaram publicamente, alguns citando risco à própria segurança.
A reação da Vicar deu o tom da relação com o grid. Felipe Massa e Bruno Baptista foram multados em R$ 100 mil cada por criticarem a organização após a etapa de Cascavel, com base em uma cláusula contratual que proíbe participantes de fazer “comentários desprestigiosos” sobre a categoria. Um conselho técnico da CBA chegou a atestar irregularidades de segurança no SNG01.
Para 2026, a categoria voltou atrás e retomou o V8 aspirado. A correção técnica, porém, abriu a disputa que chegaria aos tribunais — porque alguém teria de pagar por ela.
Na Stock Car, as equipes não constroem os próprios carros: compram da Audace Tech, fabricante do mesmo grupo da Vicar, um pacote fechado chamado Kit de Competição. É esse padrão único que garante equilíbrio no grid, e que também deixa as equipes dependentes de um só fornecedor, já que peças e insumos saem obrigatoriamente da Audace, por um sistema próprio, o StockManager.
A Bandeiras comprou quatro kits, um para cada carro, por R$ 1.168.449,00, com garantia contratual de uso por dez anos.
O contrato previa que o projeto poderia mudar nesse período e separou as mudanças em duas categorias:
- Update: ajuste pontual de carroceria ou facelift, que a equipe executa.
- Upgrade: alteração nas características básicas do projeto, como aumento de potência.
O contrato determina que o upgrade seja pago pela Audace, pela Vicar ou por um patrocinador — nunca pela equipe. A lógica é que quem escolhe o motor e desenha o carro é a promotora, enquanto a equipe monta orçamento e vende patrocínio com base em custos previsíveis.
Trocar a motorização não é só trocar o motor. A volta do V8 exigiu novos chicotes, nova configuração de arrefecimento, novo gerenciamento eletrônico, suportes e interfaces mecânicas diferentes. E a conta chegou às equipes: R$ 178.807,00 por carro, R$ 715.228,00 no caso da Bandeiras.
As notas fiscais emitidas pela Audace descreviam o item como “venda de Kit Upgrade V8” — justamente o termo que, pelo contrato, obriga a categoria a pagar.

A justiça intercedeu pelas equipes que correm na Stock Car
Em 10 de junho, a 3ª Vara Cível de Cotia (SP) concedeu liminar proibindo a cobrança, o bloqueio do acesso ao StockManager e qualquer punição por falta de pagamento, sob multa de R$ 100 mil por descumprimento.
Abreu confirma que o processo não avançou desde então. “Processualmente, não”, respondeu.
Equipe diz que os problemas aumentaram depois da ação judicial
Ele rejeita, porém, a leitura de que a saída se resume ao Kit V8.
Foi uma das motivações. Tivemos várias questões de perseguição contra a nossa equipe.”
Segundo Abreu, o ambiente piorou justamente após o litígio. Ele cita dificuldades no fornecimento de peças e na segurança e problemas de segurança contra os carros.
O ponto que ele descreve como mais grave é tributário. A Bandeiras afirma ter questionado a categoria sobre procedimentos que, na avaliação da equipe, expunham a escuderia a riscos fiscais que não foram respondidos. Foi isso, diz Abreu, que inviabilizou a permanência diante das exigências de compliance dos patrocinadores multinacionais do time.
“Não tinha mais nenhuma segurança jurídica”, afirmou. Abreu não detalhou quais seriam os procedimentos questionados.
‘Nos sentimos muito lesados’
Com 19 anos de Stock Car, Abreu diz que o investimento perdido é da ordem de oito dígitos. “Montamos uma estrutura jamais vista no automobilismo brasileiro, investimos mais de R$ 20 milhões para montar o time, fora a contratação de profissionais. Me deparar com situações dessas, eu jamais imaginei.”
“Passei por algumas gestões, mas não tem mais segurança nenhuma jurídica, tributária, nem respeito com as equipes e com a segurança dos pilotos”, disse. “São problemas com os quais a gente não pode ser conivente.”
A equipe agora discute reparação na Justiça. Além de contestar a cobrança, pede a devolução de R$ 211.817,68 já pagos por ela e por seus patrocinadores. “A gente está em vias judiciais, buscando reparar todos os nossos direitos e tudo o que aconteceu com a gente”, afirmou Abreu.
Vicar atribui a saída a punições mantidas pelo STJD
A versão da organizadora é outra. Em nota divulgada na época, a Vicar informou que a comunicação de saída das equipes Bandeiras e Bandeiras Sports chegou depois de o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) manter, por unanimidade, penalidades aplicadas pela Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA).
Ainda segundo a Vicar, as punições decorreram de irregularidades técnicas identificadas em componentes homologados durante fiscalizações da categoria, com impacto direto sobre a segurança dos competidores. A empresa afirma que o processo seguiu os regulamentos e garantiu direito de defesa.
👍 Curtiu? Apoie nosso trabalho seguindo nossas redes sociais e tenha acesso a conteúdos exclusivos. Não esqueça de comentar e compartilhar.
|
|
|
|
X
|
|
|
Siga no
|
||||
Ah, e se você é fã dos áudios do Boris, acompanhe o AutoPapo no YouTube Podcasts:
Podcast - Ouviu na Rádio
|
AutoPapo Podcast
|
